domingo, 31 de outubro de 2010

GENTE INEXISTENTE

A primeira regra para a difícil vocação de fazer inimigos é dizer o que você pensa.
Perigo: as pessoas não estão acostumadas a ouvir a opinião dos outros. Também não estão acostumadas a lidar com pessoas que pensam. Você está em uma área com risco de incêndios. Tudo será usado contra você, até o fato de você, por exemplo, não depender da ajuda política de ninguém. Onde já se viu uma pessoa que quer escrever alguma coisa importante no Twitter (gente, ele escreve no Twitter!) não precisar pedir permission ao político de plantão – perdão pela aliteração e também por esta rima em ão.
Claro, quem fala isso precisa não só do penico, mas também do papel higiênico – se não tiver, pode usar algum jornal.
Bem, você então ganha um inimigo.
Você nunca o viu mais louco, nas clínicas em que já foi internado. Você nunca soube nada dele.
Daí você liga para um amigo seu que dá uma mão ao pobre diabo. Você pergunta do furioso fulano. Tem pai? A ex-mulher ainda o ama? E coisas assim. O seu amigo diz:
– Esqueça, ele não existe.
Ok, o seu amigo venceu. Ele não existe. Mas a sua inexistência produz um monte de mentiras e de bobagens sobre você.
Há no mínimo um problema aí. Você não perdoa. Sim, você é ferino.
– Quem tem pago as contas do animal?
O seu amigo ri. E reforça:
– Já disse, ele não existe.
O fato é que você tem um novo inimigo lá no inferno.
(Inferno é o lugar para onde você manda os seus inimigos. Você leu Dante, você sabe que o destino de todo inimigo é o inferno. E reserva o lugar especial para cada um desses canalhas. Para este, pede a suíte presidencial.)
Feita a transferência imaginária do inimigo para o inferno, você se esquece dele.
Mas ele não se esquece de você, porque no inferno não há muito o que fazer a não ser sofrer com a independência alheia.
E você é culpado. Você ganha a sua vida honestamente. Você trabalha todos os dias da semana. Você ocupa posições profissionais que lhe chegaram por concurso público. Você leva os filhos à escola. Você ajuda a lavar a louça do jantar. Você lê os principais livros lançados no país e outros que ainda nem chegaram aqui. Você escreve os seus textos apesar das adversidades. Você enfrenta os profetas fétidos do fim da literatura.
Tudo bem, alguém tem que ser odiado. Melhor que seja você.
Daí você recebe um endereço na internet onde o seu inimigo escreve contra você. Você acha melhor não ler. Se ele não existe, como pode escrever? Milagres do mundo virtual.
Tentado, você acaba espiando as crises de histeria de alguém que não existe. Mas os teóricos não falam na morte do autor? Está aí, a inexistência do difamador.
Você ri das bobagens bêbadas do cara. Depois se detém nos comentários postados.
Para agredir você, as pessoas (isto é, os diabinhos) usam pseudônimos ou se apresentam anônimos. Assim, é fácil. Até eu tenho coragem de descer a lenha. E o que os detratores falam é uma réplica do canto desvairado do empregadinho mantido por cargo comissionado. Você se diverte.
Mas ao chegar às mensagens que livram a sua cara, você se comove. São pessoas conhecidas. Assinam com nome e sobrenome. Dão peso à opinião. Só o nome de quem assina já vale mais do que todas as baboseiras de quem ataca. Você se sente uma pessoa privilegiada. No meio do anonimato geral, da artilharia dos otários, há nomes que se ligam ao seu.
O idiota só tem seus asseclas inexistentes.

6 comentários:

  1. em vez das pessoas contra argumentarem um pensamento diferente, elas atacam, se irritam, fazem complô, assustador. nem percebem o quanto cerceiam o livre pensamento. ai, eu não li dante, lembro da minha irmã comentando trechos, está na minha lista há tempos, mas não li, pecado mortal. o pior é q se eu for ao inferno de dante nem vou saber se é o de dante mesmo pq desconheço. ai, eu uso pseudÔnimo mas não é com esse fim não. tanto q muita gente, inclusive o júlio pimentel sabe o meu nome, o rodrigo gurgel tb. e vc está às ordens pra conhecer. só q prefiro fazer por tel ou email. eu sou da teoria se alguém te incomoda, é só deixar de visitá-lo. na esfera virtual é muito fácil. é só não ir onde o cara está, então não entendo tanta perseguição, pq basta um block e ir pra outro caminho. beijos, pedrita

