Há um mito da reescrita: o escritor deve rever permanentemente os seus originais e depois os livros nas eventuais reedições. Com isso, valoriza-se o trabalho artesanal, numa tentativa de intelectualizar a literatura. Mas a genialidade de uma obra, o seu valor de simbolização, se manifesta mais no impulso da escrita. As revisões servem para dar fluência, sendo acessórias em relação ao momento imprevisível e intenso do ato criador.Assim, quando o escritor se coloca de maneira muito racional diante de um texto, este tende a soar construído.
Mesmo na reescrita, deve preponderar o ouvido a qualquer outro órgão. Não se trata de criar situações engenhosas no texto, mas de lhe dar um valor de música. Por isso, desde Gustave Flaubert, aprendemos que é necessário sentir o texto em voz alta, para que ele se revele.
A revisão longa e excessiva nem sempre melhora muito um livro, e pode até piorá-lo. Um exemplo de um livro trabalhado durante décadas e que resultou frágil porque falso é o romance João Ternura (1965), de Aníbal Machado, publicado postumamente.
Aumenta-se a literatura do livro, que perde a sua natureza de documento humano, próximo de quem o escreveu em um estado de percepção privilegiada da existência.
Não nego a revisão ou a reescrita, mas entendo que cada livro tem o seu tempo e comporta certo grau de melhoria, não sendo possível ir além sem tirar dele a sua magia.
Penso nisso enquanto reviso os contos para uma coletânea com o material escrito de 2003 para cá. Os mais antigos, por mais que eu os releia, não sofrem alterações significativas. Os mais novos, sim. Elimino passagens inteiras, troco frases, junto ou abro parágrafos. Os primeiros contos chegaram ao grau máximo de depuração a que eu, como autor, poderia submetê-los. Não melhorarão se forem publicados daqui a 10 anos. Os mais recentes ainda não atingiram esta estabilidade em que a força fundadora é mantida numa forma livre de pequenos ruídos.
Porque é apenas isso que a reescrita ou a revisão pode fazer: eliminar ruídos. A música inteira vem da origem.
a revisão como adequação do idioma acho válido, mas mudança de construções de frases precisa ser muito pertinente para justificar. beijos, pedrita
ResponderExcluirOi, Pedrita
ResponderExcluirO escritor está sempre insatisfeito consigo mesmo.
beijo
msn