Na gaveta que destino aos poemas que eventualmente escrevo, acumularam-se uns 40 textos desde 2005. Não quero escrever poemas. Tenho colocado meu interesse em outras coisas, mas há momentos em que um poema surge. Contra minha vontade. Há anos a poesia só me visita como invasão. O máximo que faço é facilitar, deixando a porta mal trancada. Não sei o que fazer com estes textos. Não quero publicar um novo livro. Jogar tudo fora talvez fosse o mais sensato, mas fazer isso em bloco seria muita crueldade. Então, tenho que me dedicar a estes poemas. Verificar a possibilidade de salvar alguns.Venho fazendo isso. Ler coisas escritas em outras temperaturas emocionais. Melhorar versos. Julgar a minha própria produção. E deletar muitos poemas. Rasgar a cópia impressa. Apagar o arquivo. Limpar a lixeira do computador. É um trabalho depressivo. Mas me submeto a ele.
Não se trata de jogar fora um pedaço de papel, mas de amputar de minha vida um instante, uma emoção que foi forte ao ponto de permitir uma tentativa poética. Eu me sinto ludibriado quando constato que aquele poema (aquele momento de minha vida) resultou falso. Eu me enganei. Mas se me enganei, não posso enganar meu improvável leitor. Não posso roubar dele os instantes que gastaria lendo algo que se propõe como poesia e que não passava de palavras vazias.
Então eu me suicido apagando esses poemas.
Miguel, o que posso dizer de minha experiência como escrevinhadora, que não é nem um infinitésimo da sua, mas que vale também, principalmente por minha idade vetusta e minha prática de leitora sensível, é que o que se deixou quebrar tão fácil cristal não era. Mas eu não acho como você que essas coisas devam ser deletadas, porque ainda que não se tenha encontrado a forma eficiente de dizê-la, alguma coisa que quer ser dita permanece lá, e talvez seja só uma questão de tempo que se deixe revelar.
ResponderExcluirOi, Aveloh
ResponderExcluirDizia o velho Drummond, não colha o poema caído.
É esta não-colheita uma sabedoria.
Abraço
msn
nossa, eu nunca consegui escrever poemas, acho q eu ficaria procurando-os, dificilmente eles me invadiriam. beijos, pedrita
ResponderExcluirQue tal oferecer uma amostra desses poemas ao leitor, Miguel?
ResponderExcluirPedido atendido, Doralice.
ResponderExcluirE, por que, ao invés de "amputar um instante, uma emoção que foi forte", apagando definitivamente o texto, não sepultá-lo em um pen drive, até uma futura exumação?
ResponderExcluirEm todo caso, o autor é o senhor de seus textos. Se ele decidiu que não merecem continuar...
Li uma bonita frase dia desses: “Os poetas não morrem. Tiram férias permanentes e seus versos continuam a trabalhar por eles, a limpar os tempos.” (esse limpar era uma referência a “Tempo Sujo”, de Jamil Snege).
ResponderExcluirOra, nesse caso não vou facilitar para você, Miguel. Te condeno neste tribunal de leitores pelo crime de POEMACÍDIO!!
E de quebra ainda lanço uma questão: será mesmo que o autor é dono absoluto daquilo que escreve?
Um beijo.
Vanessa
Oi, Vanessa
ResponderExcluirÉ preciso matar algumas coisas na gente para que continuemos amanhecendo.
Beijo
msn