quinta-feira, 29 de julho de 2010

A POESIA ESTÁ VIVA

A morte de José Paulo Paes põe um ponto final em uma obra que permanecia sempre aberta para as alterações históricas. Esta disposição para a mudança, num escritor que nunca deixou que estilos coletivos se sobrepusessem à sua voz, embora nunca tenha também deixado de responder às solicitações de seu tempo, fez dele um poeta-ponte dentro da literatura brasileira. Evitando a convicção cega, soube sempre inocular nos discursos poéticos em voga um grão de ironia, buscando uma posição que, ao mesmo tempo que descentralizava as discussões, trazia à tona aspectos desvalorizados. Por conta desta característica, a história de sua poesia se confunde com o itinerário poético desta segunda metade do século.
Estreando no segundo pós-guerra, num período em que se fazia a crítica aos cacoetes modernistas, e estreando em Curitiba, um centro periférico, o seu primeiro livro (O aluno, 1947), trabalhava com elementos do que ficou conhecido como Geração de 45: o respeito aos mestres intemporais da poesia, uma apresentação formal mais sisuda, um retorno aos temas universais. Inconscientemente, no entanto, a própria atitude de se proclamar discípulo cria uma dissonância irônica que aponta para a atitude subserviente de toda uma geração.
Ainda dentro do espírito lírico do período, José Paulo escreve Cúmplices (1951), pequena coletânea de textos amorosos, dedicados à sua musa até o fim da vida: a bailarina Dora. Estes cantos esponsais guardam, no entanto, uma frescura e versos quase em prosa que contrariam o discurso poético artificial praticado na época: “Meu amor é simples, Dora, / como a água e o pão. // Como o céu refletido / nas pupilas de um cão”.
Depois do chamado dos mestres e do da amada, o poeta atende às solicitações da realidade nacional. Em 1954, com Novas cartas chilenas, ele escreve uma poesia participativa, com um olhar engajado (militava na esquerda) que percorre criticamente a formação do Brasil. Neste momento, ele não está apenas rompendo com o discurso poético dentro do qual estreou, como também abrindo-se para a tradição crítica implantada pelo Modernismo. Neste livro, o poeta passa a limpo a história do Brasil, exibindo um viés irônico que funciona como dispositivo de deslocamento da história.
Da súmula histórica do Brasil, ele parte para uma incorporação dos tensões do presente em Epigramas (1958), livro no qual se consolida a sua verve satírica. Assim, em “Bucólica”, poema que anuncia, pelo título, uma idéia edulcorada do campo, faz arte participativa: “o camponês sem terra / detém a charrua / e pensa nas colheitas / que nunca serão suas”.
Mas somente em 1967, quase dez anos depois de ter publicado Epigramas, José Paulo Paes vai intensificar o uso da síntese - presente, mas de forma marginal, nos livros anteriores. Com Anatomias, ele abdica da poesia essencialmente discursiva, absorvendo as propostas concretistas. É preciso lembrar aqui que ele só se interessa pelo concretismo no estágio participativo desta corrente, ou seja, quando os poetas paulistas buscam refletir as tensões sociais do momento. Nesta corrente, Paes encontrou um elemento propulsor para uma potencialidade poética que estava um tanto presa ao verso tradicional. Assim, podem ser creditadas tanto à ditadura quanto à redefinição do concretismo as propostas de José Paulo Paes que ficam reunidas em volumes publicados entre fins da década de 60 e fins da de 80. Nestes 20 anos, o autor vai ganhar renome nacional, passando sua poesia a ter como marcas registradas a síntese e a ironia. São cinco os livros deste período: Anatomias (1967) Meia palavra (1973), Resíduo (1980), Calendário perplexo (1983) e A poesia está morta mas juro que não fui eu (1988).
Valendo-se dos novos instrumentos concretistas (o uso das imagens, o poema composto como gráfico, a valorização da palavra em detrimento do verso etc.), José Paulo Paes consegue a proeza de não se deixar ficar passivamente na condição de discípulo. Muito pelo contrário, ele produz os mais bem realizados exemplos de poema concreto engajado, como o “Epitáfio para um banqueiro”, em que todo o mundo capitalista vai sendo decomposto a partir da palavra negócio que, como uma cebola depois de descascada, revela-se totalmente vazia:

negócio
ego
ócio
cio
0

Não podemos, no entanto, definir Paes como um concretista. Paralelamente a estes poemas, ele produziu outros, discursivos, o que revela que o autor continua preferindo ficar no entre-dois, sem assumir nenhuma postura mais extrema. A poesia está morta mas juro que não fui eu é o momento terminal de toda esta linha mais experimental de sua poesia. Aqui, ele usa a ironia contra si mesmo. No poema que abre o livro, “Acima de qualquer suspeita”, chega a duvidar da existência do poeta José Paulo Paes, em função tanto da morte da poesia (projeto de inúmeras vanguardas) quanto da consciência do fim de um tempo. Devemos lembrar que o término da ditadura, que havia impulsionado a sua produção, e o desgaste da proposta de modernidade reatualizada pelos concretistas colocavam o poeta diante de uma encruzilhada. Tanto é que este livro vai reunir os seus cáusticos epigramas, mas vai também privilegiar vários poemas de fundo autobiográfico, agrupados na seção “Geográfica pessoal”.
É esta tendência que vai se consolidar em Prosas seguidas de odes mínimas (Cia. das Letras, 1992), volume em que o poeta deixa de lado a dicção mais imediatista que marcara sua produção, iniciando novo vôo. Neste estágio, depois de um acidente que lhe rouba a perna esquerda, o poeta passa a viver mais preso à casa, o que gerou uma viagem intimista expressa em textos sobre a memória. Ele reencontra-se com a arte atemporal, escrevendo excelentes peças sobre entes queridos e objetos do dia-a-dia, num discurso compassado e extremamente comovedor.
A este retorno mítico ao passado, segue-se a publicação de dois livros com poemas antigos, recusados em outras fases de sua vida - o que não deixa de ser a própria materialização da memória: A meu esmo (Noa Noa, 1995) e De ontem para hoje (Boitempo: 1996). Deste mergulho no tempo também surgiu a sua belíssima autobiografia (Quem, eu? Atual, 1996). Nesta fase madura, José Paulo Paes fez parte do movimento de restauração do poético, servindo como farol para a geração dos anos 90, que tenta rever a concepção de literatura.

Gazeta do Povo, 17 de outubro de 1998.

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