Sou um dos cem poetasde todos os confins do país
publicados em regime de cooperativa
na edição de 1985
da Nova Poesia Brasileira.
Não era difícil ser selecionado.
Mandávamos três poemas ruins
e um deles passava a figurar
na antologia anual,
ganhando a pessoa o privilégio
de ser chamado de autor
e um carnê para pagamentos
em favor da pequena editora.
Vinte e cinco anos se passaram
sobre o papel off-set 75 gramas
dos poemas, amarelando-o.
Traças furaram o volume
que ficou esquecido no armário
da casa materna
com uma dedicatória exagerada
à minha irmã.
E que eu me lembre
só paguei a primeira
das quatro prestações,
mesmo assim recebendo
os exemplares do autor,
todos afoitamente distribuídos
sabe-se lá a quem.
E reaparece agora este
para me mostrar entre
jovens alunos, professoras
primárias, funcionários públicos
que faziam da poesia
o seu nada, o seu tudo.
Não sei onde foram parar
os outros dois poemas recusados
e os demais que eu então escrevia,
alguns deles, segundo a nota biográfica,
publicados em jornais.
Mas tenham o valor que tiverem
e mesmo que nenhuma linha
do que eu escrevi depois
fique,
sou um dos cem poetas
de todos os confins do país
publicados em regime de cooperativa
na edição de 1985 da Nova Poesia Brasileira.
adorei! beijos, pedrita
ResponderExcluirOi, Pedrita.
ResponderExcluirO editor era o Paulo Coelho - a editora se chamava Shogun Arte.
abraço
msn
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirSei o que é ser um poeta de província, mas cada vez mais me convenço que viver na província pode ser uma vantagem para evitar a publicação deslumbrada e precoce, que nos dias de hoje, com o desaparecimento da crítica, pode ser um perigo: quem nos avisará que nossos poemas são desnecessários, e nos aconselhará a procurar outra ocupação? Nem todo mundo tem a consciência para o Delete-suicida. Estou pensando, depois destes dois post, em fazer uma faxina.
ResponderExcluirAbraço,
Gerciano.
Acabei de avistar o poema, Miguel, mas prefiro as suas crônicas. Obrigada pelo atendimento do meu pedido; muita gentileza.
ResponderExcluirMiguel,acho muito engraçada esta história que tive o prazer de te ouvir contar, acho que no encontro do Sesc. E foi editado pelo Paulo Coelho, hein? rs...Te enviei meu livro pelo correio, deve chegar aí nos próximos dias. Um abraço.Célia (www.sensivelldesafio.zip.net)
ResponderExcluirCaro Miguel,
ResponderExcluirde fato, este poema, como poema não tem força alguma, mas como crônica está perfeito.
Um abraço.
Prezado Miguel,
ResponderExcluirvejo por um outro lado: a grandeza de um autor em expor a comentários textos que ele antecipadamente assume como "ruins", com o que nos mostra (uma vez mais, sempre) o lado humano, aproximando-nos de seus textos excelentes. Na companhia de "jovens alunos, professoras primárias, funcionários públicos", todos que teremos, pelo menos, o talento de reconhecer o talento alheio. E, mais do que isso, usufruir dele.
Parabéns pelo ato!
P.S. Não entendo, apenas gosto ou não gosto. Pode não ser poesia, mas tem poesia e é, sim, um texto digno de ser guardado. Nada nada, para quando seus textos forem perscrutados em teses e análises...
Abraço.