Há livros de poemas construídos, e outros que são acumulados. E isso depende da maneira de trabalhar do poeta em dado momento. Em alguma parte alguma, de Ferreira Gullar (José Olympio, 2010), é um quarto onde o maior poeta vivo do Brasil guardou textos produzidos na última década. Esta natureza cumulativa tira a essencialidade do conjunto, embora haja grandes momentos de poesia autêntica – este artigo tão raro em qualquer época.O poeta maranhense, ocupando o podium de nossa poesia, e tendo um trânsito pelo meio jornalístico e artístico, é sempre solicitado – pelos outros e pela sua própria sensibilidade – a escrever poemas em torno de determinados acontecimentos. E ele o faz com muita competência. De definições de poesia – para o êxtase de professores de literatura e suas análises – a poemas que se confundem com crítica de arte ou de literatura, o poeta apresenta sempre a sua tese, fundando-se em teorias subjacentes aos textos. É mais o crítico do que o poeta que se manifesta em um verbo pensante, que usa espaço poética para debater com o leitor, embora ele mesmo nos avise desta falácia teorizante: “só o que não se sabe é poeisa”, p. 25.
Desde o início, a principal qualidade de Gullar foi promover uma mudança de rota, levando a poesia brasileira para a área lingüística comum da prosa. Esta proseificação do verso – tanto formal quanto temática – tem um valor imenso em uma tradição que tende a elevar o verbo na hora de escrever. Ferreira Gullar prendeu a poesia a um chão expressional que lhe deu não apenas renome crítico mas também leitores. A convivência com a horizontalidade da prosa necessita sempre de um equilíbrio com a densidade da poesia, em uma tensão permanente. Embora ainda haja esta tensão no livro Em alguma parte alguma, ela se faz mais rotineiramente.
Tendo se dedicado a uma crônica que quer pensar questões atuais, escrevendo sobre artes plásticas e dando palestras em vários eventos, sobre assuntos de natureza mais intelectual, Ferreira Gullar migrou este tom dissertativo para os poemas. A sua personalidade pública (o outro de que fala em “O duplo”) tomou o lugar do poeta em boa parte dos textos. É um processo normal dentro deste mecanismo de identidade, em que não é mais um homem que escreve, mas o escritor avalizando a própria voz.
Não quero deixar a impressão de que o Em alguma parte alguma não seja um bom livro de poema. É.
Temos aqui uma experiência dolorosa com a morte individual (e os poemas em que Gullar dialoga com os próprios ossos do corpo são magistrais) e a morte geral, com sua perplexidade diante da irrelevância da vida humana em confronto com o infinito. É uma poesia verdadeira, que nos coloca diante do tudo que é o cotidiano e do nada que é o sem-margens.
Nesta dialética, reaparece uma metáfora central de sua poesia: as bananas podres. Filho de um quitandeiro de São Luis do Maranhão (o pai, a cidade e a rua são convocados insistentemente não só neste livro), Gullar localiza na distante infância/juventude um odor forte de decomposição. Este odor vem da escuridão da quitanda fechada com suas frutas, mas vem de uma escuridão maior, a do tempo passado. Assim, a memória olfativa (também ligada à imagem da flor, do jasmim) é o sinônimo da fragilidade do existir. Decomposição e ressurreição da vida. Assim, não são os ossos, a parte mais duradoura do corpo, a parte mineral dele, o que fica, mas esta fragrância, que se confunde com a própria poesia. É esta eternidade transitória que nos resta (“estou eterno” diz o poeta na p. 70) e que a arte busca.
Na cesta, pretejadas e liberando seu mel estonteante, estão as bananas podres. Eis o que resta do que fomos.
De fato, Gullar é personalidade pública. Polêmico. Mas é poeta, verdadeiramente.
ResponderExcluirOntem entrei numa livraria e não resisti --tinha seu artigo na cabeça -- à decisão de folhear "Em alguma parte...". A partir daí, ele mesmo me tomou, não saiu mais de minhas mãos enquanto não cheguei ao fim. Voltei aqui pra conferir seus comentários de novo. Agora, voltarei ao livro, muitas e muitas vezes.
Obrigado!
Caro(a) Aceitar-se
ResponderExcluirTentei ver o seu perfil e não consegui. Espero que o livro do Gullar não tenha sido falseado por minha crítica.
Abraço
msn
Prezado Miguel,
ResponderExcluirah, desculpa. Esse negócio de perfis e blogs...sou ainda analfabeto funcional nessas coisas.
O livro do Gullar me despertou para a poesia livre, verdadeira. Sempre tive dificuldade com a poesia certinha, com métrica cuidadosa, certinha.
As palavras dele vêm como uma navalha na alma. Despertando olhares e sentimentos, não pedem licença, vão entrando. A diferença é que, se são mesmo navalhas, nos transforma em masoquistas, porque, algumas delas, nos levam a um quase estado de graça.
Muito obrigado pela dica!
Alex M.