Não sou um animal político, nunca me filiei a partidos e tenho horror a qualquer forma de fanatismo. Digo isso antes de tentar uma pequena análise do resultado da eleição para presidente.Meus parâmetros são sempre literários, por isso recorro a uma carta de Mário de Andrade, de 26 de julho de 1925, dirigida ao folclorista nordestino Câmara Cascudo (In Câmara Cascudo e Mário de Andrade: cartas – 1924/1944. São Paulo: Global, 2010). Mário de Andrade estava colecionando imagens, textos, estórias e amizades dos quatro cantos do Brasil para compor seu livro-maior, Macunaíma (1928). Ele pede a Câmara Cascudo que mande todo o tipo de material que ele tiver sobre o Rio Grande do Norte.
Nestas cartas, o escritor revela uma gulodice pelo Brasil: “Tem momentos em que eu tenho fome, mas positivamente fome física, fome estomacal pelo Brasil” (p.47). E é isto que sentimos nos textos e nas leituras de Mário, um desejo de ser maior do que ele, coisa que ele vai destacar logo em seguida: “Me penso brasileiro e você pode ter certeza que nunca me penso paulista”. Aí está uma velha lição que muitos têm esquecido. Seja de que estado for um candidato a presidente, ele tem que se sentir brasileiro - mais ainda: tem que se sentir cosmopolitamente brasileiro, com uma visão que ultrapasse nossas fronteiras.
Ao longo da campanha de José Serra, sem dúvida um grande político, houve a preponderância de um olhar paulista. E foi principalmente este sentimento de paulistanidade que inviabilizou o seu nome. Para muitos, São Paulo é sinônimo de Brasil moderno. Mas, para a maioria, é uma antítese do Brasil profundo. Nesta última eleição, venceu o Brasil profundo, aquele mesmo que Mário de Andrade buscava, renunciando à sua identidade imediata.
Na coletiva de José Serra depois da derrota (uma derrota que, do ponto de vista biográfico, ele não merecia), o recente ex-candidato se dirigiu essencialmente aos paulistas, a quem agradeceu. Por mais que tenha viajado pelo Brasil, ele continuou sendo um político com denominação de origem. Neste ponto, o atual e a futura presidente contaram com um deslocamento de identidade que lhes permitiu um trânsito maior. Apesar de politicamente domiciliado no Estado de São Paulo, Lula é um nordestino. Ou seja, está fora de seu lugar. A mesma coisa se deu com Dilma Vana Rousseff. Mineira de nascimento, fez sua vida no Rio Grande do Sul. Este tipo de experiência torna o político mais permeável ao outro, e consequentemente lhe dá uma maior representatividade nacional.
Qualquer candidato que queira se credenciar para as próximas eleições presidenciais terá que ter esta fome física, estomacal pelo Brasil. Porque é o Brasil (com todas as suas mazelas) que deve vencer uma eleição para presidente. E nunca uma região – seja ela qual for.
Muito bom!
ResponderExcluirMiguel, Miguel, Miguel... O mais contemporâneo dos famintos pelo Brasil profundo!
ResponderExcluirorgulho-me por ser seu contemporâneo, companheiro de letras, brasileiro de dentro.
ResponderExcluirjorge pieiro
que belas palavras, encontrei nelas um gosto de Brasil!
ResponderExcluirMeu cronista paranaense preferido sintetizou exatamente a situação; sentir-se um brasileiro deixa qualquer um mais à vontade para falar e agir em nome do Brasil.
ResponderExcluirGostei muito do que você escreveu, Miguel; tudo muito sensato e ao mesmo tempo sentimental.
Receba o meu abraço enternecido pela conjunção das ideias.
Gostei. Um olhar original, uma análise diferente, sensível e sensata, para uma velha questão.
ResponderExcluirQuanto mais tendemos ao universal, mais humanos nos tornamos e mais aptos ficamos a resolver os problemas de nossa própria aldeia.
Excelente,
ResponderExcluirGostaria que mais pessoas e das mais diversas áreas contribuissem para o debate político.
A articulação do texto com a literatura é espetacular.
Parabéns.
Antônio César Bochenek