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  2. Oi, Pedrita
    Eu fiquei assustado com a liberdade agressora dos que falam mal sem a coragem de assinar.
    Claro, o pseudônimo tem usos nobres, como é o seu caso.
    Escrevi este texto dias atrás e demorei para publicar, mas eu precisava pôr para fora esta indignação.
    Beijo do
    msn

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  3. claro, eu tb fico indignada com a raiva de internautas, é algo tão visceral. eu tenho esse pseudônimo há 8 anos, meu blog há 8 anos, no blogspot não estão os 8 anos, alguns terminaram pq o ig desativou. mas sou sempre a mesma pra não gerar muito conflito. até nem gosto do nick pedrita, mas continuo pq na internet é mais forte q eu.

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  4. se quiser, segue meu email do gmail pedritahari@gmail.com - não achei o seu email

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  5. Sobre amigos e gente “existente”:
    1- Amigo “PANOS QUENTES”: é calmo, acha que de nada adianta botar mais lenha na fogueira, o típico “abafa o caso”. Faz isso pensando unicamente no bem estar do amigo, acha realmente que não vale a pena se estressar com gente menor. E não podemos lhe tirar a razão, afinal.
    2- Amigo “UM QUENTE E DOIS FERVENDO”: baba de ódio ao saber injustiçado o amigo e tem ímpetos de sair xingando e fazer justiça com as próprias mãos, feito um personagem de Quentin Tarantino.
    Apesar de respeitar e talvez até invejar o tipo 1, sou do tipo 2.
    Não acho possível nem tampouco salutar engolir injúrias. Soa tão nobre o “deixa pra lá”. E o seria de fato se fosse humanamente possível. Então, vejo como uma questão de opção: ou você vomita e limpa o estômago, ou engole e sofre a dor da úlcera.
    Só daria a outra face se nela pudesse incrustar objetos pontiagudos e cortantes ao menor toque. Só assim.
    Um beijo.

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  6. Prezado Miguel,

    não sou bom nisso, nem teria a pretensão de indicar caminhos contra a agressão. Quem não é do ramo [dos agressores] tende a ficar paralizado.

    Já que você lembrou o Inferno, vou arriscar que há claramente, nesse caso, um pecado capital a motivar o agressor: inveja! Sem falar na imensa canalhice da agressão anônima.

    Posso, como não poucas vezes, estar enganado, mas penso mesmo que, se tivermos apenas duas opções, invejar ou ser invejado, a segunda opção será sempre mais confortadora. Não por orgulho ou necessidade, mas porque indicará que estamos no caminho da realização e do trabalho, que sempre incomodará muitos. Se o preço a pagar pela conduta honesta, pelo brilho da inteligência produtiva for sofrer eventual agressão...

    Estamos, apesar de algumas aparências, vivendo tempos sombrios. Mundo de sombras dos sem-luz.

    Apesar de tudo, há também alguma luz. E você, e todos os bons escritores, pensadores, artistas, que ajudam a iluminar nossos dias, a dissipar algumas de nossas trevas, serão sempre um pouco perseguidos, injuriados, maltratados por alguns.

    Aos poucos, nada disso será mais notado. Os infelizes, invejosos, caluniadores, os diabinhos provocadores, continuarão atentando. Você continuará nos ajudando a ampliar nossos horizontes, a iluminar um pouco nossos instantes e, aos poucos, como uma recompensa pelas sementes lançadas, pelas tochas acesas, ignorará quem não merece, nunca mereceu, ser visto, lido ou ouvido. Mesmo que eles tentem, pela agressão -- única opção que terá restado aos que optaram pela estupidez.

    Desculpe-me se estiver parecendo desconsiderar seu sentimento de indignação. Não é isso. Sei bem como dói ser agredido, mesmo anonimamente, virtualmente. Não podemos, porém, deixar que isso interfira muito em nosso caminho.

    Não. Não é fácil, e acho que ninguém tem receita universal e pronta. Então, só posso mesmo me solidarizar. Porque esse outro, anônimo virulento, não conheço nem quero conhecer. A você, porém, devo muito, por tudo que já escreveu, por tudo que escreve, e pelo muito que ainda poderá fazer.

    Forte abraço de um seu leitor, muito grato.

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