sexta-feira, 30 de julho de 2010

ESCRITOR-PONTE


Quando da morte de José Saramago, a jornalista Roberta Braga me pediu uma entrevista para a revista Ler & Cia (Edição 33, julho e agosto de 2010), do grupo Livrarias Curitiba e Catarinense. Na correria de sempre, arranjei um tempo para providenciar algumas respostas que trouxessem uma avaliação global da obra do escritor.
De tudo o que falei, apenas duas frases foram usadas na matéria assinada por Melina Pockrandt (intitulada "Escritor português deixa importante herança literária", p.21-23). Esta é uma prática cada vez mais comum em nosso jornalismo. Em outra experiência, o jornalista de um grande veículo me ouviu sobre um assunto polêmico, dizendo que sairia uma grande matéria para esclarecer a questão, e o artigo que saiu, assinado por outra pessoa, não citava minhas análises, e aproveitava para reforçar acusações. Enfim, tudo isso é apenas jornalismo.
Voltando à literatura, naquela entrevista desperdiçada, tentei pensar em poucas palavras a importância do Saramago. Aí vai, um tanto atrasado, o que tinha a dizer sobre ele:


Qual a maior contribuição de Saramago para a literatura em língua portuguesa?

Saramago deu visibilidade internacional para a nossa literatura, fortalecendo alguns de seus principais repertórios. Ele não apenas escreveu livros com um valor de leitura universal, como universalizou situações e autores da cultura da língua portuguesa. Há, por exemplo, um novo Fernando Pessoa depois de Saramago, lido agora fora da sua obra, por meio da ficção criada em O ano da morte de Ricardo Reis. Do ponto de vista estilístico, Saramago estabilizou uma maneira de narrar que tem uma base barroca, de valorização do detalhe, traduzindo isso para uma linguagem narrativa moderna, que investe em inovações. Mas a principal marca que Saramago deixa é a sua capacidade de intervir nas questões do tempo presente. Foi um autor contemporâneo, no sentido mais pleno do termo. Ele não se ausentava dos debates sobre nenhuma das questões do agora. Muitos de seus livros assumiram assim um caráter alegórico. As histórias renunciam ao realismo simples para se fazerem metáforas dos tempos de hoje.

Na sua opinião, quais características fizeram com que fosse o único autor em língua portuguesa a receber o Nobel de Literatura?

Foi o seu poder de intervenção na realidade, como eu disse acima. Ele não era apenas um escritor, um homem do campo das letras, era um homem de seu tempo, com uma visão muito definida das coisas, e com uma coragem de dizer o que tinha a dizer. O Nobel não é apenas um prêmio para a grande literatura, mas também para autores que possam influenciar a história contemporânea. Além disso, Saramago tinha uma tendência para herdar experiências de outros grandes escritores. Poderíamos dizer que ele foi herdeiro narrativo de Jorge Amado (que também concorreu ao Nobel), de Fernando Pessoa, de Ernesto Sábato, etc. Não foi um escritor isolado em uma opção de arte, mas alguém que sabia traduzir o outro em sua obra. E isso lhe deu muito valor simbólico. Por fim, a sua produção vai na contramão das negações humanas em arte – ele produziu uma obra em que literatura e autor se confundem. Toda forma de linguagem para ele estava sempre a serviço do humano.

Quais são os temas mais recorrentes nas obras de Saramago?

Nunca fiz uma análise mais detalhada disso, mas a impressão que me fica das leituras de seus livros é de que o principal elemento de sua obra talvez seja o deslocamento. O deslocamento no espaço – há muitos livros que narram viagens (Desde o roteiro Viagem a Portugal até romances como o recente A viagem do elefante). Estes deslocamentos no espaço são sempre momentos de formação dos personagens. Eles deixam a terra sagrada, o espaço da acomodação, para se experimentar em outros territórios. Estaria aí, para mim, o centro de sua obra. Mas o deslocamento também pode ser de identidade ou histórico, prevalecendo sempre a idéia de seres que se movimentam, confrontando-se. Esta idéia de mobilidade é muito contemporânea e assume valor universal pela forte tendência migratória dos povos periféricos. Em A jangada de pedra é toda a Península Ibérica que se movimenta, deixando a Europa e vagando rumo à América do Sul, num sentido contrário ao movimento de retorno à Europa.

Você declarou que ele foi um escritor-ponte. O que quis dizer com isso?

