
Pode a linguagem de massa dar conta de relatos literários extremamente densos? Esta é a pergunta que fiz diante do volume Kafka, com desenhos de Robert Crumb e textos de David Zane Mairowitz (Desiderata, 2010 – originalmente publicado em 1993).
Os autores deste volume de histórias em quadrinhos lembram da grande quantidade de livros sobre Kafka, com certeza o autor mais glosado na modernidade. Nesta variedade de abordagens, a história em quadrinhos entra como a face midiática de um discurso que nasceu como exceção.
A grandeza do livro vem da identificação profunda entre a escrita de Kafka e o desenho de Crumb, cada um, à sua maneira, explorando os tormentos da alma humana. Crumb seria um Kafka dos quadrinhos, um artista atento às nossas deformações. Num processo criativo, ele faz a apropriação pela imagem dos relatos sufocantes do escritor checo.
Para reconstruir esta maquinaria, há algumas estratégias. A primeira delas, e a mais forte durante todo o livro, é a sobreposição dos textos ficcionais e da biografia do escritor. Se lembrarmos que Kafka foi autor de milhares de cartas, inclusive a célebre Carta ao pai, e de diários, ou seja, que ele se valeu de maneira intensa de discursos autobiográficos, aceitaremos que obra e vida sejam uma coisa só. Crumb e Mairowitz passam de uma para outra sem reconhecer nenhuma fronteira.
Os personagens explicam Kafka e Kafka explica os personagens. Há certa tautologia nesta maneira de avaliar o escritor, embora ela sirva para os fins do livro, criando um impacto de leitura.
Sentimos, ao longo do álbum, uma presença sufocante. O escritor é visto como um atormentado. Embora Crumb e Mairowitz não o digam claramente, percebe-se que o drama central de Kafka vem do contato com a morte no açougue paterno. Ele se vê como um animal abatido pelo pai, originalmente um açougueiro, que faz questão de enaltecer a força, o poder de destruir próprio do mais forte. Kafka irá construir a sua vida e sua obra no lado oposto, tentando entender o sofrimento dos seres frágeis, fazendo-se inclusive vegetariano. Ele próprio é a encarnação desta precariedade física e psicológica, própria de alguém sufocado pela figura paterna.
O pai é o inimigo, o dominador, o homem prático, alguém que ocupa todos os espaços, como diz Mairowitz: “Ele imaginava o corpo do pai deitado em diagonal sobre o mapa do mundo” (p.33).
À sombra deste gigante (versão terrena do Golem destruidor), o escritor tenta criar uma trajetória de solidariedade, que expresse os tormentos de pessoas submetidas a todas as formas de poder.
As imagens contrastantes do livro são a do homem poderoso (gordo, peludo, vociferante) e a do homem frágil, magro, tímido. Crumb traduz os principais textos de Kafka sempre usando este padrão que se manifesta na oposição entre Hermann e Franz Kafka. Toda a produção do checo seria uma variação do drama vivido com o pai autoritário, que se deixou integrar-se ao sistema, ignorando suas origens judaicas, e se fez um terrível algoz familiar. A ficção seria proliferações do subconsciente do escritor.
Por conta deste caminho de leitura, Kafka é visto apenas como atormentado. Nenhuma alegria, nenhuma pacificação, o que o torna quase um monstro. Esta questão e a sobreposição do escritor e dos seus escritos são as duas principais limitações do livro, que não deixa de ser uma entrega ao senso comum sobre Kafka.
Um senso comum combatido por Crumb e Mairowitz, que lembram como o adjetivo kafkiano tomou lugar do substantivo próprio. O livro é uma tentativa de dar espessura ao termo. Mas, em boa medida, reforça a idéia corrente sobre o autor.
Os autores ainda produzem um posfácio, talvez a parte mais interessante do livro para quem conheça a obra de Kafka. Nele, eles revelam como Kafka habitou o imaginário de Praga em vários momentos históricos, mostrando que, hoje (anos 90), ele se mantém como um produto da indústria turística. O que era tormento e mistério, o que era sombrio, virou apenas um souvenir, uma grife, entregue ao mercado. Kafka, como marca, faz parte de um sistema (e, se seu pai o visse, ficaria feliz com o sucesso comercial póstumo do filho), e se presta a dar um verniz de cultura a turistas interessados numa percepção meramente biográfica – e resumida – do autor, apreendido por uma vida mitificada como bizarra.
Assim, a tradução para imagens – feita com intenção de grande arte, e de fato o é – acaba se destinando ao mesmo público que freqüenta Praga com o espírito leve dos turistas. Há uma facilitação que talvez não leve à obra do escritor, mas que cria uma sensação de que ele pode ser consumido rapidamente pela grande massa.
A fragilidade do Kafka de Crumb não vem da má execução de um projeto, mas da própria proposta. É impossível encurtar uma obra sem diminuí-la.
