Existe toda uma literatura que fez a opção do aforismo. Há mais de 20 anos, acompanho alguns autores que escrevem neste gênero mais próximo da poesia do que da prosa ou do pensamento. Aforismo é pensar por meio de pílulas de linguagem. Ao contrário do lugar comum, só escreve aforismos quem tem muito a dizer, mas prefere dizê-lo de forma contundente. Se o aforismo não for contundente, ele se esvazia. É como uma borracha que estica e perde a sua potência.Os aforismos de F. Nietzsche são para mim os mais elaborados da modernidade, porque existe tamanha agressividade em seus textos que estes produzem ferimentos graves em qualquer intelecto. Para ser contundente, deve-se abrir mão do medo de ferir. O autor de aforismos é sempre um ser desagradável, um destruidor de miragens – é preciso ler com lentidão seus livros O crepúsculo dos ídolos (Cia. das Letras, 2006) e principalmente os Fragmentos do Espólio (Editora UnB, 2008) para sentir o seu poder demolidor. Não são livros, são armas para enfrentar a mediocridade do politicamente correto de nosso tempo.
Outro autor que me encantou muito foi Walter Benjamin, lido na academia mais pelos seus ensaios filosóficos e literários, mas que é autor de aforismos imperdíveis, reunidos nos livros de Rua de mão única (Brasiliense, 1987). A ironia e o lirismo andam juntos nas coletâneas de volume II das obras reunidas e nos chegam com uma modernidade espantosa, pois trabalham com a sobreposição de mercadoria e linguagem.
Também me deixei seduzir pelos Silogismos da amargura, de Cioran (Rocco, 1991), livro que foi uma bíblia para mim nos anos de passagem da juventude para o túmulo – depois da juventude, só nos resta o túmulo. E é ainda um das obras mais bem realizadas como conjunto; volto sempre a ela quando, de madrugada, tenho vontade de me matar.
Com um movimento inverso, de crença no homem, mas igualmente crítico e inquietante, há o volume Discípulo de Emaús (Agir, 1945), de Murilo Mendes. Eis mais um destes livros que nunca terminam de dizer o que têm para dizer. É o poeta pensando dentro do catolicismo, mas sem peias ideológicas.
Poetas modernos sempre estiveram de namoro com o aforismo, como um Oswald de Andrade ou um Mário Quintana. Este aproximou o aforismo da crônica e deixou grandes momentos de pensamento irreverente. Os poetas marginais como um todo confundiram poesia com aforismo e é a parte que mais me agrada neste movimento dominante em nossa lírica dos anos 70 – destaco Cacaso, no seu projeto de uma poesia decrescente, como o grande nome deste período. Mas há também um José Paulo Paes, de uma geração anterior, para quem o aforismo foi uma sala contígua à produção poética.
Mesmo alguns ficcionistas, e aí lembro o paranaense Dalton Trevisan e o guatemalteco Augusto Monteroso, levaram o conto à fronteira do aforismo, deixando contribuições geniais. Ou mesmo os romances em formato de aforismo de Machado de Assis.
A receita é simples: pensar com sabor e ironia, longe dos meros trocadilhos ou inversões engraçadas, que é a parte menos nobre deste gênero. É esta tendência para o riso a qualquer custo que estraga boa parte da produção imensa de Millôr Fernandes, que fez do aforismo uma espécie de caricatura política – isso dá atualidade aos seus textos, mas os torna um tanto rasos ou jornalísticos.
Como eu dizia no início, é toda uma literatura que se vale de tal formato para nocautear o leitor menos avisado. Daria para viver só desta literatura.
Se ela tivesse um centro, este se chamaria Karl Kraus. Foi a leitura de seu primeiro livro no Brasil – Ditos e desditos (Brasiliense, 1988) que sedimentou em mim o gosto pela coisa breve. Junto com o livro de Cioran, este volume construiu uma tendência em mim. Com eles, adquiri a coragem de pensar (???) por contra própria, correndo todos os riscos. Vindo de uma formação poética, tentei fazer com que as duas paralelas (poesia/aforismo) se encontrassem. Nas crônicas, em meus livros de prosa, na poesia, fui incorporando a estrutura aforística.