É um escritor que uniu a Europa à América Latina, aproximando-se de seus principais autores, por conta de uma visão solidária de arte. Também fez a conexão entre a tradição portuguesa, de matriz barroca, que se manifesta em tantos autores, e a modernidade. Foi elo ainda entre a concepção social da arte e o investimento em recursos estéticos. Entre o estilo mais convencional da literatura portuguesa e as inovações dos demais países lusófonos, principalmente do Brasil. Tinha uma capacidade de transitar entre tempos, estilos, países, escritores.

Quais obras de Saramago você destaca? Por quê?

Do ponto de vista da leitura, o melhor livro de Saramago é O ano da morte de Ricardo Reis. Trata-se de um livro com uma escrita mais à vontade, em que prevalece uma tensão narrativa mais acentuada. Como alegoria, os dois grandes livros são O ensaio sobre a cegueira e Todos os nomes, obras que tentam metaforizar o apagamento do mundo e a luta do indivíduo para continuar existindo como uma narrativa. Gosto também de A história do Cerco de Lisboa, pela lição de escrita que ele traz. O narrador resolve interferir no passado, recriando-o. É este o papel da literatura, explorar os possíveis que não se realizaram. Também valorizo muito os Cadernos de Lanzarote, que mostram o escritor já famoso dando respostas a questões do cotidiano e do fazer literário. Estes diários são de suma importância para conhecer o impacto do mundo sobre o artista.

AMOR SE ESCREVE COM Z

As letras têm uma individualidade muito grande para as crianças. Meu filho, aos 3 anos, se identifica com qualquer palavra que traga a letra A, que, para ele, contém integralmente o seu nome: Antônio.
Para escrever o seu nome, ele grafa apenas esta letra.
Este fascínio fez com que o alfabeto fosse sempre um grande tema da literatura infantil - tema agora ampliado com A paixão de A e Z, de Alonso Alvarez (Editora Peirópolis, 2010), volume belamente ilustrado por Marcelo Cipis.
O livro, que tem como subtítulo “Uma história de amor no alfabeto”, apresenta uma busca. O A se apaixona pelo Z, mas eles ocupam posições extremas no alfabeto.
Como eles podem inscrever-se como casal?
O livro é divertido, instrutivo, permitindo um contato com o código escrito, mas é antes de tudo comovente.
Para aproximar estas duas letras que inusualmente se encontram na língua portuguesa, é preciso reorganizar o alfabeto, movê-lo para formar palavras, para formar novas palavras.
Não é isso a essência da própria paixão?

Quem quiser comprar o livro e recebê-lo autografado é só acessar:
http://www.ficcoes.com.br/livros/apaixaodeaez.html

