segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

OS NOSSOS NADAS

A crônica literária tem algo de Big Brother.
É uma maneira de o leitor espiar a vida íntima – no geral, monótona – do cronista. Lemos para saber algo sobre aquela pessoa que fala como se estivesse diante de câmeras indiscretas.
Lógico, o cronista não tem a notoriedade das figuras do Big Brother, e não consta que algum de nós tenha sido convidado para posar nu em revistas do gênero – o que é uma prova da sensatez do mundo, no geral tão desconcertado.
Não é o corpo ou o visual o que chama atenção no cronista. Mas a sua capacidade de criar metáforas sobre experiências comuns à maioria dos leitores.
Ele é um pequeno herói da vida besta, confundindo-se com as figuras populares da cidade, do bairro. Por isso, desperta sentimentos de identificação. É assim que me sinto como cronista – como alguém que fala colado ao leitor.
Ponte entre literatura e vida, esta forma de expressão cria uma gramática da oralidade. Não escreve crônicas quem não quer conversar por escrito com interlocutores implícitos mas muito próximos.
Encontro pessoas que perguntam de meu filho, da minha biblioteca ou de outros assuntos, como se fôssemos amigos.
E de fato somos amigos, mesmo sem nos conhecermos pessoalmente.
Espaço do confessional, este formato leva a pessoa que o ocupa a não se constranger ao falar sobre os nossos nadas, tentando sempre construir alguma estrutura simbólica. É aí que reside o poder literário da crônica. Ela ordena afetivamente o mundo cotidiano, de maneira despretensiosa, a partir de alguma imagem que, de tão mínima, passa despercebida para a grande maioria.
O cronista faz esta e outras descobertas absolutamente desnecessárias, e no entanto tão desejadas.

2 comentários:

  1. Prezado Miguel,

    Não conheço muitos autores pra comparar com segurança, mas arrisco a dizer que poucos escritores se colocam tão livre e pessoalmente aos seus leitores. A ponto de a gente sempre perder o fio da meada entre ficção e realidade, que se fundem fantasticamente bem em suas obras.

    Muito gostoso ler tudo que você escreve!

    Abraços e Feliz 2011! Crônica ou romance, que seja sempre poesia!

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  2. Muito boa definição.
    Leitura gostosa, reitero.
    Um abraço.

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