quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

VOCAÇÃO

Ainda não existem homens que, na hora de preencher o campo destinado à profissão em algum formulário, declarem: do lar. Muitos chefes de família, no entanto, estão se dedicando por hobby à culinária. Fazem cursos com os melhores especialistas, criam cardápios sofisticados e se esmeram na cozinha de casa. No geral, a comida masculina é mais generosa e menos rotineira.
– É porque vocês só cozinham de vez em quando – revida mi­­nha mulher.
Domino a ciência de uns poucos pratos, todos eles rústicos, mas não tenho o menor orgulho disso. Minha comida faria sucesso em um acampamento, numa expedição de pescaria ou em alguma situação do gênero. Nem mesmo me saio bem no churrasco dominical, e com isso a churrasqueira aqui de casa anda de fogo morto.
É que a concorrência é desleal. Minha mulher cozinha bem, tem um senso estético na hora de montar os pratos, sabe modificar as receitas de acordo com os ingredientes disponíveis e domina todos os meus gostos. Sento-me à mesa e como com a boca boa – esta é a melhor forma de elogiar um prato.
Refeições em casa, principalmente no final de semana, quando a empregada não está, sempre tem uma complicação: lavar a louça. Muitos podem até gostar de cozinhar, preparar drinques, assar carnes, mas dar contar da tralha suja é algo que não entra na lista de preferências das pessoas.
É o momento menos estético da refeição. Depois de ter decorado travessas, alternado cores, disposto copos, taças, talheres na mesa, fazendo-os combinar com a toalha escolhida para aquele momento, ou seja, depois de todo um exercício artístico, vêm os pratos lambuzados, restos, talheres engordurados, travessas que devem ser esvaziadas.
Já ouvi, da mulher de um amigo, que ela não cozinha porque não suporta nem olhar para a louça suja.
E louça suja é algo que não falta aqui em casa. Com imensa generosidade, minha mulher vai espalhando alimentos e objetos pelo longo balcão em forma de L. A me­­sa também fica cheia de coisas, com um ou outro eletrodoméstico usado. Ela trabalha com muita rapidez, sem tempo de ir organizando. Então, a cozinha é a versão reduzida de um cenário de terremoto.
Se estou sem trabalho urgente para entregar, faço-me ajudante. Vou guardando coisas, fechando embalagens, devolvendo à geladeira e aos armários o que não vai ser usado etc.; e ainda desempenho pequenas tarefas: descascar alho, cortar cebola, abrir um vidro de palmito, lavar as verduras.
Mas a minha contribuição maior para as refeições de final de semana é quando retiro do armário o escorredor de louça, instalando-o ao lado da cuba da pia. Com o frasco de detergente na mão esquerda e a buchinha na direita, torno-me uma pessoa perigosa. Numa destreza um tanto caricata, como se tivesse que bater algum recorde, começo a esfregar panelas e outras peças e pôr para escorrer. Quando o escorredor está transbordando, retiro um guardanapo limpo da gaveta, enxugo as louças e as guardo.
Nestas ocasiões, o cheiro da comida sendo preparada me deixa alegre. Trabalho como uma pessoa orgulhosamente vocacionada para aquilo.
Minha mulher me chama para experimentar o molho ou o sal de algum prato. E este é um momento mágico. A comida ainda não está pronta, o arroz arbóreo trinca nos dentes, mas o molho cremoso de funghi secci que o envolve está divino. Só os cozinheiros e os ajudantes conhecem o sabor dos pratos em seus estágios preliminares.
Enquanto corto os palmitos em rodelas, devoro uns pedaços. E assim, antes da refeição, vou me alimentando. Mas a degustação se dá em quantidades tão mínimas que, quando sou convocado para a mesa, como se fosse uma visita, estou ainda faminto.
Durante este trabalho, é comum eu abrir uma cerveja ou um vinho. Então, levo meu copo e a garrafa para a mesa. Eis a pequena família reunida em torno do alimento preparado com alegria. Aos poucos, vamos estragando os pratos tão cuidadosamente construídos. Uma mancha de molho ganha a toalha. Nódoas de gordura embaçam os copos. O vinagre balsâmico deixar cair uma gota escura na travessa de arroz branco. É a vida que se impõe.
Ao final, depois dos filhos já terem deixado a mesa, começamos a ordená-la. Limpar e empilhar os pratos, separar o que vai ser guardado. Poderia ser um momento depressivo (“Tanto trabalho para estes instantes fugazes de satisfação?”), mas estou entusiasmado.
Levo tudo para a cozinha, criando uma seqüência. Primeiro, os copos e similares. Depois, os talheres. Em seguida, pratos e travessas. Por último, as coisas mais engorduradas. Começo a lavar a louça em estado de graça.
– Em estado de leve alcoolismo – brinca minha mulher.
Depois de armazenar o que sobrou, ela me pergunta se quero uma ajudante. Não preciso dizer nada, pois ela já empunha um guardanapo que acabou de retirar da gaveta.

