domingo, 14 de novembro de 2010

CULTURA TRANSNACIONAL

Disse-me certa vez o poeta e tradutor José Paulo Paes (1996-1998) que uma cultura se tornava cosmopolita quando contava com os livros mais importantes da civilização vertidos em seu idioma. Ele dava o exemplo da Itália, onde era possível encontrar na língua local a essência do mundo letrado. Destacava ainda o fato de as grandes obras estrangeiras serem citadas, nos ensaios lá produzidos, em versões italianas.
José Paulo usava este argumento para defender uma tradução de qualidade em larga escala no Brasil, projeto em que se engajara desde os tempos moços da revista Joaquim (Curitiba: 1946-48), defensora de uma cultura de integração cosmopolita. Mas esta tese pode ser usada com outros propósitos se aceitarmos uma lógica borgeana.
A tradução serve para refundar a literatura produzida na língua de chegada. Mais do que uma amostra do que se faz ou fez em outro contexto, o livro traduzido entra na corrente sanguínea do idioma e fortalece o organismo todo. Com isso, estou querendo dizer que, uma vez transposto para o português, todo livro passa a fazer parte da literatura brasileira. Assim, temos o nosso Homero, o nosso Shakespeare, o nosso Proust, o nosso Gabriel García Márquez etc., que não são visitantes em nossa língua, mas um patrimônio cultural próprio.
A verdadeira literatura nacional não fica circunscrita aos autóctones, ela é composta principalmente por aquilo que há de melhor no mundo e que pôde chegar com força simbólica a uma outra língua. A tradução dá centralidade ao conceito de idioma como um contraponto ao de localização histórica e geográfica. É uma forma de pertencimento pleno a todas as épocas e a todos os lugares.

3 comentários:

  1. eu acho vital. eu até arrasto alguns idiomas, mas são poucos frente a tanto idioma no mundo. como poderia conhecer um livro japonês se não fosse a tradução? e eu tenho uma necessidade de beber cada palavra, se acabo lendo parcialmente em outro idioma, perco muito. tem que ter uma boa tradução. mas minha avidez por ler às vezes me leva a ir até o fim de um livro que sinto uma tradução capenga. fico triste o quanto o brasil traduz pouco, vai pelos mais óbvios e não faz uma segunda edição. ótimo post. beijos, pedrita

    ResponderExcluir
  2. Oi, Pedrita
    Mas melhorou muito a qualidade das traduções, embora haja muito o que melhorar. Eu sou dependente delas.
    Beijo
    msn

    ResponderExcluir
  3. Interessante esse ponto de vista trazido pra gente.

    Boas traduções são e serão, sempre, absolutamente necessárias para ampliação dos horizontes de qualquer nação.

    Uma vida, por mais esmerada seja a educação recebida, é curta demais para aprendermos tantas linguas quanto são as boas e indispesáveis obras.

    Ler um livro bem traduzido é muito gratificante, mesmo quando podemos ler o original (nunca como um nativo, claro). Esses dias li um de Horácio Quiroga e outro de Phillip Roth que me fizeram ficar pensando nisso.

    Há traduções tão ruins, mesmo no cinema, que a gente nem precisa entender a outra língua pra sentir o descaso com que foram feitas.

    Mas, se nem o escritor nativo é valorizado, como conseguir muitos excelentes tradutores?
    Aquele velho dilema: temos poucos tradutores porque lemos pouco, ou lemos pouco (os clássicos) porque temos poucos bons tradurotes? Um pouco de cada, certamente.

    ResponderExcluir