quarta-feira, 8 de setembro de 2010

NOVO MESTRE DO CONTO


O mau escritor acha que literatura se faz com grandes fatos, com personagens exageradamente marcantes, com uma linguagem elaborada, com paroxismos de dor e de alegria. O resultado disso é a pior subliteratura, uma paródia canhestra da percepção literária da existência. O bom escritor sabe que a narrativa tem as malhas rasgadas da vida, e que as coisas acontecem, tanto no texto como no mundo de onde este vem, com descontinuidades, com simbolismos e com muitas banalidades.
Há toda uma linhagem minimalista nos Estados Unidos que valoriza esta opção narrativa. E ela deságua no maior contista vivo do país – e ainda muito pouco conhecido aqui: Charles D’Ambrosio (Seatle, 1958), que tem um segundo livro publicado no Brasil: O museu do peixe morto (Grua, 2010) – o primeiro foi A ponta (Grua, 2008). Quando se fala em minimalismo no Brasil, pensamos logo em textos curtos, no conto-relâmpago, nas ministórias etc. O nosso conceito de minimalismo é de caráter formal, de economia de meios. O minimalismo de Charles D’Ambrosio (herdeiro de Ernest Hemingway e de Raymond Carver) é de fundo. Os contos são longos, extremamente cativantes, mas não se percebe bem o que está acontecendo, há a falta de um centro, tal como no conceito tradicional de conto como esfera. O autor não isola um momento fulcral. Ele relata a vida banal de personagens fazendo as coisas mais cotidianas, e no meio deste movimento narrativo surgem pequenas tensões, imagens que revelam a profundeza de sentimentos que não se entregam facilmente ao leitor.
Há dramas muito intensos nos oito contos que compõem o livro, mas estes dramas não estão à flor do texto, não são tratados de forma direta pelos personagens. Podemos ver tudo por uma lente embaçada, o que não nos distancia, antes nos aproxima dessas vidas comuns.
O sentimento que une todos os contos é o desespero. São personagens à beira de uma explosão qualquer, vivendo uma profunda orfandade. Eles estão perdidos em um mundo, vagando pelo país para sobreviver, tentando algo para ir até o próximo ponto. Tudo fica sugerido, nada se revela totalmente, e o que acompanhamos é a rotina destes personagens que seguem vivendo, apesar da escuridão que carregam consigo.
Não há um conto ruim do livro, todos são muito bons, mas alguns são verdadeiras obras-primas. O melhor deles é “Drummond & filho”, em que Charles D’Ambrosio faz coincidir o fim de uma era – a era da máquina de escrever – com o fim de uma linhagem familiar. Drummond herdou a loja de reparos de máquinas do pai, aprendeu tudo ali, e agora tem um filho com problemas psicológicos. É a luta para manter-se fiel ao legado profissional que não poderá ser transmitido. É o mais belo e intenso texto sobre a relação pai e filho que já li. Enquanto o mundo se informatiza e as relações se tornam líquidas, os dois seguem juntos, num esforço de humanização que ele encontra nas máquinas-de-escrever reformadas e vendidas a pessoas que querem posar como grandes escritores: “Sempre que Drummond abria uma máquina, enxergava uma vida naquele anfiteatro de letras sentadas na barra de tipos” (p.39). O amor às máquinas obsoletas se estende ao filho sem um lugar no mundo.
Outra obra-prima é “O esquema geral das coisas”. Aqui, e em outros contos, entra a viagem, o deslocamento. Um casal ganha a vida enganando as pessoas com a venda de revistas de uma associação que ajuda as crianças nascidas de mães viciadas em drogas. São dois picaretas, mas a mulher tem um dom visionário. Órfã, criada em instituições, parece que ela encontra o seu lugar numa fazenda onde um casal de velhos vive à sombra da morte da filha. Eles acolhem os viajantes porque a moça fala da menina, que ela viu – em uma visão – ser morta pelo pai que colhia milho e a colhe junto. É outro conto muito tenso, em que as conversas bobas do interior vão escondendo o drama. Ela pode ocupar o lugar desta filha?
No meio da noite, eles fogem, roubando tudo o que podem. O marido, extremamente materialista, leva o carro cheio de milho. A moça, na sua pobreza extrema, rouba um sutiã da velha. Nesta peça está a metáfora maior da orfandade. O seio materno que ela não teve. O seio em que a velha outrora amamentou a filha morta. Um desencontro de histórias. Mas este desencontro guarda um momento conciliador, pois houve uma relação verdadeira embora muito fugaz, que culmina com uma ceia em família entre os viajantes e os agricultores órfãos da filha. Uma frase deste conto vale muitos e muitos romances: “Um segundo de amor já é todo amor que há no mundo” (p. 144). Se não há mais espaço para relações afetivas duradouras, restam ao menos estes lampejos.
Muitos contos falam de filhos abandonados, de uma descontinuidade amorosa entre pais e filhos. É um mundo cheio de órfãos – mesmo dentro do seio familiar (como no belíssimo “Bênção”), mas as pessoas continuam buscando estes poucos segundos de amor, de encontro, de comunhão intensa. Mesmo que ela logo desvaneça.
O último conto – “O jogo dos ossos” – ultrapassa a história familiar para revelar um momento em que a orfandade é de todo um povo – os índios. Um jovem herdeiro de uma fortuna viaja pelos locais importantes na trajetória do avô para jogar as cinzas dele em algum lugar especial. A comunhão com os índios se dá por meio de um ritual de pesca do salmão, que é comido depois de assado em uma fogueira, ao lado de uma prostituta índia, mas num cenário desolador. Neste momento de encenação paródica do Velho Oeste, o jovem perde seus bens para a índia num jogo, identificando-se assim com este povo à margem do país. Finda a bebedeira, tudo volta ao normal, e ele recupera sua identidade de branco rico, que pode explorar os que estão em situação inferior.
Como um todo, O museu do peixe morto é uma obra que devolve à literatura contemporânea uma intensidade perdida. Charles D’Ambrosio constrói contos elegíacos, em que os personagens se confrontam a todo momento com a sua desumanização.

3 comentários:

  1. Já tenho o livro, mas ainda não li. Depois desse texto, acho que ele vai furar a fila.

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  2. Oi, Ana
    Você não vai se arrepender. É grande literatura mesmo.
    Boa leitura.
    abraço
    msn

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  3. Acolho as suas sugestões como se aluna estivesse, prezado Miguel. A lista compartilhada é sempre grande e intensa; aos poucos vencerei o rol de leituras. Adoro contos e crônicas, mas não conhecia nada de Charles D'Ambrosio.

    Receba o meu abraço e cumprimentos pela manutenção de " Herdando uma Biblioteca", ponto de encontro dos que gostam de ler e escrever.

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