Estive esta semana em Pau dos Ferros, sertão do Rio Grande do Norte, a convite da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), para um colóquio de Letras. O pessoal de lá tem um grande entusiasmo que contagia a gente.E há toda uma preparação para esta passagem a um outro Brasil.
Descemos em Natal, depois de horas de vôo, perto da meia noite. Dormimos na capital e, pela manhã bem cedo, seguimos de carro para a cidade que fica no extremo do Estado, numa região que chamam de “tromba do elefante”, imagem sugerida pelo mapa do Estado. Antes pararíamos em Mossoró, para pegar o outro escritor, o cordelista Antônio Francisco.
Eu jamais ouvira falar nele, por conta deste isolamento em que vivemos. Poetas populares não transitam no mundo literário do Sul e do Sudoeste, para azar nosso.
A viagem de Natal a Pau dos Ferros, com a escala em Mossoró, seria de 8 horas. Mas não sentimos passar o tempo. A paisagem árida, as imensas pedras espalhadas pelos campos ressequidos (onde só estão verdes os cajueiros e as carnaúbas), as casas humildes – todas agora com uma cisterna, construída pelo governo federal – e mais a conversa do motorista (seu Canindé) e do poeta aceleraram o tempo. Para um escritor essencialmente urbano, este contato com o Brasil é uma dádiva. Fiquei atento a tudo.
Antônio Francisco declamava seus poemas, falava da região, cantava. Ex-ciclista, conheceu o estado inteiro no selim de uma bicicleta. Fez várias coisas na vida, mas foi principalmente como pintor de placas que sobreviveu.
Um dos 17 filhos de um casal pobre, teve uma vida dura. Conseguiu fazer o curso de História na UERN porque era no período da noite, mas seu sonho universtiário não se realizou: freqüentar as aulas de Educação Física, ofertadas apenas durante o dia.
Já homem maduro, depois dos quarenta, retorna a uma prática infantil.
Como seu pai fora fascinado por cordéis, o filho pôde aprender a ler nestes folhetos que circulavam na casa de taipa. Logo ele dominava estas estruturas literárias.
E as pessoas da família pediam para que ele lesse os poemas. E Antônio Francisco fazia isso com muito prazer, dando voz às histórias. Quando um texto estava muito chato, ele inventava versos mais exuberantes.
Nem imaginava que inventar versos e representá-los seria a sua profissão de madureza.
No meio do caminho de sua vida, redescobre os cordéis e começa a publicar, fazendo-se um dos nomes mais representativos do gênero – com orgulho, ocupa a cadeira número 15 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), que antes pertencera a Patativa do Assaré.
Durante o evento em Pau dos Ferros, com o auditório lotado, Antônio Francisco foi saudado como um herói. O público aplaudia todo vez que seu nome era pronunciado pelo cerimonial. E os aplausos aumentaram quando ele começou a falar seus poemas.
Poemas críticos, que tratam de assuntos próximos de todos, sem fazer distinção entre vida e arte. A formação de historiador deve ter contribuído para esta revolta contra as injustiças. Mas há também o viés memorialístico, o passado vivido não como exílio, mas como exemplo. O poeta é menino de calça curta e chinelas, como ele mesmo diz em seu discurso de posse na ABLC – o discurso é todo em versos.
A força de uma voz. A resistência de um olhar.
Seus livros bem cuidados circulam impressos e declamados. Uma estudante falou um de seus cordéis mais longos. Outros sabiam trechos de cor. O poeta não é apenas dono de uma voz popular, ele próprio tem uma grande popularidade.
Por tudo isso, foi uma tarde inesquecível. No final, trocamos livros. Eu lhe dei a coletânea Primeiros contos (Arte e Letra, 2008) e ele me mandou Dez cordéis num cordel só (Queima Bucha, 2006). Está na oitava reimpressão, já devidamente esgotada.
No meio daquela paisagem de negatividade, chamam a atenção as pedras (que se sobressaem no solo desnudo) e os cajueiros – verdes e com copas generosas no meio do marrom acinzentado que matiza os campos. Não tem como não se deixar fascninar pelos cajueiros que não se rendem à seca e pela beleza rude das pedras. A paisagem ensina – como queria João Cabral de Melo Neto – uma força de linguagem. Esta pedagogia não é só a da a pedra, nem a da seca ou a da faca, é a pedagogia dos cajus cheirosos também.
Enquanto enfrentávamos a estrada, os vidros do carro fechados, ficamos atrás de um caminhão carregado de caju. O cheiro era tão forte que se fez um silêncio reverencial. E depois explodiram os comentários.
Assim também aconteceu quando Antônio Francisco espalhou sua palavra no auditório. Silêncio e êxtase.
Onde não chove, a palavra é muito mais forte.
eu conheço pela internet muitos poetas e escritores de rio grande do norte e concordo, eles são muito entusiasmados e divulgam bem o trabalho deles na rede. beijos, pedrita
ResponderExcluirlindo o post. prefiro assim, que sem fotos a gente sinta isso tudo.
ResponderExcluirPrezadas Pedrita e Ana
ResponderExcluirObrigado pela leitura.
A viagem ao Sertão do Apodi me marcou muito. A cidade de Pau de Ferros leva este nome porque ali havia uma árvore onde os boiadeiros gravavam suas marcas (o ferro usado para "assinar" as reses), indicando que passaram por ali. Outros dizem que apenas quando se perdia uma rês é que se gravava a marca do dono no tronco, para que devolvessem o animal desgarrado, se este fosse achado. Tal como a árvore mítica da cidade, fiquei marcado para sempre.
O cardápio é uma maravilha. Apenas uma amostra - arroz ao leite (uma espécie de risoto sertanejo), carne de sol desfiada com nata, feijão verde cozido com nacos de queijo de coalho. Tudo isso com um bom molho de pimenta ao leite.
Abraço do
msn
Grata, fiz junto a viagem cavalgando na linguagem. Um bj!
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