Os contos de As certezas e as palavras, de Carlos Henrique Schroeder (Editora Casa, 2010) contam com uma arquitetura que dá unidade aos textos que enfeixam o livro. Lemos o volume percebendo esta consciência estrutural. Se cada uma das peças tem independência, o que mais se destaca é o conjunto.Este conjunto, que vai do aforismo ao conto propriamente dito, apresenta um fio condutor: a idéia de que não há fronteira entre vida e literatura. Os personagens e a voz narrativa dos contos estão sempre criando esta contaminação do vivido pelas imagens e pelos possíveis da literatura. Ao desfazer tal fronteira, Schroeder não quer levar o realismo das experiências cotidianas para o espaço literário, mas empreender o inverso. Transfere para a vida dos personagens as metáforas e o poder das palavras. São as palavras, neste seu estado de abertura ficcional, que corroem as certezas – e esta é uma possível explicação para o título.
Pessoas e obras são colocadas no mesmo nível. E, para alguns dos personagens, só é possível amar alguém quando este amor é mediado por um livro. Assim acontece com o narrador de “Não diga noite”, que fotografa a amada ao lado de livros para poder amá-la mais intensamente. E é a mesma paixão mediada que se manifesta no relacionamento de Gustavo e Anderson, em “Ponta de lança”. O amor morre diante dos textos fracos que Gustavo escreve, e esta frustração literária e amorosa o leva ao suicídio. Mas o sucesso póstumo de uma peça de teatro sua devolve a intensidade de sentimentos a Anderson.
Nestes contos, o homem é antes de mais nada um ser encadernado, um ser de cultura. Ler As certezas e as palavras é vagar entre prateleiras, lendo as muitas inscrições que sinalizam o caminho.
Para quem não conhece o livro, pode baixá-lo gratuitamente no http://www.carloshenriqueschroeder.com.br/
Ganhei esse livro do autor, li, mudei de casa sem minha bagagem literária, mas o trouxe na mala.
ResponderExcluirMuito bom.