terça-feira, 10 de agosto de 2010

O MELHOR REVÓLVER PARA MATAR AMANTE

Reunindo contos de Anton Tchékov (1860-1904) publicados em jornal entre 1882 e 1887, Um negócio fracassado e outros contos de humor (L&PM, 2010 – trad. Maria Aparecida Botelho Pereira Soares) serve como uma viagem estilística e temática aos anos de formação deste inventor da narrativa curta moderna. É um Tchékov ainda anterior ao autor de contos inconclusivos, em que tudo está antes sugerido do que dito. Por isso mesmo é um livro importante, por nos mostrar de que base narrativa saiu o escritor.
Nestas pequenas histórias (ao todo são 38) que tendem para a crônica, Tchékov quer divertir o leitor. Esta é uma função literária tão nobre como qualquer outra, e tem uma adequação perfeita ao meio jornalístico. Naqueles anos iniciais, recém-formado na Faculdade Medicina, o jovem contista paga as suas contas entretendo os leitores com casos saborosos. E esta é outra função nobre do texto literário – pagar as contas dos escritores.
A estrutura é sempre a mesma. O conto começa com um fato que aponta para algo intenso, para um grande sentimento, uma elevação qualquer, e logo se revelam as reais intenções de personagens que nada têm de heróicos. São contos da imposição de uma vida banal, de um pragmatismo que cria efeitos irônicos, reduzindo todos os personagens a uma estatura mínima. Os acontecimentos surgem num crescendo dramático para se resolver como comédia. Há um efeito sanfona nestas narrativas, de enchimento e esvaziamento dramático.
Se a fórmula anedótica prevalece, diminuindo a estatura das narrativas, há uma análise primorosa da sociedade russa, com a corrupção dos funcionários públicos, os interesses pessoais se sobrepondo a toda forma de idealismo, uma tendência para a mesquinharia e outros sentimentos pouco louváveis. Porque o conto de humor é antes de tudo um conto crítico, que zomba das pretensões altruísticas de figuras interessadas apenas no próprio bem-estar.
Uma visão crítica domina todas as narrativas – a da comercialização das atitudes. As famílias vinculadas ao comércio são tidas como desprezíveis, mas tudo, principalmente o funcionalismo público, se rende a este espírito de vendilhão. Neste universo onde prepondera a busca do lucro, as atitudes mais elevadas caem por terra. São máscaras. E por isso produzem o riso.
Para produzir este efeito, as narrativas trabalham com uma estrutura fechada. O final tem grande importância para a economia deste tipo de texto. Em um ou outro momento, no entanto, surgem aberturas que apontam para o estilo maduro de Tchékov, que já estava se colocando a caminho. Isso é bem visível em “O marido”, publicado em 09 de agosto de 1886. Depois de retirar a mulher feiosa de um baile em homenagem a um regimento que visita a cidade, momento em que ela se experimenta bela e desejável, o marido conduz a esposa de volta para a vidinha de sempre. Ela então ouve ao longe aquela alegria sonora: “Enquanto isso, a música retumbava, e as trevas estalavam povoadas dos sons mais convidativos à dança” (p.167). Não há um desfecho humorístico para a situação. O fim traz um drama destas vidas apagadas da província, que vão se distanciando mesmo das menores distrações. É um conto doído.
Mas a força desta coletânea está no poder um tanto rude do riso, que se manifesta a cada duas ou três páginas. O conto mais intensamente engraçado é o último, “O vingador”. Nele, um marido vai à loja de armas para comprar um revólver com o projeto de matar a mulher, o amante dela e depois cometer o suicídio. O vendedor lamenta o fato de os homens acharem normal a traição, não matando as esposas. Falando do Smith & Wesson, o revólver da moda, ele diz:
“Diariamente vendemos um dezena deles, para atirar em bandidos, lobos e amantes. Tem um tiro muito forte e certeiro, alcança uma grande distância e mata com um só tiro a esposa e o amante. Quanto a suicídios, monsieur, não conheço sistema melhor” (p.201).
Falar tão abertamente destas finalidades da arma acaba tendo um papel catártico. O comprador desiste do crime e, para não sair de mãos abanando, leva uma rede de caçar codornas.
Se há muito humor nestes contos, há também sutilezas. Na medida em que estas vão se intensificando, Tchékov deixa de ser o jovem que quer divertir o leitor para se fazer o grande escritor que nos ensina a olhar mais para os dramas do que para as farsas.

2 comentários:

  1. Estou lendo o "Chá das cinco com o vampiro" e irei escrever sobre ele para o jornal em que sou colaborador. Abraço.

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  2. Oi, Petry

    Espero que goste do livro.
    Abraço do
    msn

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