terça-feira, 28 de dezembro de 2010

THE END

Entre as piores coisas do fim de ano está o fato de recebermos uma enormidade de spam, a maioria sobre promoção disso e daquilo, muitos com vírus, enquanto pouquíssimos são os e-mails dos amigos. Estes estão nas compras, preparando as festas, fazendo planos para o novo ciclo etc. Eu que não me dedico a nada disso, continuo com a vidinha de sempre e sinto falta dos diálogos que a internet me possibilita.
Embora haja tantas quinquilharias ofertadas para seqüestrar parcelas de meu décimo terceiro salário, ainda não encontrei o produto de que mais preciso neste período. Falei isso aqui em casa e me aconselharam a procurar num desses sites de compra. Acatei a sugestão e entrei num dos maiores sites do ramo, onde se vende tudo.
– Achou? – perguntou minha filha.
– Não, não tem.
– O que exatamente você está procurando?
– Uma caixinha de pontos finais.
– Ah, pai, vê se não enche – ela disse e se afastou.
Sonho com uma invenção, vá lá, utópica, que possa descomplicar a vida da gente. Seria muito prático ter muitos pontos finais de vários tamanhos. Um amigo fez uma cachorrada qualquer, daí pegamos um dos pontos, o maior deles, e colocamos na parte da memória que serve para recordá-lo. Ele não atrapalharia mais, entraria para uma espécie de arquivo morto. Você tem o velho projeto de aprender a tocar violão. E nunca consegue passar das primeiras lições e isso causa frustração, principalmente quando você vê Yamandu Costa fazendo misérias com o instrumento. Pegue então um ponto final e coloque nesta parte dos mecanismos interiores de desejo e guarde suas energias para outras coisas.
Quem sofre de crises depressivas no final do ano sabe quanto é importante possuir um pequeno estoque de pontos finais. Enquanto a indústria não desenvolve este produto milagroso, temos que usar imaginariamente o recurso de fechamento de frases e parágrafos de nossa vida.
Quando me perguntam o que se deve fazer para se escrever um texto claro, tenho uma resposta pronta:
– Coloque muitos pontos finais. E fuja do excesso de vírgulas.
O que tento praticar nos textos nada mais é do que um reflexo da minha vida. Gosto dos pontos finais. Quando posso usá-los, sei que estou cortando um cordão umbilical que já se alongou muito.
Pois bem, fiz esta introdução toda apenas para dizer que esta crônica é um ponto final.
– Última crônica do ano – pensará o leitor.
Mas é mais do que isso. Estou encerrando minha contribuição como cronista da Gazeta do Povo.
Só me tornei cronista extemporaneamente. Já era crítico literário, poeta, contista e romancista quando ensaiei os primeiros textos aqui, contrabandeando uma ou outra crônica num espaço destinado à crítica. Foi nestas páginas que surgiram, entre 2002 e 2003, quase todos os textos de meu livro Herdando uma biblioteca (Record, 2004). A partir desta experiência, mesclei crônica e crítica até me tornar apenas cronista.
Agora vem o convite, para reformular minha colaboração, que mudará de dia (a coluna sairá aos domingos). De fevereiro de 2011 em diante, estarei me ocupando novamente com a crítica de livros, na tentativa de apresentar ao leitor as melhores opções editorais.
Ou seja:
– Ponto final. Agora abra novo parágrafo.
Entre um e outro, no entanto, haverá parênteses.
Em janeiro, aos sábados, escreverei crônicas interinamente no lugar da Marleth Silva, na página 3 do primeiro caderno.

in "Caderno G", Gazeta do Povo, 28 de dezembro de 2010.

5 comentários:

  1. adorei! realmente os internautas somem nesse período. é em geral a época que paro em férias, não chego a ir longe, mas aproveito pra descansar, ler e ver filmes. as outras atividades culturais em geral precisam esperar pq tb entram em recesso nesse período. beijos, pedrita

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  2. Oi, Pedrita
    A cidade fica mais humana neste período.
    msn

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  3. Já eu, adoro a vírgula.
    O jornal é sem dúvida o lugar por excelência da crônica, mas hoje há os blogues, e, pensando bem, até mesmo as gavetas são uma boa paragem, se lá ao longe se divisa um volume de "crônicas reunidas". E crítica também é bom. Felicidades.

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  4. Adorei o texto [de despedida da página de crônicas da GP].

    Pontos finais sempre me entristecem, mesmo quando tão bem colocados. Mas concordo que seria bom se a gente os tivesse sempre à mão e, sobretudo, aprendesse a usá-los desde cedo. Depois de adulto fica bem mais complicado.

    Sempre convivi com reticências, que acabam nos levando a infindáveis e [que bom se fossem] evitáveis sofrimentos...

    O escritor avança, o homem caminha, é preciso deixar o barco navegar. Que o novo espaço lhe traga muita satisfação com o trabalho, e possa continuar nos brindando sempre com seus textos, imprescindíveis. O escritor, depois que nos conquista, será lido sempre com pontos de exclamação, algumas interrogações e sempre esperançosas reticências.

    Obrigado, sempre!

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  5. Obrigado,Alex

    Os ventos mudaram, o barquinho vai ser jogado contra outros rochedos.
    msn

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