muito pouco tem a ver
com contar casos
que ouvimos na rua,
soubemos por amigos,
jornais ou pela tevê.
Um conto é um corte
na pele fina do hoje
e ele sangra tanto
que, para estancá-lo,
resta-nos o manto
de termos cotidianos.
Não escreva contos
para fazer graça.
Só admita a piada
quando amarga.
A tristeza do tempo
que nunca pára,
mesmo o amor maior
nos espeta o peito
com a pior farpa.
Conto repele risadas.
Isso é para a crônica
que ajuda a digerir
as comidas pesadas.
Apenas escreva contos
em estado de fúria,
com um ódio santo
contra toda a turba.
Um conto necessário
é um ato de cura,
catarse em meio
à insanidade de tudo.
Escreva contos para
emudecer esse mundo
tomado pela usura.
Não escreva contos
como quem brinca
com palavras móveis,
incrustáveis nas frases.
Conto já nasce pronto.
Todo esforço vem antes,
ao se sofrer o corte
e sangrar até a morte.
Não é com palavras
que se faz um conto,
mas com o sentimento
de tantos desencontros
entre o Eu e o mundo,
mesmo quando o mundo
é quem um dia fomos.
Tente escrever um conto
que te prepare um pouco
para te ver como morto.
Estar vivo é algo falso
porque breve em demasia.
Todo conto é um canto,
um canto de despedida.
Não escreva contos
com palavras eruditas.
Conto é linguagem viva,
a mesma usada no bar,
na hora do namoro,
no balcão da padaria.
Palavras do dia-a-dia,
súbito se concentram
e dizem de uma vez algo
que ninguém mais diria.
Escreva os seus contos
como quem se suicida
sem deixar bilhetes
dando os tais motivos.
Um conto não se explica.
É morte imprevisível,
a vida como enigma,
a força de um mistério
que nunca silencia.
Só escreva os seus contos
quando não houver quando.
Publicado no volume Concursos literários 2009. Curitiba: Secretaria de Estado de Cultura, 2009.
adorei: "Apenas escreva contos
ResponderExcluirem estado de fúria"
falei de literatura no meu blog, terminei de ler thérèse desqueyroux de françois mauric, presente do rodrigo gurgel.
ResponderExcluirQue suave e doce porrada! Adorei! [ou, pra variar, não terei entendido quase nada]
ResponderExcluirA literatura só tem sentido quando capaz de ser abrasiva, cortante, potencialmente transformadora, mesmo quando suave e doce.