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A POESIA ESTÁ VIVA

A morte de José Paulo Paes põe um ponto final em uma obra que permanecia sempre aberta para as alterações históricas. Esta disposição para a mudança, num escritor que nunca deixou que estilos coletivos se sobrepusessem à sua voz, embora nunca tenha também deixado de responder às solicitações de seu tempo, fez dele um poeta-ponte dentro da literatura brasileira. Evitando a convicção cega, soube sempre inocular nos discursos poéticos em voga um grão de ironia, buscando uma posição que, ao mesmo tempo que descentralizava as discussões, trazia à tona aspectos desvalorizados. Por conta desta característica, a história de sua poesia se confunde com o itinerário poético desta segunda metade do século.
Estreando no segundo pós-guerra, num período em que se fazia a crítica aos cacoetes modernistas, e estreando em Curitiba, um centro periférico, o seu primeiro livro (O aluno, 1947), trabalhava com elementos do que ficou conhecido como Geração de 45: o respeito aos mestres intemporais da poesia, uma apresentação formal mais sisuda, um retorno aos temas universais. Inconscientemente, no entanto, a própria atitude de se proclamar discípulo cria uma dissonância irônica que aponta para a atitude subserviente de toda uma geração.
Ainda dentro do espírito lírico do período, José Paulo escreve Cúmplices (1951), pequena coletânea de textos amorosos, dedicados à sua musa até o fim da vida: a bailarina Dora. Estes cantos esponsais guardam, no entanto, uma frescura e versos quase em prosa que contrariam o discurso poético artificial praticado na época: “Meu amor é simples, Dora, / como a água e o pão. // Como o céu refletido / nas pupilas de um cão”.
Depois do chamado dos mestres e do da amada, o poeta atende às solicitações da realidade nacional. Em 1954, com Novas cartas chilenas, ele escreve uma poesia participativa, com um olhar engajado (militava na esquerda) que percorre criticamente a formação do Brasil. Neste momento, ele não está apenas rompendo com o discurso poético dentro do qual estreou, como também abrindo-se para a tradição crítica implantada pelo Modernismo. Neste livro, o poeta passa a limpo a história do Brasil, exibindo um viés irônico que funciona como dispositivo de deslocamento da história.
Da súmula histórica do Brasil, ele parte para uma incorporação dos tensões do presente em Epigramas (1958), livro no qual se consolida a sua verve satírica. Assim, em “Bucólica”, poema que anuncia, pelo título, uma idéia edulcorada do campo, faz arte participativa: “o camponês sem terra / detém a charrua / e pensa nas colheitas / que nunca serão suas”.
Mas somente em 1967, quase dez anos depois de ter publicado Epigramas, José Paulo Paes vai intensificar o uso da síntese - presente, mas de forma marginal, nos livros anteriores. Com Anatomias, ele abdica da poesia essencialmente discursiva, absorvendo as propostas concretistas. É preciso lembrar aqui que ele só se interessa pelo concretismo no estágio participativo desta corrente, ou seja, quando os poetas paulistas buscam refletir as tensões sociais do momento. Nesta corrente, Paes encontrou um elemento propulsor para uma potencialidade poética que estava um tanto presa ao verso tradicional. Assim, podem ser creditadas tanto à ditadura quanto à redefinição do concretismo as propostas de José Paulo Paes que ficam reunidas em volumes publicados entre fins da década de 60 e fins da de 80. Nestes 20 anos, o autor vai ganhar renome nacional, passando sua poesia a ter como marcas registradas a síntese e a ironia. São cinco os livros deste período: Anatomias (1967) Meia palavra (1973), Resíduo (1980), Calendário perplexo (1983) e A poesia está morta mas juro que não fui eu (1988).
Valendo-se dos novos instrumentos concretistas (o uso das imagens, o poema composto como gráfico, a valorização da palavra em detrimento do verso etc.), José Paulo Paes consegue a proeza de não se deixar ficar passivamente na condição de discípulo. Muito pelo contrário, ele produz os mais bem realizados exemplos de poema concreto engajado, como o “Epitáfio para um banqueiro”, em que todo o mundo capitalista vai sendo decomposto a partir da palavra negócio que, como uma cebola depois de descascada, revela-se totalmente vazia:

negócio
ego
ócio
cio
0

Não podemos, no entanto, definir Paes como um concretista. Paralelamente a estes poemas, ele produziu outros, discursivos, o que revela que o autor continua preferindo ficar no entre-dois, sem assumir nenhuma postura mais extrema. A poesia está morta mas juro que não fui eu é o momento terminal de toda esta linha mais experimental de sua poesia. Aqui, ele usa a ironia contra si mesmo. No poema que abre o livro, “Acima de qualquer suspeita”, chega a duvidar da existência do poeta José Paulo Paes, em função tanto da morte da poesia (projeto de inúmeras vanguardas) quanto da consciência do fim de um tempo. Devemos lembrar que o término da ditadura, que havia impulsionado a sua produção, e o desgaste da proposta de modernidade reatualizada pelos concretistas colocavam o poeta diante de uma encruzilhada. Tanto é que este livro vai reunir os seus cáusticos epigramas, mas vai também privilegiar vários poemas de fundo autobiográfico, agrupados na seção “Geográfica pessoal”.
É esta tendência que vai se consolidar em Prosas seguidas de odes mínimas (Cia. das Letras, 1992), volume em que o poeta deixa de lado a dicção mais imediatista que marcara sua produção, iniciando novo vôo. Neste estágio, depois de um acidente que lhe rouba a perna esquerda, o poeta passa a viver mais preso à casa, o que gerou uma viagem intimista expressa em textos sobre a memória. Ele reencontra-se com a arte atemporal, escrevendo excelentes peças sobre entes queridos e objetos do dia-a-dia, num discurso compassado e extremamente comovedor.
A este retorno mítico ao passado, segue-se a publicação de dois livros com poemas antigos, recusados em outras fases de sua vida - o que não deixa de ser a própria materialização da memória: A meu esmo (Noa Noa, 1995) e De ontem para hoje (Boitempo: 1996). Deste mergulho no tempo também surgiu a sua belíssima autobiografia (Quem, eu? Atual, 1996). Nesta fase madura, José Paulo Paes fez parte do movimento de restauração do poético, servindo como farol para a geração dos anos 90, que tenta rever a concepção de literatura.

Gazeta do Povo, 17 de outubro de 1998.

