terça-feira, 23 de novembro de 2010

DECÁLOGO DO CONTISTA

1.
Não existem escolas de um só mestre. Beba de todas as fontes; cada uma delas tem um elemento necessário para solidificar seu estilo.

2.
Veja-se como um amador, que está sempre começando. Nada é pior para um escritor do que a presunção do domínio das ferramentas narrativas.

3.
Nunca imite ninguém. A imitação gera textos fracos, em que o outro se revela maior do que o eu. Se algo em algum escritor desperta sua cobiça, roube-o. O roubo exige que ocultemos a pilhagem, levando você a camuflar o que não lhe pertence. Com isso, ele passa a ser parte legítima de você.

4.
Não deixe que nada destrua a sua vontade de escrever, de escrever cada vez melhor.

5.
Só se dedique a uma história depois de ter convivido intensamente com ela, de tal forma que não exista descompasso entre a sua imaginação e o ato de escrever.

6.
Use as palavras como se tivesse de pagar para publicá-las, evitando o menor desperdício de dinheiro. Mas sabia que há textos que exigem grandes investimentos.

7.
Busque sempre os ossos da linguagem, mas nunca os deixe à mostra; saiba acrescentar carnes, nervos e uma pele agradável.

8.
Durante a escrita, tente ver o seu personagem como alguém que está ao seu lado. Coloque-se imaginariamente dentro da história, isso vai permitir que você tenha sempre uma melhor visão dela.

9.
Um bom conto nasce da embriaguez de um momento, de um momento já desaparecido. E este estado de inconsciência é tão forte que suspende as barreiras de tempo e lugar, fazendo com que o passado e o futuro se encontrem num presente imorredouro.

10.
Escreva como se não existisse mais ninguém na face da terra, pois de fato não existe. Um grande texto é a expressão da solidão própria do criador, que apenas agora começa a habitar o mundo.

5 comentários:

  1. colocando o personagem como alguém ao meu lado me lembra o meu amigo invisível na minha infância. saudades dele! não sei por onde ele anda! se eu escrever terei de resgatá-lo? :) amei seu post! gosto da forma como vc resume com tanto conteúdo. beijos, pedrita

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  2. Obrigado, Pedrita, tanto pelas palavras quanto pela fidelidade de leitura.
    Vou colocar na sequência, nos dias seguintes, mas dois posts sobre o mesmo assunto. Este de hoje saiu no livro-homenagem ao Horácio Quiroga - Decálogo do perfeito contista (pela L&PM).
    abraço
    msn

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  3. Caro Miguel, uma dúvida: existe um momento de embriaguez e também a embriaguez de um momento. Suponhamos que um seja passado e o outro, presente. Quando você fala do bom conto nascer do momento já desaparecido, isso descarta a possibilidade dele nascer na exata hora da embriaguez?
    Um beijo,
    Vanessa

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  4. A humanidade tem aqueles que, nos momentos de "embriaguez", escrevem, e aqueles que chegam à embriaguez lendo o que os primeiros nos escrevem.
    Nisso, creio, toda a generosidade dos grandes [escritores]: ter a coragem e a ousadia de, muitas vezes, desnudar sua alma para encantar outras tantas almas.

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  5. Grato, Alex e Vanessa pelos posts.
    Na hora da escrita, pelo menos para mim, há um controle maior do que já foi experimentado/imaginado/sentido, tenho uma percepção do que aconteceu ou do poderia ter acontecido, mas aos poucos a escrita vai se fazendo uma nova embriaguez, revivendo aquela intensidade distante, que agora já é outra coisa.
    abraço
    msn

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