sábado, 27 de novembro de 2010

CORRA!

Escritores profissionais se vêem obrigados a ter alguma ocupação paralela. Dedicam-se tão intensamente à escrita, afastando-se da vida cotidiana, que correm o risco de naufragar nas próprias neuroses. Muitos acabam entregues à bebida. Mas há também os que buscam atividades totalmente desligadas do trabalho intelectual.
É o caso do escritor japonês Haruki Murakami (1949), que tem publicado no Brasil o seu livro Do que falo quando eu falo de corrida (Alfaguara, 2010, trad. de Cássio de Arante Leite).
Murakami é um obsessivo e vem disputando uma maratona por ano e correndo 10 quilômetros todos os dias. A sua defesa da corrida é algo comovente, pois revela antes de mais nada o valor das idéias fixas. O romancista é alguém tomado por uma idéia, alguém que não admite fugir às regras que ele cria.
Assim, a corrida funciona, no livro de Murakami, como uma metáfora para a escrita do romance. Ambas as atividades exigem o esforço extremo da pessoa, levando-a a conhecer os seus limites. Dificilmente você escreverá um grande romance sem ter antes enfrentado este processo de exaustão física. Diz o autor: “Se você não fica repetindo um mantra de algum tipo para si mesmo, nunca vai sobreviver” (p.8). Ele tem o mantra para correr, e também para escrever.
O livro de ensaios relata o início da carreira de escritor, totalmente acidental, e de corredor, mostrando um caráter muito forte. Murakami pode estar morrendo numa maratona – chegou a percorrer uma de 100 quilômetros – mas nunca se entrega, sempre encontra força para continuar. Embora não seja um corredor profissional, ele se orgulha de nunca ter caminhado em maratonas. E de sempre ter treinado sério para disputá-las, mesmo sabendo da impossibilidade de vencê-las.
A corrida é também vista como um momento de solidão, algo como uma extensão da atividade da escrita. Enquanto está treinando ou disputando uma maratona, ele se faz ainda mais sozinho: “corro a fim de conquistar um vácuo” (p.21). Mas, pelas histórias do livro, ele corre principalmente para conquistar um sentido, para estabelecer conexões com o mundo real, para ocupar um papel (é bem verdade que meio fútil) dentro da sociedade.
Estabelecendo uma lista de três qualidades necessárias para ser romancista, ele chega ao seguinte ranking: 1º. Talento; 2º. Concentração; e 3º. Perseverança. Como talento é algo inato, que a pessoa tem ou não tem, resta a um candidato a escritor investir na concentração e na perseverança. Quanto menor o talento mais ele tem que fortalecer as outras qualidades.
Nesta perspectiva, a corrida seria um treino para a escrita. É um momento em que a pessoa está totalmente concentrada em seu próprio ser para chegar ao final.
Murakami corre para poder continuar escrevendo com esta mesma determinação. Mas ele corre também para passar pelo que poderíamos chamar de momentos de epifania: “A maioria dos corredores corre não porque queira viver mais, mas porque quer viver a vida ao máximo” (p.73). Assim é também na literatura, onde se escreve não para aproveitar a vida mas para experimentar intensidades.
Por fim, ele corre também para manter a saúde. A tensão do ato de criar leva os escritores a uma vida insalubre, distante das atividades físicas. Correr é acreditar que um corpo saudável pode produzir um texto melhor do que um corpo muito frágil.
Do que falo quando eu falo de corrida é um bom livro sobre a vida do escritor, valendo mais pelos depoimentos de um homem que tem um senso de responsabilidade aguçadíssimo do que propriamente pelas idéias.
A pergunta que fica é: seria preciso então correr ou praticar esportes para escrever bons romances? Evidentemente, não. Mas o escritor que não tem outra profissão – a pequena minoria que fez sucesso – acaba se obrigando a se engajar em algo. E aí a corrida pode ser a salvação.

3 comentários:

  1. se eu me tornasse escritora dificilmente seria corredora. bom, alcoolatra tb não pq não bebo nada com alcool. vixe, será q há o q eu ser então? beijos, pedrita

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  2. Oi, Pedrita

    Eu gosto de correr - coisa modesta, uns 6 quilômetros por dia. Por isso gostei do livro.
    abraço
    msn

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  3. Li deste escritor "Após o Anoitecer". Na época imaginei se a tradução não havia enfraquecido um pouco o texto, pois confesso não ter ficado muito empolgada com ele. Mas leituras à parte, tenho percebido um culto cada vez maior à prática de corrida. Eu prefiro a caminhada esportiva (5Km por dia).É meu encontro marcado comigo mesma, onde ficam suspensos compromissos de profissional, mãe e esposa. Não levo celular, embora não dispense a música, que me ajuda a viajar para mais longe.
    Miguel, você tem ideias de escrita enquanto está correndo? Beijos.

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