sexta-feira, 20 de agosto de 2010

OUTRA HISTÓRIA DE LEITURA


Ainda ontem, outro e-mail que me derrubou. É mais um texto que demonstra o processo curativo que a literatura desencadeia. Fazia muito tempo que não tinha notícia da família de Jamil Snege. Este escritor foi uma das minhas grandes influências literárias. Éramos ácidos um com o outro. Nossa amizade sempre foi feroz. Mas nos últimos anos da vida dele, não passamos um dia sem um telefonema. Aos domingos, fazíamos em família visitas a restaurantes rústicos na periferia de Curitiba.
Escrevi a orelha de livros dele, organizei dois deles e eu talvez tenha sido a única pessoa que leu os fragmentos de O grande mar redondo, o romance que ele deixou inconcluso.
Com a morte dele e minha mudança para Ponta Grossa, perdi-me da família.
Soube por alguns amigos que o filho Jean-Marcel Snege, apenas um menino uma década atrás, estava seguindo o caminho da literatura.
Ao receber ontem o e-mail dele, fiquei cabrito [essa era uma palavra que o Jamil sempre usava]. Fui tão massacrado pelo último romance (no qual, segundo a opinião de tanta gente, eu não perdôo nenhum de meus amigos) que achei que sofreria mais agressões. Daí recebo as palavras de compreensão de Jean, que me agradece por devolvido imagens do pai dele, coisas que ele viveu e que a minha ficção agora o ajudou a entender.

Caro Miguel:

Acabo de ler Chá das cinco com o vampiro.
Apesar de repudiar as polêmicas e a dificuldade que alguns encontraram em aceitá-la como obra de ficção, devo admitir que embarquei na leitura como testemunha, buscando detalhes desses anos que vivi sem entender direito o que se passava.
Desde que perdemos o Jamil, estive afastado dessas conversas e desse pequeno mundo. Pra mim, inclusive, é bastante complicado lembrar do Jamil, de como ele era, de nossas conversas, de qualquer coisa.
Talvez eu tenha aceitado um luto amnésico, onde borrei essas lembranças. Tenho seus livros em meu criado-mudo, mas meu pai não é aquele Jamil do Como eu se fiz por si mesmo. Para a minha surpresa, ao ler o Chá das cinco, revivi diversas situações que trouxeram cor às recordações fugidias.
Enfim, gostaria de agradecer pelo livro. Diverti-me com a acidez do Beto e com toda essa pequena vingança.
Gosto muito dos seus livros. Li recentemente A Primeira mulher e acabei encontrando na universidade um exemplar de Impurezas Amorosas, livro que não conhecia.
Tenho ido muito a Ponta Grossa [...]. Quem sabe poderemos almoçar algum dia. Deixo um grande abraço para a Juliana, Camila e para o pequeno Antônio, que ainda não conheço, mas que acompanho através de suas crônicas na Gazeta.
Um grande abraço,
Jean

Minha gratidão a Jean, que conheci menino, acompanhei suas leituras, dividindo algumas conversas. O amor que o velho Turco tinha por ele era uma coisa sem tamanho. Parava tudo para dar atenção ao filho que nasceu quando ele já estava mais maduro. Agora, quando também tive um filho na meia idade, sei da força desta paternidade tardia. Lembro-me do Jamil lendo os mesmos livros que Jean tinha que ler para os trabalhos escolares, construindo assim uma referência literária comum. Era o pai hiperletrado herdando as leituras juvenis do filho.
Esta carta-história complementa a anterior e, juntas, dão um sentido vital para a literatura.

1 comentários:

  1. Publiquei no meu blog um texto sobre o "Chá das cinco com o vampiro". Na quarta-feira sairá no jornal aqui da minha cidade.
    Abraço.

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