A poesia nacional vem nos dando livros falhos. Poetas consagrados pouco têm contribuído para o enriquecimento de sua obra em particular e muito menos da literatura brasileira. As intenções geralmente são boas, mas os poemas não ultrapassam a qualidade mediana. Felizmente, sempre existem as exceções. E a coletânea Prosas seguidas de Odes mínimas (Cia. das Letras, 1992), de José Paulo Paes, é uma delas. O que pode parecer modéstia neste título revela uma consciência madura da tarefa jamais gritante e espalhafatosa de lidar com as palavras.Com uma unidade rara nas produções do gênero, o volume é aberto pelo poema “Escolha de túmulo”, que nos remete à fase terminal da vida. No entanto, as imagens que o compõem (“cavalos com cascos matinais”, “casa, pomar e galo”, “nova infância”) lembram que o fim é o começo. Este túmulo escolhido pelo poeta, onde um vôo termina e outro se inicia, pode ser lido como chave de todo livro, que vai se estruturar no resgate lírico do passado e em elementos biográficos mais recentes.
Trata-se, pois, de uma coletânea que, apesar de sintética (tem 84 páginas), abarca – privilegiando momentos e pessoas – as experiências de uma vida, falando da infância e da madureza. Em “Canção adolescente”, um auto-retrato, há a reiteração do mote do livro: a junção de passado e presente. O poeta diz ter um corpo híbrido, onde convivem partes da criança e do homem. O que faz deste um “lúcido menino”, capaz de resgatar o passado por meio de uma visada retrospectiva.
Esta hibridez pode ser encontrada num nível estrutural, o que nos revela a unidade conseguida pelo poeta. Em “Prosas” (primeira parte do livro), há uma preocupação, quase exclusiva, com o tempo perdido. Nela aparecem as figuras familiares, um encontro com Oswald de Andrade, um sonho com Osman Lins, etc. São os pontos de referência do passado. Estes primeiros poemas, intitulados “prosas” por guardarem parentesco com a crônica, comungando do mesmo estado de espírito que caracteriza o Boitempo (1968), de Carlos Drummond de Andrade. A proximidade entre o livro de Paes e este de Drummond se dá por ambos elegerem certa progressão cronológica para estruturar coletâneas poéticas que podem ser lidas como biografias. Mas a síntese e a escolha dos momentos-chaves definem a maior poeticidade das prosas de José Paulo Paes.
Esta progressão temporal, própria dos poemas da primeira parte, desemboca nas “Odes mínimas”, centradas no presente. Aqui, o poeta vai cantar (lembrando que o conceito tradicional de ode remete à música) o ser de agora, e não o que foi. É o mundo contemporâneo que lhe interessa. Trata-se de uma espécie de aprendizagem da condição de sobrevivente. As odes celebram seus objetos pessoais, companheiros desta nova etapa (a bengala, os óculos, a tinta de escrever, a televisão), e põem em nossa boca um travo amargo, mas de uma amargura serena.
Característico desta fase é o acidente biográfico da perda de sua perna esquerda, que se tornou, depois da alquimia poética, num dos mais belos poemas da moderna poesia brasileira. Paes fala da separação da perna que, sozinha, vai percorrer os insondáveis caminhos da eternidade. Esta separação foi expressa resignadamente de forma gráfica:
esquerda direita
esquerda direita
direita
direita
Nenhuma perna
é eterna
O movimento da marcha militar, caracterizado por um ritmo binário, comunica continuidade, mas a falta de uma palavra cria na estrofe em forma de gráfico uma súbita ausência, rompendo a marcha e revelando o novo estado do poeta. A segunda estrofe, com um cruel estoicismo, explicita o que ficou representado por uma vacância na primeira.
Neste poema, que pode funcionar como espinha dorsal do livro, a parte perdida no mundo será alcançada em outro Lugar ou nos campos do Nada (as maiúsculas são do poeta). Tudo daquilo do qual o poeta se sente afastado retornará, neste espaço-tempo utópico, como unidade.
É justamente aí que reside o sentido geral do livro, que começa com uma referência ao túmulo, acabando com a ode “A um recém-nascido”. O fim está no começo e começo está no fim. É a partir da imagem da morte que Paes resgata liricamente o passado. E é no momento em que sente a proximidade do fim que canta o nascimento. Aqui cabe outra comparação. O livro tem um movimento parecido com o de Morte e vida severina (1955), de João Cabral de Melo Neto. Mas a diferença é muito grande. Em Paes há um eu lírico vinculado ao poeta que faz o percurso simbólico do tema da morte para o da vida, e, ao mesmo tempo, e contraditoriamente, do passado para o presente. O fim deste percurso é um futuro informe. Creio que é o movimento nascimento-morte-nascimento, que se enquadra dentro de uma perspectiva cristã, embora com uma semente de niilismo, que fundamenta a serenidade destes poemas com alta carga dramática.
Gazeta do Povo, 28 de abril de 1994.
Miguel,
ResponderExcluirmuito bom lê-lo por aqui.
Sucesso e vida longa ao blog e às críticas.
Abraços,
Júlio
Júlio, caro
ResponderExcluirComentar livros na internet é ampliar equipamentos públicos de leitura.
Abraço
msn
Miguel, eu tenho alguns exemplares da Joaquim (pra mim, preciosidades) e numa delas tem um texto interessantíssimo de José P. Paes falando em pós-modernismo e em Drummond. O começo é intrigante, diz assim: "Como rótulo literário, o vocábulo "geração" parece-me perigoso, quando pretende designar outra coisa além de um simples fenômeno cronológico." Convite certeiro a prosseguir com a leitura, não concorda?
ResponderExcluirMas, falando agora de um escritor contemporâneo, este seu texto me fez lembrar de um conto, também seu, que muito me impressionou e que falava da chance em escolhermos uma idade da vida para passarmos a eternidade.
Miguel, porque nos fascina tanto a idéia (a fantasia) de brincar com o tempo??
Abçs
Vanessa
Oi, Vanessa
ResponderExcluirNós editamos a coleção toda da Joaquim pela Imprensa Oficial do Paraná.
O tempo é esta máquina adoecida.
abraço
msn