Anti-romanceLeitura leve e onírica, Satori em Paris (1966), de Jack Kerouac (trad. Lúcia Brito - L&PM, 2010), é o relato de uma viagem de poucos dias a Paris e à Bretanha.
Apresentado como romance, este livrinho é na verdade um anti-romance, pois não existe tensão narrativa e o autor aparece como personagem, confundindo gêneros e papéis.
A história toda é o périplo francês em busca das origens de seu nome – Jean-Louis Lebris de Kerouc. O escritor quer encontrar-se com os seus antepassados, num desejo de fortalecer o conhecimento sobre si próprio. A viagem tem, por isso, um caráter religioso. De religação a um passado com ramificações profundas.
Origem
Embora vague por bibliotecas e arquivos, e converse com pessoas, a sua busca é de natureza etílica. Ele bebe o tempo todo, perdendo-se entre parisienses e bretões, numa inconsciência epifânica.
A iluminação acontece, mas ele não sabe direito como nem quando ela se deu. Do ponto de vista prático, sua viagem se frustra – ele até mantém um contato ligeiro com um possível primo – dos Lebris –, mas não traz nenhuma informação mais robusta sobre a sua árvore genealógica.
O satori se dá de forma invertida. É na viagem de volta, na coincidência de pegar o mesmo taxista a caminho do aeroporto, que ele percebe que o seu lugar não é no passado nobre da Bretanha, mas na vida ordinária da Flórida, onde vive com a mãe e a mulher, depois de dois séculos de afastamento do solo europeu, com passagens de seus ascendentes pelo Canadá. A origem não está no início, mas no destino final.
Voltar
O melhor do livro são as frases inteligentes, como esta: “Onde mais a não ser em um livro você pode voltar atrás e pegar o que perdeu?” (p.95). Na vida, isso não é possível. Temos que seguir adiante. Talvez por isso nos dediquemos tantos aos livros, por eles nos permitirem este retroagir.
0 comentários:
Postar um comentário