Recebi ontem o e-mail abaixo de Moisés Fornazari - um desses leitores especiais que a literatura dá a todo escritor. Tenho sorte de ter leitores assim, como o Moisés. A carta que recebi dele vale por muitas teses sobre leitura. Ignoremos o que ele fala sobre meu mais recente romance. Vejam o processo de herança no sentido inverso - é o pai que herda as leituras do filho:Oi Miguel,
Parabéns pelo Chá das cinco com o vampiro! Acabei de ler e gostei muito!
Comprei o livro na véspera do dia dos pais. Um presente para mim mesmo já que meu pai morreu em janeiro. Ele estudou até a quarta série, mas, nos seus últimos cinco anos de vida, já muito doente e acamado, leu ao menos uns trezentos livros da minha biblioteca, entre eles Chove sobre minha infância, Hóspede Secreto e Primeiros Contos, além de vários outros do Dalton Trevisan. Nada mais justo do que comprar o Chá das Cinco com o Vampiro no meu primeiro dia dos pais como órfão.
Fui a uma livraria do Shopping Curitiba e pedi a um atendente o livro. No mesmo instante ouço atrás de mim a seguinte frase: "Se tiver um só vamos ter que disputar no braço!" Era um rapaz franzino, com cabelos lambidos para trás, usando calças jeans e um suéter bege. Tinha feito o mesmo pedido ao atendente. Educadamente disse que o livro era dele. Ele, por sua vez, disse que o livro era meu. O mais engraçado é que o atendente não conseguia encontrar o único exemplar da loja.
Cansado de esperar, o rapaz que queria disputar o livro no braço sumiu. Eu fiquei namorando o livro 50 Contos de Machado de Assis. Alguns minutos depois o atendente aparece com o livro. Digo a ele para procurar o rapaz e oferecer o livro. O rapaz recusa e diz que já havia escolhido outro título. Saio da loja contente, com o presente que meu pai nunca lerá.
Um abraço,
Moisés
Parabéns pelo Chá das cinco com o vampiro! Acabei de ler e gostei muito!
Comprei o livro na véspera do dia dos pais. Um presente para mim mesmo já que meu pai morreu em janeiro. Ele estudou até a quarta série, mas, nos seus últimos cinco anos de vida, já muito doente e acamado, leu ao menos uns trezentos livros da minha biblioteca, entre eles Chove sobre minha infância, Hóspede Secreto e Primeiros Contos, além de vários outros do Dalton Trevisan. Nada mais justo do que comprar o Chá das Cinco com o Vampiro no meu primeiro dia dos pais como órfão.
Fui a uma livraria do Shopping Curitiba e pedi a um atendente o livro. No mesmo instante ouço atrás de mim a seguinte frase: "Se tiver um só vamos ter que disputar no braço!" Era um rapaz franzino, com cabelos lambidos para trás, usando calças jeans e um suéter bege. Tinha feito o mesmo pedido ao atendente. Educadamente disse que o livro era dele. Ele, por sua vez, disse que o livro era meu. O mais engraçado é que o atendente não conseguia encontrar o único exemplar da loja.
Cansado de esperar, o rapaz que queria disputar o livro no braço sumiu. Eu fiquei namorando o livro 50 Contos de Machado de Assis. Alguns minutos depois o atendente aparece com o livro. Digo a ele para procurar o rapaz e oferecer o livro. O rapaz recusa e diz que já havia escolhido outro título. Saio da loja contente, com o presente que meu pai nunca lerá.
Um abraço,
Moisés
Não há como não se comover com uma história dessas. Pai e filho, nenhum dos dois é da área da literatura, unidos por uma biblioteca. O pai quase não estudou. O filho se formou na área biológica. E o maior elo entre eles é a literatura, espaço das convivências intensas.
Comove-me ainda a atitude de Moisés de buscar um livro meu que fosse um encontro com o pai, agora morto, às vésperas do dia dos pais. Se um livro serve para esta atitude tão nobre, ela se justifica de maneira assutadoramente reconfortante.
Se meu livro é cruel como dizem por aí, ele tem ao menos o poder de soldar pessoas. E noto que o pai do Moisés gostava também dos livros de Dalton Trevisan.
Este pequeno escritor fica assim pacificado consigo próprio. Que a biblioteca de Moisés cresça, que continue unindo pessoas.
PS. Meu pai era analfabeto e eu gostaria de ter podido ensiná-lo a ler.
Linda história, Miguel. Emocionante e estimulante. O livro une pessoas e gerações. parabéns a vc e ao leitor.
ResponderExcluirObrigado, Sérgio.
ResponderExcluirLer e ser lido dão o sentido à vida.
abraço
msn
Fiquei muito comovida, Miguel. Tenho uma ligação muito forte com meu pai, que estudou pouco, quase nada, mas com quem posso trocar ideias literárias sem o menor prejuízo. Ao contrário de Moisés, foi meu pai quem me apresentou você. Fazia tantos comentários e elogios às suas crônicas e contos na Gazeta, que fui obrigada a conferir. No princípio era por ele, agora é por mim.
ResponderExcluirPropiciar que nos “soldemos” a nós mesmos também é uma conquista . E o mérito é todo seu.