Nos últimos anos, vinha intensificando a preocupação de dizer tudo de uma vez. Foi este projeto que me levou a aderir ao Twitter, onde a não disponibilidade espacial exige uma concentração (e não uma concisão) de linguagem.
E é justamente nesta tradição literária em tempo de twitter que surge uma nova coletânea de Karl Kraus (Aforismos. Arquipélago, 2010), colocando o autor vienense na circulação sanguínea da produção contemporânea.
Mas ler Karl Kraus é uma tarefa para mentes abertas, pois ele é um agressor feroz, e nos agride com a pior arma: a inteligência. Não tem meias palavras, não deixa nada sugerido. Vai na veia – para lembrar um dos volumes aforísticos de Dalton Trevisan (Pico na veia. Record, 2002).
É de Karl Kraus a frase que melhor define o gênero:
“O pensamento é aquilo que falta a uma banalidade para ser pensamento”.
A distância entre um e outro (banalidade/pensamento) é mínima. A maior parte do que se escreve no twitter (e aqui me incluo) fica apenas no nível da banalidade, mas quando ascende um pouco se torna aforismo. Esta ascensão deve ser sempre buscada para quem quer usar o twitter como um espaço de reflexão e não como mero umbiguismo.
Aforismo é pensamento com lampejos. É esta tradição que vale na hora de enfrentar esta imensidão dos 140 caracteres, uma vez que, segundo Karl Kraus: “O aforismo requer o fôlego mais longo”. Ou seja, sem fôlego longo o sujeito não consegue escrever nem mesmo uma lápide.
PS. Esta é a íntegra do texto apresentado como tese de doutorado na Universidade de Letras Breves.
Interessante post, Miguel. Planta sementes, deixou com vontade de procurar alguns dos títulos citados.
ResponderExcluirUm abraço,
o engraçado é que, sendo sincero como a ocasião pede, me deu pela primeira vez vontade de ler um livro seu.
ResponderExcluirBruna e João Paulo
ResponderExcluirGrato pela leitura. Tentei fazer um resumão do assunto.
abraço
msn
Miguel,
ResponderExcluirsua postagem ficou ótima.
preciso correr atrás de alguns nomes, o próprio Karl, mas especialmente o Cioran, que um livro espanta-suicídio é sempre oportuno, rs.
Mas fiquei pensando que aforismo, aforismo mesmo, está mais para gente como o Karl e o filósofo acima citado, aquele do zaratrusta, aquele que sempre erro a grafia. o pessoal brazuca (só citasses gente fera!) está mais para uma poesia-síntese, pílula, minuto, sei lá o nome, do que para o aforismo, que me parece mais pontual, mais direto. (estou devaneando demais, será?) rs
e é verdade, o aforismo é a prova dos nove! (pra quem julga ter algo novo a dizer...)
e quanto ao twitter, é o espaço ideal para os aforistas (?). Gosto do Millôr (às vezes). e do Sanches Neto (às vezes). Às vezes fico pensando... como eu queria que gente como Oswald vivesse na era do twitter! :)
brincadeiras à parte, ficou bacana.
abraço
Oi, Eduardo
ResponderExcluirO aforismo tem isso de ser pensamento em linguagem de poesia. Mesmo em um Karl Kraus, seleciono não mais do que 10% dos textos. Faz parte da aposta - errar e acertar. É que o erro fica muito evidente no aforismo.
Abraço
msn
Miguel,
ResponderExcluiracho que faltou citar o Oscar Wilde, fera no assunto. e por falar em aforimos, vamos lançar, em co-edição com a editora da UFSC o livro 28 DESAFORISMOS DE FRANZ KAFKA, em outubro.
é isso
abraço do vinícius alves
Oi, Vinícius
ResponderExcluirCitei mais aqueles que me marcaram, e confesso que o Oscar Wilde não está entre eles. Grande idéia a publicação dos desaforismos do Kafka.
Abraço
msn
Suas aulas têm o dom de despertar a vontade de conhecer.
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