
Quando da morte de José Saramago, a jornalista Roberta Braga me pediu uma entrevista para a revista Ler & Cia (Edição 33, julho e agosto de 2010), do grupo Livrarias Curitiba e Catarinense. Na correria de sempre, arranjei um tempo para providenciar algumas respostas que trouxessem uma avaliação global da obra do escritor.
De tudo o que falei, apenas duas frases foram usadas na matéria assinada por Melina Pockrandt (intitulada "Escritor português deixa importante herança literária", p.21-23). Esta é uma prática cada vez mais comum em nosso jornalismo. Em outra experiência, o jornalista de um grande veículo me ouviu sobre um assunto polêmico, dizendo que sairia uma grande matéria para esclarecer a questão, e o artigo que saiu, assinado por outra pessoa, não citava minhas análises, e aproveitava para reforçar acusações. Enfim, tudo isso é apenas jornalismo.
Voltando à literatura, naquela entrevista desperdiçada, tentei pensar em poucas palavras a importância do Saramago. Aí vai, um tanto atrasado, o que tinha a dizer sobre ele:
Qual a maior contribuição de Saramago para a literatura em língua portuguesa?
Saramago deu visibilidade internacional para a nossa literatura, fortalecendo alguns de seus principais repertórios. Ele não apenas escreveu livros com um valor de leitura universal, como universalizou situações e autores da cultura da língua portuguesa. Há, por exemplo, um novo Fernando Pessoa depois de Saramago, lido agora fora da sua obra, por meio da ficção criada em O ano da morte de Ricardo Reis. Do ponto de vista estilístico, Saramago estabilizou uma maneira de narrar que tem uma base barroca, de valorização do detalhe, traduzindo isso para uma linguagem narrativa moderna, que investe em inovações. Mas a principal marca que Saramago deixa é a sua capacidade de intervir nas questões do tempo presente. Foi um autor contemporâneo, no sentido mais pleno do termo. Ele não se ausentava dos debates sobre nenhuma das questões do agora. Muitos de seus livros assumiram assim um caráter alegórico. As histórias renunciam ao realismo simples para se fazerem metáforas dos tempos de hoje.
Na sua opinião, quais características fizeram com que fosse o único autor em língua portuguesa a receber o Nobel de Literatura?
Foi o seu poder de intervenção na realidade, como eu disse acima. Ele não era apenas um escritor, um homem do campo das letras, era um homem de seu tempo, com uma visão muito definida das coisas, e com uma coragem de dizer o que tinha a dizer. O Nobel não é apenas um prêmio para a grande literatura, mas também para autores que possam influenciar a história contemporânea. Além disso, Saramago tinha uma tendência para herdar experiências de outros grandes escritores. Poderíamos dizer que ele foi herdeiro narrativo de Jorge Amado (que também concorreu ao Nobel), de Fernando Pessoa, de Ernesto Sábato, etc. Não foi um escritor isolado em uma opção de arte, mas alguém que sabia traduzir o outro em sua obra. E isso lhe deu muito valor simbólico. Por fim, a sua produção vai na contramão das negações humanas em arte – ele produziu uma obra em que literatura e autor se confundem. Toda forma de linguagem para ele estava sempre a serviço do humano.
Quais são os temas mais recorrentes nas obras de Saramago?
Nunca fiz uma análise mais detalhada disso, mas a impressão que me fica das leituras de seus livros é de que o principal elemento de sua obra talvez seja o deslocamento. O deslocamento no espaço – há muitos livros que narram viagens (Desde o roteiro Viagem a Portugal até romances como o recente A viagem do elefante). Estes deslocamentos no espaço são sempre momentos de formação dos personagens. Eles deixam a terra sagrada, o espaço da acomodação, para se experimentar em outros territórios. Estaria aí, para mim, o centro de sua obra. Mas o deslocamento também pode ser de identidade ou histórico, prevalecendo sempre a idéia de seres que se movimentam, confrontando-se. Esta idéia de mobilidade é muito contemporânea e assume valor universal pela forte tendência migratória dos povos periféricos. Em A jangada de pedra é toda a Península Ibérica que se movimenta, deixando a Europa e vagando rumo à América do Sul, num sentido contrário ao movimento de retorno à Europa.
Você declarou que ele foi um escritor-ponte. O que quis dizer com isso?
É um escritor que uniu a Europa à América Latina, aproximando-se de seus principais autores, por conta de uma visão solidária de arte. Também fez a conexão entre a tradição portuguesa, de matriz barroca, que se manifesta em tantos autores, e a modernidade. Foi elo ainda entre a concepção social da arte e o investimento em recursos estéticos. Entre o estilo mais convencional da literatura portuguesa e as inovações dos demais países lusófonos, principalmente do Brasil. Tinha uma capacidade de transitar entre tempos, estilos, países, escritores.
Quais obras de Saramago você destaca? Por quê?
Do ponto de vista da leitura, o melhor livro de Saramago é O ano da morte de Ricardo Reis. Trata-se de um livro com uma escrita mais à vontade, em que prevalece uma tensão narrativa mais acentuada. Como alegoria, os dois grandes livros são O ensaio sobre a cegueira e Todos os nomes, obras que tentam metaforizar o apagamento do mundo e a luta do indivíduo para continuar existindo como uma narrativa. Gosto também de A história do Cerco de Lisboa, pela lição de escrita que ele traz. O narrador resolve interferir no passado, recriando-o. É este o papel da literatura, explorar os possíveis que não se realizaram. Também valorizo muito os Cadernos de Lanzarote, que mostram o escritor já famoso dando respostas a questões do cotidiano e do fazer literário. Estes diários são de suma importância para conhecer o impacto do mundo sobre o artista.
