sábado, 25 de setembro de 2010

OBJETOS INCÔMODOS

Todo escritor acabará no sebo. Esta é a lógica da coisa. Um leitor comprou o seu livro, não gostou ou não teve tempo de ler e está precisando fazer a faxina. Então se desfaz do objeto incômodo. Livros incomodam muito as pessoas.
Morto o dono de uma coleção de obras literárias, a primeira coisa que os parentes fazem é descartar os livros, que passam a figurar como “velharias”. E depois tem o cheiro de mofo. Estávamos precisando renovar o ar. Eu queria instalar uma sala de tevê no quarto em que ele guardava as obras. Estas e outras justificativas são usadas para enterrar o morto pela segunda vez, dissipando a sua biblioteca.
Mas quem alimenta o negócio de livro usado no Brasil é o jornalista de cultura. Há livros meus que chegaram ao sebo antes de chegar aqui em casa. Num esforço de conquistar espaços – cada vez menores – para os livros, as assessorias de imprensa das editoras distribuem generosamente a cota de divulgação. O jornalista recebe quilos de livros diariamente. Não têm como guardar estes fardos, e muito menos tempo para ler. Então, vende os livros no sebo mais próximo. E melhora um pouco os seus rendimentos.
Boa parte dos 258 livros meus (de minha autoria e organizados por mim, meio a meio) que estão hoje anunciados na Estante Virtual sequer foi aberta. Alguns livreiros de usados declaram que o livro é novo. Isso é reflexo do excedente de livros e da carência de espaços de divulgação.
O lado bom disso que é os livros ficam um pouco mais barato, aumentando as possibilidades de leitura. O lado ruim é que estes exemplares não rendem direitos autorais, e foram distribuídos sem fins comerciais. Algumas editoras carimbam os livros, outras cortam uma das pontas, mas nada impede que o livro circule no mercado.
Há um movimento hoje para que os livreiros de usados paguem os direitos autorais da revenda ou da venda destes exemplares de divulgação. É algo plenamente possível com o advento de redes como a Estante Virtual. Bastaria o autor se cadastrar lá e o site depositar os clássicos 10% a cada 3 meses.
Tirando esta questão prática de nosso livro estar no sebo, há também a questão psicológica. Quando vemos tal livro em tal cidade, ficamos imaginando quem foi que nos desovou ali. Por exemplo, há um volume de poemas meus em Guarapari, no Espírito Santo. Está autografado. Tenho vontade de comprar este volume só para reenviá-lo para o único poeta que conheço em Guarapari. Claro, sem nenhum rancor, apenas como brincadeira. Com uma segunda dedicatória: “Para Fulano de Tal, para que possa vender meu livro de novo e assim melhorar seu orçamento”. Ou: “Para Beltrano, na esperança de que este livro seja novamente descartado”.
Assim, para desfazer-se de livros autografados, a regra é tirar a página do autógrafo. Wilson Martins, que doava todos os seus livros para a Biblioteca Pública do Paraná logo depois da leitura, cobria com corretor as dedicatórias mais pessoais, pois não tinha coragem de estragar os livros.
Na longa e frutífera conversa entre Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges (Borges, Buenos Aires, Destino, 2006, p. 737), catatau que tem sido meu livro de cabeceira, há um diálogo irônico sobre isso. Borges fala de um militar literato (Ubaldo Genta), e Bioy responde:
– Hoje descartei um livro dele. Antes não me animava a descartar livros com dedicatória, mas é claro que não se pode acumular em casa objetos inúteis.
–É preciso arrancar a dedicatória – diz Borges.
– Caramba, não tive este cuidado. Depois, eles aparecem nas livrarias e as pessoas pensam que alguém os vendeu.
Desfazer-se de livros, com ou sem dedicatória, é uma tarefa comum e faz parte da vida de qualquer leitor. O que denigre esta atividade é a intenção financeira do leitor, isto é, do vendedor.

9 comentários:

  1. Prezado Miguel,
    Vender livros que ganhamos é mesmo algo reprovável. Se lembramos que vivemos num país tão carente de bibliotecas e leitores... que ficariam felizes em recebê-los...
    Mas, creio, se os sebos pagassem o direito autoral, não haveria problemas.
    Falta-nos, a muitos leitores e comerciantes, ainda, conscientização.
    Também não gosto dessa nova mania de jogar livros em lugares públicos, como paradas de ônibus, embora eu mesmo já tenha encontrado coisa interessante numa parada e feito o "empréstimo" temporário dos mesmos. Depois repassei a uma biblioteca.
    Agora, descartar em sebos livros autografados, realmente, é de última.
    P.S. Olha, eu já comprei livros seus (dois) em sebos, viu!, mas todos eram usados. Bem usados, por sinal. Inclusive aquele que também dá título a este blog.
    Mas não fique triste, pra compensar, já comprei outros tantos exemplares do Chá das Cinco pra presentear.
    Por último, queria registrar a grande dificuldade que às vezes temos em fazer doações a bibliotecas, sem que sejam também jogados no mercado paralelo dos sebos. Eu já doeei livros técnicos, importados e caros, à biblioteca de uma universidade que jamais foram incorporados ao acervo, dela ou de qualquer outra. Triste.