Os autores deste volume de histórias em quadrinhos lembram da grande quantidade de livros sobre Kafka, com certeza o autor mais glosado na modernidade. Nesta variedade de abordagens, a história em quadrinhos entra como a face midiática de um discurso que nasceu como exceção.
A grandeza do livro vem da identificação profunda entre a escrita de Kafka e o desenho de Crumb, cada um, à sua maneira, explorando os tormentos da alma humana. Crumb seria um Kafka dos quadrinhos, um artista atento às nossas deformações. Num processo criativo, ele faz a apropriação pela imagem dos relatos sufocantes do escritor checo.
Para reconstruir esta maquinaria, há algumas estratégias. A primeira delas, e a mais forte durante todo o livro, é a sobreposição dos textos ficcionais e da biografia do escritor. Se lembrarmos que Kafka foi autor de milhares de cartas, inclusive a célebre Carta ao pai, e de diários, ou seja, que ele se valeu de maneira intensa de discursos autobiográficos, aceitaremos que obra e vida sejam uma coisa só. Crumb e Mairowitz passam de uma para outra sem reconhecer nenhuma fronteira.
Os personagens explicam Kafka e Kafka explica os personagens. Há certa tautologia nesta maneira de avaliar o escritor, embora ela sirva para os fins do livro, criando um impacto de leitura.
Sentimos, ao longo do álbum, uma presença sufocante. O escritor é visto como um atormentado. Embora Crumb e Mairowitz não o digam claramente, percebe-se que o drama central de Kafka vem do contato com a morte no açougue paterno. Ele se vê como um animal abatido pelo pai, originalmente um açougueiro, que faz questão de enaltecer a força, o poder de destruir próprio do mais forte. Kafka irá construir a sua vida e sua obra no lado oposto, tentando entender o sofrimento dos seres frágeis, fazendo-se inclusive vegetariano. Ele próprio é a encarnação desta precariedade física e psicológica, própria de alguém sufocado pela figura paterna.
O pai é o inimigo, o dominador, o homem prático, alguém que ocupa todos os espaços, como diz Mairowitz: “Ele imaginava o corpo do pai deitado em diagonal sobre o mapa do mundo” (p.33).
À sombra deste gigante (versão terrena do Golem destruidor), o escritor tenta criar uma trajetória de solidariedade, que expresse os tormentos de pessoas submetidas a todas as formas de poder.
As imagens contrastantes do livro são a do homem poderoso (gordo, peludo, vociferante) e a do homem frágil, magro, tímido. Crumb traduz os principais textos de Kafka sempre usando este padrão que se manifesta na oposição entre Hermann e Franz Kafka. Toda a produção do checo seria uma variação do drama vivido com o pai autoritário, que se deixou integrar-se ao sistema, ignorando suas origens judaicas, e se fez um terrível algoz familiar. A ficção seria proliferações do subconsciente do escritor.
Por conta deste caminho de leitura, Kafka é visto apenas como atormentado. Nenhuma alegria, nenhuma pacificação, o que o torna quase um monstro. Esta questão e a sobreposição do escritor e dos seus escritos são as duas principais limitações do livro, que não deixa de ser uma entrega ao senso comum sobre Kafka.
Um senso comum combatido por Crumb e Mairowitz, que lembram como o adjetivo kafkiano tomou lugar do substantivo próprio. O livro é uma tentativa de dar espessura ao termo. Mas, em boa medida, reforça a idéia corrente sobre o autor.
Os autores ainda produzem um posfácio, talvez a parte mais interessante do livro para quem conheça a obra de Kafka. Nele, eles revelam como Kafka habitou o imaginário de Praga em vários momentos históricos, mostrando que, hoje (anos 90), ele se mantém como um produto da indústria turística. O que era tormento e mistério, o que era sombrio, virou apenas um souvenir, uma grife, entregue ao mercado. Kafka, como marca, faz parte de um sistema (e, se seu pai o visse, ficaria feliz com o sucesso comercial póstumo do filho), e se presta a dar um verniz de cultura a turistas interessados numa percepção meramente biográfica – e resumida – do autor, apreendido por uma vida mitificada como bizarra.
Assim, a tradução para imagens – feita com intenção de grande arte, e de fato o é – acaba se destinando ao mesmo público que freqüenta Praga com o espírito leve dos turistas. Há uma facilitação que talvez não leve à obra do escritor, mas que cria uma sensação de que ele pode ser consumido rapidamente pela grande massa.
A fragilidade do Kafka de Crumb não vem da má execução de um projeto, mas da própria proposta. É impossível encurtar uma obra sem diminuí-la.
Parabéns pelo seu blog que foi mencionado no blog que indica blogs: http://ednamoda.blogspot.com/
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