Saramago deu visibilidade internacional para a nossa literatura, fortalecendo alguns de seus principais repertórios. Ele não apenas escreveu livros com um valor de leitura universal, como universalizou situações e autores da cultura da língua portuguesa. Há, por exemplo, um novo Fernando Pessoa depois de Saramago, lido agora fora da sua obra, por meio da ficção criada em O ano da morte de Ricardo Reis. Do ponto de vista estilístico, Saramago estabilizou uma maneira de narrar que tem uma base barroca, de valorização do detalhe, traduzindo isso para uma linguagem narrativa moderna, que investe em inovações. Mas a principal marca que Saramago deixa é a sua capacidade de intervir nas questões do tempo presente. Foi um autor contemporâneo, no sentido mais pleno do termo. Ele não se ausentava dos debates sobre nenhuma das questões do agora. Muitos de seus livros assumiram assim um caráter alegórico. As histórias renunciam ao realismo simples para se fazerem metáforas dos tempos de hoje.
Na sua opinião, quais características fizeram com que fosse o único autor em língua portuguesa a receber o Nobel de Literatura?
Foi o seu poder de intervenção na realidade, como eu disse acima. Ele não era apenas um escritor, um homem do campo das letras, era um homem de seu tempo, com uma visão muito definida das coisas, e com uma coragem de dizer o que tinha a dizer. O Nobel não é apenas um prêmio para a grande literatura, mas também para autores que possam influenciar a história contemporânea. Além disso, Saramago tinha uma tendência para herdar experiências de outros grandes escritores. Poderíamos dizer que ele foi herdeiro narrativo de Jorge Amado (que também concorreu ao Nobel), de Fernando Pessoa, de Ernesto Sábato, etc. Não foi um escritor isolado em uma opção de arte, mas alguém que sabia traduzir o outro em sua obra. E isso lhe deu muito valor simbólico. Por fim, a sua produção vai na contramão das negações humanas em arte – ele produziu uma obra em que literatura e autor se confundem. Toda forma de linguagem para ele estava sempre a serviço do humano.
Quais são os temas mais recorrentes nas obras de Saramago?
Nunca fiz uma análise mais detalhada disso, mas a impressão que me fica das leituras de seus livros é de que o principal elemento de sua obra talvez seja o deslocamento. O deslocamento no espaço – há muitos livros que narram viagens (Desde o roteiro Viagem a Portugal até romances como o recente A viagem do elefante). Estes deslocamentos no espaço são sempre momentos de formação dos personagens. Eles deixam a terra sagrada, o espaço da acomodação, para se experimentar em outros territórios. Estaria aí, para mim, o centro de sua obra. Mas o deslocamento também pode ser de identidade ou histórico, prevalecendo sempre a idéia de seres que se movimentam, confrontando-se. Esta idéia de mobilidade é muito contemporânea e assume valor universal pela forte tendência migratória dos povos periféricos. Em A jangada de pedra é toda a Península Ibérica que se movimenta, deixando a Europa e vagando rumo à América do Sul, num sentido contrário ao movimento de retorno à Europa.
Você declarou que ele foi um escritor-ponte. O que quis dizer com isso?
É um escritor que uniu a Europa à América Latina, aproximando-se de seus principais autores, por conta de uma visão solidária de arte. Também fez a conexão entre a tradição portuguesa, de matriz barroca, que se manifesta em tantos autores, e a modernidade. Foi elo ainda entre a concepção social da arte e o investimento em recursos estéticos. Entre o estilo mais convencional da literatura portuguesa e as inovações dos demais países lusófonos, principalmente do Brasil. Tinha uma capacidade de transitar entre tempos, estilos, países, escritores.
Quais obras de Saramago você destaca? Por quê?
Do ponto de vista da leitura, o melhor livro de Saramago é O ano da morte de Ricardo Reis. Trata-se de um livro com uma escrita mais à vontade, em que prevalece uma tensão narrativa mais acentuada. Como alegoria, os dois grandes livros são O ensaio sobre a cegueira e Todos os nomes, obras que tentam metaforizar o apagamento do mundo e a luta do indivíduo para continuar existindo como uma narrativa. Gosto também de A história do Cerco de Lisboa, pela lição de escrita que ele traz. O narrador resolve interferir no passado, recriando-o. É este o papel da literatura, explorar os possíveis que não se realizaram. Também valorizo muito os Cadernos de Lanzarote, que mostram o escritor já famoso dando respostas a questões do cotidiano e do fazer literário. Estes diários são de suma importância para conhecer o impacto do mundo sobre o artista.
miguel, olá.
ResponderExcluirlembro-me da leitura que fiz do "herdando uma biblioteca", há mais ou menos um ano. até escrevi sobre. gostei muito, muito. e me encorajou a escrever mais sobre livros e leituras.
muito legal encontrar teu blog, homônimo.
abraços, ítalo.
Obrigado, Ítalo.
ResponderExcluirEscrever em blog é um desafio para mim, pois sou da idade mecânica. Sou um imigrante no mundo tecnológico.
abraço
msn
É por essas e outras que o jornalismo apronta, que é bom ter um blog. Obrigada por nos disponibilizar a entrevist na íntegra. Gostei das respostas, sempre valorizei muito o Saramago, até porque ele sempre me agradou muito também, com seu jeito de ser, sem medo de ganhar inimigos. Beijo
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