O POETA QUER PROSA

A poesia nacional vem nos dando livros falhos. Poetas consagrados pouco têm contribuído para o enriquecimento de sua obra em particular e muito menos da literatura brasileira. As intenções geralmente são boas, mas os poemas não ultrapassam a qualidade mediana. Felizmente, sempre existem as exceções. E a coletânea Prosas seguidas de Odes mínimas (Cia. das Letras, 1992), de José Paulo Paes, é uma delas. O que pode parecer modéstia neste título revela uma consciência madura da tarefa jamais gritante e espalhafatosa de lidar com as palavras.
Com uma unidade rara nas produções do gênero, o volume é aberto pelo poema “Escolha de túmulo”, que nos remete à fase terminal da vida. No entanto, as imagens que o compõem (“cavalos com cascos matinais”, “casa, pomar e galo”, “nova infância”) lembram que o fim é o começo. Este túmulo escolhido pelo poeta, onde um vôo termina e outro se inicia, pode ser lido como chave de todo livro, que vai se estruturar no resgate lírico do passado e em elementos biográficos mais recentes.
Trata-se, pois, de uma coletânea que, apesar de sintética (tem 84 páginas), abarca – privilegiando momentos e pessoas – as experiências de uma vida, falando da infância e da madureza. Em “Canção adolescente”, um auto-retrato, há a reiteração do mote do livro: a junção de passado e presente. O poeta diz ter um corpo híbrido, onde convivem partes da criança e do homem. O que faz deste um “lúcido menino”, capaz de resgatar o passado por meio de uma visada retrospectiva.
Esta hibridez pode ser encontrada num nível estrutural, o que nos revela a unidade conseguida pelo poeta. Em “Prosas” (primeira parte do livro), há uma preocupação, quase exclusiva, com o tempo perdido. Nela aparecem as figuras familiares, um encontro com Oswald de Andrade, um sonho com Osman Lins, etc. São os pontos de referência do passado. Estes primeiros poemas, intitulados “prosas” por guardarem parentesco com a crônica, comungando do mesmo estado de espírito que caracteriza o Boitempo (1968), de Carlos Drummond de Andrade. A proximidade entre o livro de Paes e este de Drummond se dá por ambos elegerem certa progressão cronológica para estruturar coletâneas poéticas que podem ser lidas como biografias. Mas a síntese e a escolha dos momentos-chaves definem a maior poeticidade das prosas de José Paulo Paes.
Esta progressão temporal, própria dos poemas da primeira parte, desemboca nas “Odes mínimas”, centradas no presente. Aqui, o poeta vai cantar (lembrando que o conceito tradicional de ode remete à música) o ser de agora, e não o que foi. É o mundo contemporâneo que lhe interessa. Trata-se de uma espécie de aprendizagem da condição de sobrevivente. As odes celebram seus objetos pessoais, companheiros desta nova etapa (a bengala, os óculos, a tinta de escrever, a televisão), e põem em nossa boca um travo amargo, mas de uma amargura serena.
Característico desta fase é o acidente biográfico da perda de sua perna esquerda, que se tornou, depois da alquimia poética, num dos mais belos poemas da moderna poesia brasileira. Paes fala da separação da perna que, sozinha, vai percorrer os insondáveis caminhos da eternidade. Esta separação foi expressa resignadamente de forma gráfica:

esquerda direita
esquerda direita
direita
direita

Nenhuma perna
é eterna

O movimento da marcha militar, caracterizado por um ritmo binário, comunica continuidade, mas a falta de uma palavra cria na estrofe em forma de gráfico uma súbita ausência, rompendo a marcha e revelando o novo estado do poeta. A segunda estrofe, com um cruel estoicismo, explicita o que ficou representado por uma vacância na primeira.
Neste poema, que pode funcionar como espinha dorsal do livro, a parte perdida no mundo será alcançada em outro Lugar ou nos campos do Nada (as maiúsculas são do poeta). Tudo daquilo do qual o poeta se sente afastado retornará, neste espaço-tempo utópico, como unidade.
É justamente aí que reside o sentido geral do livro, que começa com uma referência ao túmulo, acabando com a ode “A um recém-nascido”. O fim está no começo e começo está no fim. É a partir da imagem da morte que Paes resgata liricamente o passado. E é no momento em que sente a proximidade do fim que canta o nascimento. Aqui cabe outra comparação. O livro tem um movimento parecido com o de Morte e vida severina (1955), de João Cabral de Melo Neto. Mas a diferença é muito grande. Em Paes há um eu lírico vinculado ao poeta que faz o percurso simbólico do tema da morte para o da vida, e, ao mesmo tempo, e contraditoriamente, do passado para o presente. O fim deste percurso é um futuro informe. Creio que é o movimento nascimento-morte-nascimento, que se enquadra dentro de uma perspectiva cristã, embora com uma semente de niilismo, que fundamenta a serenidade destes poemas com alta carga dramática.
Gazeta do Povo, 28 de abril de 1994.

