sábado, 20 de novembro de 2010

CRISE E CRIAÇÃO

Literatura é sempre uma linguagem com a temperatura modificada.
Não se produz um bom texto, que se faça redemoinho de fatos experimentados interiormente, sem sair de um estado de normalidade psíquica.
Esta mudança aguça a percepção de quem escreve e permite que a linguagem o comande e não o contrário.
Todas as vezes que comandamos a linguagem, o texto esfria, perdendo a fluência. Enquanto, nestes momentos de entrega total, o texto escorre, denso e poderoso, arrastando o autor (e depois o leitor) a lugares imprevisíveis.
Estou opondo aqui dois conceitos, o texto febril e o texto fabril.
Este é fabricado, construído de maneira racional, e tem inúmeros fins na comunicação principalmente de idéias. A funcionalidade é sua marca. Serve para certa filosofia, para artigos políticos, para ensaios.
Mas a grande literatura será sempre febril. Linguagem quente, vertida do olho convulso do vulcão.
Por isso, pessoas com instabilidades de espírito tendem a se tornar artistas. Elas passam de uma temperatura a outra com grande facilidade.
O que para a maioria seria uma crise, para o escritor é um momento criativo.

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