Abraços,
Vanessa
Prezado Miguel,
ResponderExcluirO que achei do livro: excelente!
O livro trata todos os personagens [não conheci nenhum dos inspiradores na vida real] com tanta delicadeza, que, arrisco: só mesmo um certo ressentimento pelo seu sucesso pode explicar algumas críticas. Parabéns!
O que o livro significou pra mim:
Sempre fui de poucas leituras -- do que me arrependo. No pouco que li, sempre senti falta de uma identificação mais profunda com as obras, aquela coisa de sentir-se fisicamente parte da história, estar no mesmo lugar, no mesmo tempo. Já tinha sentido esse sabor diferente quando li Terra Vermelha, de Domingos Pellegrini. Ali, senti o saborzinho, na literatura, de ver coisas que eu havia presenciado no mesmo espaço da [minha] vida real [já meio distantes, é verdade; digamos que cheguei às histórias daquele livro no último ato].
Quando ouvi falar que era paranaense, comprei o Chá das Cinco pra presentear uma amiga. Como é muito pudica, decidi empreender uma olhadela prévia. Que surpresa boa! Fui aos poucos tomado por cenas que, acredito, embora universais, me eram bem mais próximas do que tantas outras. Entendi [posso estar equivocado, não sei] que ler Érico sendo gaúcho, ou aqueles mineiros todos sendo mineiro, tem outro sabor. E ler MSN sendo do Paraná, do Norte, acho que também tem [pra mim teve] um sabor até então desconhecido. Emocionado, chorei em várias cenas.
Por aqueles dias, em férias, eu estaria empreendendo uma viagem ao Sul e fui tomado por uma súbita coragem de rever a cidade onde nasci, à qual não ia há 20 anos e da qual saí adolescente, praticamente fugido [não, não cometi nenhum crime, não é bem por isso]. Nunca mais tinha tido coragem de enfrenta-la, mas, na volta dessa viagem, decidi: entrei em suas ruas, revisitei os mesmos ares que o menino tinha sentido. Numa passagem rápida e ainda assustada, tudo estava lá. A cara das coisas era outra, a cidade desfigurada, mas o mapa das ruas, algumas casas, o ar, a escola, tudo ainda existia na vida real. Tudo diferente, mas estranhamente, ao mesmo tempo igual, parado no tempo... o tempo congelado. E eu, nele, anestesiado...
Revisitar anonimamente minha cidade [olha como já estou falando dela!] me fez um bem que eu não sei descrever. E isso foi por ter lido seu Chá. Minha alma renasceu. Foi como se, finalmente, eu tivesse ganho permissão para andar livre e destemidamente pelas ruas da minha infância, coisa que eu nunca tinha me permitido antes... agora via bem... [Não, não é Peabiru].
Claro, na volta ao batente, continuei [ainda não terminei] a leitura de seus livros. Um enorme prazer. Nem preciso dizer o quanto gostei de “Chove sobre minha infância”...
Se o Sr. contribuiu para que muitos passassem a escrever [ouvi, ao acaso, testemunho de um ex-aluno da UEPG de que também é ótimo professor], no meu caso, criou um novo leitor. Desde então, ganhei prazer pela leitura. E, isso, deverei sempre ao seu primeiro livro [que li; veja só, nem mesmo Machado conseguiu essa façanha de transformar um homem pouco afeto aos livros num leitor habitual].
Aproveitarei melhor os anos que ainda restam. E pretendo voltar ainda outras vezes às ruas da minha infância, continuar esse resgate não sei nem de quê, nem de quem...
Muito obrigado!
P.S. Sei que o local não é o mais apropriado (blog) para tão longo depoimento, mas foi o veículo que encontrei. Desculpe-me a invasão.
Prezado Alex
ResponderExcluirAgradeço seu belo depoimento que significa muito para um escritor. Diz o Charles Bukowski que vivemos entre mortos, porque poucos se manifestam sobre o escritor e compreendem sua solidão terrível. Você foi um dos vivos que este livro encontrou num mundo de mortos.
Obrigado.
abraço do
msn
Prezado Miguel,
ResponderExcluirnunca havia pensado nessa possibilidade, de um escritor sentir-se um vivo solitário entre mortos. Imagino que as pessoas, assim como eu, têm um certo receio de se dirigirem a semideuses, como vemos quase sempre todos os escritores, distantes do homem comum.
A proximidade da sua história, a intensidade dos efeitos, o bem sobre minha vida, e a facilidade da Internet, venceram minha timidez e recato que, em outros tempos, teriam impedido de realizar a imensa vontade de dizer-lhe: olha, rapaz, o que você escreve é lindo e me faz muito bem!
Obrigado!
Abraço de um seu leitor,
Alex
Oi, Alex
ResponderExcluirA Internet ampliou muito as possibilidades de leitura, escrita e amizade.
Sempre quando me perguntam onde moro, respondo que moro em meu computador.
No Twitter tenho feito uma experiência literária. Estou escrevendo um livro de aforismos dia a dia, aproveitando coisas cotidianas que antes passavam despercebidas.
Em breve,fará um ano que trabalho nisso. Então sou grato a estas possibilidades todas hoje.
Abraço do
msn