NO PAÍS DE JOSÉ PAULO PAES

A voz era grossa e compassada. Movia-se com calma, ultimamente ajudado por uma bengala, como um grande animal mítico nos campos sagrados do Senhor.
Para nos receber em seu escritório, que ficava no fundo do quintal, fazia-nos cruzar a cozinha. Isso dava à visita, principalmente a quem conhecia a carga simbólica da cozinha nos hábitos da província, a certeza de ter franqueado o coração da casa.
Um ou outro gato, acolhido por Dora, a diligente companheira, se espreguiçava no pequeno jardim protegido por altos muros. Longe, na avenida, movimentavam-se as águas do trânsito em seu burburinho contínuo.
No escritório, móveis e livros, tudo transpirava uma tranqüilidade do sem tempo. A conversa nunca era exaltada, nem havia farpas vibrando no ar. Com sua voz franca, o poeta iluminava a tarde.
Depois, quando nos conduzia de volta ao portão, nós nos víamos órfãos na grande avenida barulhenta – como se, expulsos do tempo sem margens, caíssemos numa prosaica realidade.

ENTRE A CASA E A BIBLIOTECA

Convivi com o poeta e crítico José Paulo Paes (1926-1998) nos seus quatro últimos anos de vida, quando eu preparava um ensaio sobre a geração da Revista Joaquim (1946-48) e o visitava em São Paulo.
Foi uma influência importante em um período de grandes definições para mim.
Começo aqui uma homenagem ao escritor, publicando alguns dos textos que escrevi sobre ele.
O primeiro é um poema em prosa, abertura do meu livro Venho de um país obscuro na edição de 2000 - na reedição (2005), o volume sofreu várias modificações e o poema foi transferido para o próximo título, no qual estou ainda trabalhando.
Esta foto, de Antonio Milena (para a revista Veja), tem como cenário o quintal do poeta, uma pequena área que separava a sua casa e a sua biblioteca. É neste o ambiente que trasncorre o poema "No país de José Paulo Paes".

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A BUSCA DO NOME

Anti-romance
Leitura leve e onírica, Satori em Paris (1966), de Jack Kerouac (trad. Lúcia Brito - L&PM, 2010), é o relato de uma viagem de poucos dias a Paris e à Bretanha.
Apresentado como romance, este livrinho é na verdade um anti-romance, pois não existe tensão narrativa e o autor aparece como personagem, confundindo gêneros e papéis.
A história toda é o périplo francês em busca das origens de seu nome – Jean-Louis Lebris de Kerouc. O escritor quer encontrar-se com os seus antepassados, num desejo de fortalecer o conhecimento sobre si próprio. A viagem tem, por isso, um caráter religioso. De religação a um passado com ramificações profundas.

Origem
Embora vague por bibliotecas e arquivos, e converse com pessoas, a sua busca é de natureza etílica. Ele bebe o tempo todo, perdendo-se entre parisienses e bretões, numa inconsciência epifânica.
A iluminação acontece, mas ele não sabe direito como nem quando ela se deu. Do ponto de vista prático, sua viagem se frustra – ele até mantém um contato ligeiro com um possível primo – dos Lebris –, mas não traz nenhuma informação mais robusta sobre a sua árvore genealógica.
O satori se dá de forma invertida. É na viagem de volta, na coincidência de pegar o mesmo taxista a caminho do aeroporto, que ele percebe que o seu lugar não é no passado nobre da Bretanha, mas na vida ordinária da Flórida, onde vive com a mãe e a mulher, depois de dois séculos de afastamento do solo europeu, com passagens de seus ascendentes pelo Canadá. A origem não está no início, mas no destino final.

Voltar
O melhor do livro são as frases inteligentes, como esta: “Onde mais a não ser em um livro você pode voltar atrás e pegar o que perdeu?” (p.95). Na vida, isso não é possível. Temos que seguir adiante. Talvez por isso nos dediquemos tantos aos livros, por eles nos permitirem este retroagir.

ABERTURA

Este blog, que leva o título de um de meus livros, será dedicado aos meus artigos de crítica. Aqui, publicarei também comentários de leituras e irei retomando textos editados em jornais e revistas em outros períodos.
Vale ainda um velho aforismo meu:
"Minha biblioteca nasceu ao sabor de minhas leituras e tem o tamanho de minha ignorância".