quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

SENHOR ANTÔNIO

1.
De cada palavra meu filho corta uma sílaba.
Comunica-se em um idioma em ruínas.

2.

Aos 3 anos, ele é eterno. Começará a morrer quando aprender as horas.

3.
Pergunto de que cor ele é.
– Marrom – ele me responde, embora seja branco como o leite.
– E de que cor sou eu?
– Azul-papai – ele diz, apesar de minha cor de cuia queimada.
Antônio conhece todas as cores, mas opera uma paleta imaginária.

4.
Toda vez que vê um caminhão, pergunta o que ele carrega.
E eu então invento: anjos, nuvens, morcegos...

5.
Enquanto sou fotografado, ele me olha.
Será que vai se lembrar desta cena daqui a 20 anos, quando encontrar estas fotos?

6.
No parque, pergunta o que é aquela construção onde eles entraram.
– Um palácio – diz a mãe dele.
– Então o rei sou eu?

7.
Na Páscoa, pintamos patinhas de coelho saindo da janela da sala, no primeiro andar, e acabando num ninho de ovos.
Antônio olha tudo e pergunta:
– Coelho voa?

8.
Saindo do banho, Antônio abraça a mãe e diz:
– Mãe gostosa.
E completa:
– Você é macia.

9.
– Mãe, comi tanto papá que minha barriga quer quebrar.

10.
Ele abaixa a calça e mostra o pipi ereto:
– Olhem, ele está fazendo careta.

11.
Molhando o pincel numa poça na calçada, Antônio diz estar pintando a parede na cor da água.

12.
Risca o livro impresso em papel bíblia, mostrando-o, todo orgulhoso:
– Eu também sabe escrever, pai.

13.
– Cuidado! Estes cachorros são brabos – eu aviso.
– Não são brabos não, pai. Eles são é felizes.

14.
Quando não aceito carregá-lo, pergunta:
– Ei, seu colo parou de funcionar?

15.
Ele disca um número, depois começa a rugir muito alto no telefone.
– O que está fazendo?
– Ligando pro leão, ué.

16.
Ainda sem saber definir seus estados de alma, quando se entristece diz que está muito malvado.

17.
Ele me desenhou no Dia dos Pais, colocando o desenho debaixo da porta do escritório. Daí cho­­rou porque queria o presente de volta.

18.
– Você se sujou todo, Antônio. Que feio!
– Pare com isso, pai, eu sou é lindo!

19.
– Que foi isso? – pergunto.
– Nada, só o meu bumbum dizendo pum.

20.
Ele diz, chegando ao cabo e à cápsula de sementes:
– A maçã também tem esqueleto.

21.
Perdi meu pai na primeira infância. E agora meu filho declara:
– Eu já fui o seu pai.

22.
Ao ver as nuvens cinzas, diz o menino:
– O céu está caindo.

23.
Dormindo ao lado de meu filho, sinto que o sono dele tem muito mais raiz.

24.
Apontando a lua minguante, ele fala:
– Olha, a lua está quebrada.

25.
– Você deve guardar este segredo – digo.
E ele questiona:
– Onde, aqui dentro da boca?

26.
Antônio se aproxima e diz:
– Vou me casar com a Mel.
(Mel é a nossa cachorrinha.)
– Por que você quer se casar com ela?
– Pra ter alguém pra dançar.

27.
– A sua mão, pai, é uma aranha. A mão da mãe é outra.
E daí Antônio junta as nossas mãos, dizendo:
– Agora, aranhas, se apaixonem.

28.
– Quando eu for criança igual a você – digo a meu filho –, talvez eu aprenda a não sofrer.

In "Caderno G", Gazeta do Povo, 21 de dezembro de 2010.

7 comentários:

  1. MUITO BOM ! Adorei o seu blog ! Visite o meu blog sobre tênis e retribua o comentário ! : breakpointbrasil.blogspot.com/ - SIGA MEU BLOG E MEU TWITTER, que eu sigo o seu de volta !twitter @breakpointbr, caso queira seguir. Se puder me LISTE :-)

    Obrigado !

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  2. Muito legal Miguel, eu tenho um filhote de oito meses, logo estará cortando sílabas.
    Abraço do Schroeder.

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  3. Tenho pelo seu Antonio um carinho especial; não faz muito tempo que li o anúncio da chegada de um novo filho, Miguel. Agora ele já faz tantas coisas.

    Eu que acompanho as suas crônicas na GP fico mais alegre quando elas trazem notícias desse pequeno "rei" doméstico. Que você possam viver muitas alegrias nesse aprendizado de pai e filho.

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  4. caramba, cara, sensacional. Uma das coisas mais bonitas e inteligentes que já vi sobre criança. São pequenos poetas, de fato. A maioria nasce assim, depois é que desaprende. Talvez no instante em que notam as horas.

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  5. gostei tanto! minha criança já cresceu, meu neto ainda não chegou. Torço pra que ele chegue logo, ainda mais depois de ler o que vc escreveu!

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  6. A infância é Antônio, ou seja, poesia em estado genuíno.
    Gosto demais do que você escreve. Um abraço.

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