    Muito oportuno seu texto!

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  2. Oi, Alex

    Este post foi só para dizer que há uma quantidade muito grande de livros e que os sebos vivem dest excedente. Tem o lado ruim e o lado bom.
    Abraço
    msn

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  3. Olá, Miguel.

    Comprei seu "Chá das cinco" pela Estante e, ao chegar, o livro era novo, nem mesmo folheado. Fiquei surpresa.

    Por outro lado, comprei outro livro de outro autor e veio uma dedicatória pessoal que me constrangeu um pouco, quando comecei a pensar no "descartar" do livro e do afeto escrito nele... Acho que sou partidária do arrancar a página da dedicatória, rs.

    Abraço!

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  4. nossa, livros incomodam muito as pessoas. um conhecido reclamava da dificuldade de dar livros herdados. falou q ninguém ia buscar. me ofereci e a pessoa desconversou, então tá. e nem sei q estilo de biblioteca é, mas pelo menos pra redistribuir pra quem quer, eu iria buscar, mesmo q não fosse o q mais me agrada. o seu q eu adquiri veio com um selo da saraiva e um carimbo dizendo que era um livro em promoção. parecia q tinha sido lido. mas entendo completamente aqueles livros q não foram lidos. eu fui em uma redação uma vez, e era uma parede inteira de livros empilhados ainda embrulhados. lembro o qt fiquei triste de imaginar que nem desembrulhados tinham sido. toda redação tem estagiários ávidos pelos descartes de seus editores, podiam designá-los para ao menos desembrulhar. o q mais me entristece de quem desfaz de livros sem nenhum critério é q tem gente q faria de tudo para ter acesso a ele e não consegue. nunca me esqueço q me contaram q a belíssima biblioteca do sesi q usei gratuitamente tantos anos foi desativada e os livros foram distribuidos em vários lugares e simplesmente desapareceu. muito triste. obrigada pelas explanações. beijos, pedrita

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  5. "Estas e outras justificativas são usadas para enterrar o morto pela segunda vez, dissipando a sua biblioteca." ha, adorei isso!
    ótima crônica, Miguel.
    E já que o pessoal está contando de suas experiências como compradores em sebo, levanto outro caminho:
    quando compramos um livro com dedicatória. Obviamente, não é pra nós, há outro nome - estranho - lá. Os livros autografados são mt valorizados, mas parece que quando ocorre isso - dedicado a alguém que não somos nós, os atuais "proprietários", perde a graça e o valor.

    E não acho que autor deva ficar triste por ter seu livro comprado em sebo. O autor quer ser lido. Obviamente, quer ganhar dinheiro, visto que é sua profissão, gastou tempo e forças no trabalho e quer um retorno... mas comprar em sebo não é pirataria: é uma segunda venda, que não é repassada ao autor. Como um contrato de gaveta! rs O livro já foi comprado da livraria, oras. que mais o autor poderia querer? viva os sebos!

    abraço!

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  6. Caros Bruna, Pedrita e Eduardo

    Este é um tema muito vasto. Obrigado por acrescentarem depoimentos à postagem.
    Tenho mais dois ou três temas correlatos, mas ando sem tempo para desenvolvê-los agora.
    Virão com o tempo.
    abraço
    msn

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  7. Eu amo sebos e confesso q já comprei alguns livros só por ter visto q tinha uma dedicatória do autor para alguem querido. :) Abraços, gisele

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  8. Oi, Gisele

    Este é outro lado bom da sobrevida dos livros em sebo - podemos criar cumplicidades com os ex-proprietários.
    Abraço
    msn

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  9. Considerando que: há um excedente de livros (exemplares de uma mesma obra) no mercado; os autores são mal remunerados, quando não surrupiados; as bibliotecas, raras, raramente recebem doações; e como não existe almoço grátis, alguém está pagando uma conta excessiva e indevida, enquanto outros ganham além do que precisariam para manter um mercado forte e vigoroso. Acho que essa mentalidade das editoras não beneficia ninguém, nem mesmo as próprias, no longo prazo. Ou seja, como quase tudo em nosso capitalismo ainda tupiniquim, uma elite privilegiada paga uma conta excessiva, em benefício de uma elite ainda menor e mais privilegiada, enquanto a grande maioria não participa da festa.
    Mas isso vai mudando, aos poucos.

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