In "Caderno G", Gazeta do Povo (Curitiba), 07 de dezembro de 2010.

5 comentários:

  1. meu pai é filho de belga, então os serviços domésticos sempre foram de todos. todos nós tínhamos que colaborar pela administração da casa. o serviço da casa não era da responsabilidade de um e sim de todos. minha mãe que cozinhava, mas na ausência dela meu pai cozinhava e nós ajudávamos e ele nos ensinava. supermercado e feira sempre foi meu pai q fez, eu ia ajudar junto. e ele sempre me ensinava como comprar frutas e verduras, como saber escolher. na europa não há essa divisão como no brasil. não é função da mulher cuidar da casa. inclusive na europa não há empregados domésticos como no brasil. hj meu pai vive sozinho e qd vou dormir na casa dele é ele q prepara o café da manhã e cuida de todos os detalhes. tanto q estranho qd brasileiros acham q precisam ajudar nos afazeres, como se a administração dos trabalhos domésticos não fossem responsabilidade deles tb. hj em dia tudo é dividido, o dinheiro é dos dois, mas as mulheres continuam achando q os domésticos são delas e eles ajudam.

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  2. Oi, Pedrita

    É ainda um resquício da sociedade escravocrata. Eu também sempre ajudei em casa, e na ausência de minha mãe a comida ficava por minha conta. Mas mesmo assim, sobra mais serviço para a mulher do que para o homem.
    beijo
    msn

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  3. Miguel,

    Eu não sei se há um campo para preenchermos com a vocação. Mas se fosse preencher um com a sua vocação, eu não teria dúvida em ser redundante: escrita/escritor! Que texto agradável de ler. Muito aprecio esses textos sobre o cotidiano. Impossível ler o seu texto e não ver detalhadamente, bem diante dos olhos, cada uma das cenas/momentos que descreve. A propósito, eu também estou entre os que ajudam mais a limpar e lavar do que a cozinhar. E isso, ainda que não seja isonômico, certamente é um avanço em relação à geração do meu pai.

    Francisco Giovanni Vieira

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  4. Também gosto muito da maneira como nos coloca seu cotidiano. É como se nos convidasse para estar à mesa, num breve instante de comunhão. Aliás, a vida parece mesmo uma eterna preparação para os grandes momentos -- aqueles que realmente contam, marcam --, ocupada depois com as infindáveis arrumações... e assim se vão os ciclos. É a vida... bem vivida.

    Sobre o tema... eu não cozinho, mas lavar as tralhas é comigo mesmo. Confesso: gosto muito, ir ordenando, vendo as coisas ficarem limpas, organizadas, prontas pro próximo uso. Desde moleque, aprendi a fazer. Na infância, por solidariedade com minha mãe. Chegava da escola e estava ela ao tanque, ainda, com a pia cheia de louça suja... Hoje, seja na minha ou em outra casa, procuro sempre lavar. É como se fosse minha contribuição para amenizar o trabalho de quem me deu o enorme prazer da comida bem feita. Colaborar e participar é preciso!

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  5. Prezados Francisco e Alex

    A maior alegria da crônica é esta interação com o leitor. É pelo cotidiano - e pelos seus símbolos - que unimos nossas experiências.
    Abraço
    msn

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