Há um fascínio na forma como Adélia Prado (1935) manifesta o incômodo de pertencer a um corpo e a uma alma que a solicitam permanentemente. É deste confronto que vem a sua poesia, tentativa de unir aquilo que se encontra em planos distintos, com temporalidades excludentes. A poesia então seria a abertura de fendas mínimas entre eles. O vazamento de um no outro.O seu misticismo, com toda uma sintaxe católica, se conjuga com um erotismo que poderíamos chamar de escatológico. O corpo se faz fezes, mas é dele, de sua falência, que vem um gozo carnal e místico. Não é apenas erótico porque o corpo neste estado de humilhação cristã não corresponde a uma idealização da beleza onde se traduzem os desejos mais fáceis. É um corpo ferido, cristianizado, em chagas, envelhecido mesmo quando jovem. Mas é um corpo sempre pulsante. É nesta concepção ambígua da carnalidade, fora de uma padrão de beleza, que o catolicismo da poeta se manifesta com intensidade literária, fora da linguagem meramente religiosa.
Deste habitar-se duplamente nasce a grandeza de Adélia Prado, que a cada novo (e espaçado) volume de poesia vai dilatando este estranhamento salvífico. No recente A duração do dia (Record, 2010), ela segue afinando a sua voz, que vem se fazendo maior do que os poemas.
O que quero dizer com isso?
Lemos seus livros não mais para buscar os textos individualizados, que nos nocautearia, mas para ouvir a voz dilacerada entre dois mundos.
A voz vale mais do que os textos em si.
Assim, percorremos a via crúcis desta poesia como se não houvessem paradas, numa leitura contínua. Quem já ouviu a poeta falando os seus poemas ao vivo, reconhece-se nesta voz aliciante, que nos conduz por um drama humano que é de todos, mas que Adélia intensifica para colocá-lo no centro de uma era materialista.
Neste volume, vamos encontrar a eterna voz de Adélia. Sua preferência pelos loucos, pelos humildes, pelas mulheres e pelas crianças, a valorização de um cotidiano social que guarde pequenas iluminações místicas, a linguagem bíblica, a volta ao seu tempo de menina...
Há alguns momentos que são clichês, mas clichês com intensidade, e que funcionam nesta linguagem que não quer destoar da de seu universo social. Mas não é isso que tira a individualidade de seus poemas, embora contribua para tal processo, e sim uma gramática de diário que ela usa para escrever poesia. O próprio título indica o valor do dia. É mais um diário em versos do que conjunto de poemas bem estruturados.
Três poemas guardam o poder de se destacar do fluxo de anotações.
“Alvará de demolição”, uma verdadeira poética:
O que precisa nascer
tem sua raiz em chão de casa velha.
À sua necessidade o piso cede,
estalam rachaduras nas paredes,
os caixões de janela se desprendem.
O que precisa nascer
aparece no sonho buscando frinchas no teto,
réstias de luz e ar.
Sei muito bem do que este sonho fala
e a quem pode me dar
peço coragem.
É a defesa de uma poesia com densidade humana, que vincule este eu a outros tempos, a outras experiências, em que os espaços distantes se reúnem. Isto que é transformado em um ideal, surge como enredo em outro poema, “Tenda e cimitarra”, em que a ex-menina se lembra de um amor por um turco maravilhoso, mais velho do que ela, num momento de desejo que a deslumbrou na infância, e que agora, com a velhice, diante da visita pela memória deste homem do passado, promove uma inversão – a velha é ela. Há um encontro/desencontro de tempos.
Há ainda “Aproveitamento da matéria”, poema sobre a matéria humana, que não é apenas barrosa, mas menos nobre ainda, neste reconhecimento da humilhação de ser. O poema conclui com versos fortes, ecoando Santo Agostinho:
Vim de um oco sangrento,
é entre fezes e urina
que nasci.
Nestes momentos, a voz de Adélia Prado se intensifica e se faz poema. Em outros, é uma voz de diário, que em uma ou outra anotação deixa reluzir versos avulsos muito intensos.
Estas duas faces de sua poesia não revelam uma essencialidade poética contra uma superficialidade da crônica, mas faz parte da construção de uma poesia que se alimenta deste material reaproveitado da vida e de suas ninharias. Em uma (a mais extensa), descansamos dos excessos e das desrazões da outra (a vertical).
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