domingo, 12 de setembro de 2010

UM CLÁSSICO CONTEMPORÂNEO

A reedição deste clássico contemporâneo (O homem vermelho. Editora Leitura, 2007) era algo há muito esperado pelos leitores de Domingos Pellegrini. Aparece agora para marcar os 30 anos de estréia em livro deste que é um dos nossos mestres do conto.
Narrativas avulsas de Domingos já haviam recebido importantes prêmios (como o do Concurso Nacional de Literatura da Fundação Cultural do Distrito Federal e o Prêmio Fernando Chinaglia), e este livro ainda receberia o Jabuti de 1977. Isso tudo era um reconhecimento espantoso para uma obra de estréia de um autor jovem que residia na periférica Londrina. E a razão de tal sucesso é uma só: a qualidade insuperável destes textos.
O Brasil vivia a década do conto, gênero usado com instrumento literário e também político. Pellegrini militava nestas duas frentes, dedicando-se a movimentos de resistência à ditadura e fazendo sua literatura com um verbo urgente – escreveu algumas de suas histórias em guardanapos de papel pelos bares onde a sua sede o ancorava. O título (O homem vermelho) remetia, portanto, ao homem comunista, funcionando como uma senha de acesso à obra. Mas enviava o leitor também a algo mais profundo, que permanece atual ainda agora, o habitante da terra vermelha do interior do Paraná, o desbravador de um sertão fértil, que prometia riqueza a quem fosse trabalhador, confiscando-a num piscar de olhos. O título era mais uma identidade regional do que política, e é este o sentido que o autor restaura nos contos revistos de hoje.
Do caráter comunista do texto sobrou a opção pelas formas simples, pelo tom falado dos relatos, pelas trajetórias de pessoas comuns, por uma valorização do trabalho na terra, pelas paixões de peões e violeiros. E isso é um saldo altamente positivo. Se não vale mais a ideologia daqueles tempos, vale ainda, e muito, a opção estilística do autor. Uma realismo de linguagem, uma rapidez narrativa, um poder encantatório da palavra em estado de oralidade, um humanismo doído.
Quem comparar esta com a primeira edição notará diferenças de títulos e de frases ou do final dado às histórias. O autor reescreveu estes relatos matinais, não para negar suas primeiras configurações, mas para se fazer contemporâneo de si mesmo. Assim, embora seja uma reedição, este livro é quase uma nova edição, que nos apresenta o grande contista no vigor da juventude e na serenidade da madureza.
Uma obra sem igual na literatura brasileira, O homem vermelho revela um escritor que nasce pronto, com um sentimento de adesão trágica a um espaço humano que tem a vocação da alegria apesar de todas as adversidades.

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