
Assim como Amuleto (1999), ramo narrativo ampliado a partir de uma cena de Os detetives selvagens (1998), o quinto romance de Bolaño, originalmente publicado em 1996, Estrela distante (Cia. das Letras, 2009, trad. Bernardo Ajzenberg) foi desentranhado de um de seus mais conhecidos livros – A literatura nazi na América (1996), um dicionário de escritores que pactuaram com a direita. Em Estrela distante, a figura do poeta continua central. Agora, o personagem catalisador da história é um pretenso autor de vanguarda que encarna os horrores da ditadura chilena. Também reaparecem as estratégias narrativas que notabilizaram Bolãno. Há um momento de concentração de trajetórias seguido de uma dispersão e da urgência de entender aquele passado, movimento próprio das recentes diásporas latino-americanas.
No início, candidatos a poetas vivem no Chile, mais precisamente na cidade de Concepción, freqüentando provincianamente duas oficinas de poesia, a de Juan Stein e Diego Soto, poetas locais com formação diferente, que preparavam uma nova geração no alvorecer dos anos 70, quando o Chile se entusiasmava com o governo de Salvador Allende.
Tudo ainda é virtualidade na vida desses jovens, entre os quais se encontram o narrador, o já legendário personagem de Bolãno, seu alterego Arturo B, duas irmãs gêmeas, que são as mais queridas do grupo, e uma figura que foge ao padrão comportamental do poeta – um jovem frio, que se declara autodidata e se tem em grande conta. Este se apresenta com o nome de Alberto Ruiz-Tagle e mantém uma aura de mistério em torno de sua vida e de sua futura obra, esperada como uma revolução estética.
Revolução esta que se confundirá com a ditadura de Pinochet, espalhando a morte entre as pessoas. Neste ambiente de horror, ressurge Ruiz-Tagle, agora no papel de poeta de vanguarda e com outro nome, Carlos Wieder. É um poeta-aviador, símbolo do progresso tecnológico em arte, que escreve, tal como um novo cavaleiro do apocalipse, suas obras com fumaça – isso mesmo, com fumaça – nos céus do Chile, desenhando versos em tom bíblico. Eleva-se à altura de astro, numa “carreira que, naquela época, o tempo das exibições áreas, recebeu o respaldo de um dos mais influentes críticos literários do Chile (coisa que literariamente falando não quer dizer nada, mas que no Chile, desde os tempos de Alone, significava muito)” – p. 40. Enquanto cresce sua fama, patrocinada pelo governo e pelos juízes literários de formação católica, ele acaba se isolando, o que o leva a expor-se em sua obra mais radical – uma instalação num apartamento, depois de um show aéreo quase suicida. O evento para um pequeno grupo se resume à exposição de fotos das poetas gêmeas, que Wieder matara provavelmente a mando do governo, e de outros cadáveres. Numa metáfora forte, o poeta de direita é apresentado ao leitor como um assassino em série, e revela ali a radicalização de sua arte-ação: as imagens dos corpos mutilados. É o fim de sua carreira. Daí para frente, Wieder será uma sombra se movendo clandestinamente pelo mundo.
A ditadura dispersara aquele grupo, e Arturo acaba em Barcelona, quando recebe a visita de um famoso ex-detetive conterrâneo, também no exílio, que tenta reencontrar Wieder para um cliente, ganhando assim dinheiro para voltar ao Chile. O poeta-aviador viveria foragido com outras identidades e o investigador quer a ajuda de Arturo para rastreá-lo em publicações menores – verdadeiro trabalho para um detetive-poeta. Este encontra assim a chance de corrigir um pouco o passado tenebroso de seu país, vingando os amigos mortos ou esquecidos.
Romance sobre a contigüidade entre certa vanguarda literária e postura nazista, Estrela distante é um dos melhores romances de Bolaño, curto e denso, escrito a partir de sua percepção de poetas como mártires de equívocos estéticos e históricos.
No início, candidatos a poetas vivem no Chile, mais precisamente na cidade de Concepción, freqüentando provincianamente duas oficinas de poesia, a de Juan Stein e Diego Soto, poetas locais com formação diferente, que preparavam uma nova geração no alvorecer dos anos 70, quando o Chile se entusiasmava com o governo de Salvador Allende.
Tudo ainda é virtualidade na vida desses jovens, entre os quais se encontram o narrador, o já legendário personagem de Bolãno, seu alterego Arturo B, duas irmãs gêmeas, que são as mais queridas do grupo, e uma figura que foge ao padrão comportamental do poeta – um jovem frio, que se declara autodidata e se tem em grande conta. Este se apresenta com o nome de Alberto Ruiz-Tagle e mantém uma aura de mistério em torno de sua vida e de sua futura obra, esperada como uma revolução estética.
Revolução esta que se confundirá com a ditadura de Pinochet, espalhando a morte entre as pessoas. Neste ambiente de horror, ressurge Ruiz-Tagle, agora no papel de poeta de vanguarda e com outro nome, Carlos Wieder. É um poeta-aviador, símbolo do progresso tecnológico em arte, que escreve, tal como um novo cavaleiro do apocalipse, suas obras com fumaça – isso mesmo, com fumaça – nos céus do Chile, desenhando versos em tom bíblico. Eleva-se à altura de astro, numa “carreira que, naquela época, o tempo das exibições áreas, recebeu o respaldo de um dos mais influentes críticos literários do Chile (coisa que literariamente falando não quer dizer nada, mas que no Chile, desde os tempos de Alone, significava muito)” – p. 40. Enquanto cresce sua fama, patrocinada pelo governo e pelos juízes literários de formação católica, ele acaba se isolando, o que o leva a expor-se em sua obra mais radical – uma instalação num apartamento, depois de um show aéreo quase suicida. O evento para um pequeno grupo se resume à exposição de fotos das poetas gêmeas, que Wieder matara provavelmente a mando do governo, e de outros cadáveres. Numa metáfora forte, o poeta de direita é apresentado ao leitor como um assassino em série, e revela ali a radicalização de sua arte-ação: as imagens dos corpos mutilados. É o fim de sua carreira. Daí para frente, Wieder será uma sombra se movendo clandestinamente pelo mundo.
A ditadura dispersara aquele grupo, e Arturo acaba em Barcelona, quando recebe a visita de um famoso ex-detetive conterrâneo, também no exílio, que tenta reencontrar Wieder para um cliente, ganhando assim dinheiro para voltar ao Chile. O poeta-aviador viveria foragido com outras identidades e o investigador quer a ajuda de Arturo para rastreá-lo em publicações menores – verdadeiro trabalho para um detetive-poeta. Este encontra assim a chance de corrigir um pouco o passado tenebroso de seu país, vingando os amigos mortos ou esquecidos.
Romance sobre a contigüidade entre certa vanguarda literária e postura nazista, Estrela distante é um dos melhores romances de Bolaño, curto e denso, escrito a partir de sua percepção de poetas como mártires de equívocos estéticos e históricos.
Não tenho muito a acrescentar, quase nada. Só agradecer a lembrança que sua narrativa me trouxe do texto. Sim, agradeço também os seus ótimos esclarecimentos. Obrigado e abraços.
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