sábado, 28 de agosto de 2010

O VALOR DO DIA

Há um fascínio na forma como Adélia Prado (1935) manifesta o incômodo de pertencer a um corpo e a uma alma que a solicitam permanentemente. É deste confronto que vem a sua poesia, tentativa de unir aquilo que se encontra em planos distintos, com temporalidades excludentes. A poesia então seria a abertura de fendas mínimas entre eles. O vazamento de um no outro.
O seu misticismo, com toda uma sintaxe católica, se conjuga com um erotismo que poderíamos chamar de escatológico. O corpo se faz fezes, mas é dele, de sua falência, que vem um gozo carnal e místico. Não é apenas erótico porque o corpo neste estado de humilhação cristã não corresponde a uma idealização da beleza onde se traduzem os desejos mais fáceis. É um corpo ferido, cristianizado, em chagas, envelhecido mesmo quando jovem. Mas é um corpo sempre pulsante. É nesta concepção ambígua da carnalidade, fora de uma padrão de beleza, que o catolicismo da poeta se manifesta com intensidade literária, fora da linguagem meramente religiosa.
Deste habitar-se duplamente nasce a grandeza de Adélia Prado, que a cada novo (e espaçado) volume de poesia vai dilatando este estranhamento salvífico. No recente A duração do dia (Record, 2010), ela segue afinando a sua voz, que vem se fazendo maior do que os poemas.
O que quero dizer com isso?
Lemos seus livros não mais para buscar os textos individualizados, que nos nocautearia, mas para ouvir a voz dilacerada entre dois mundos.
A voz vale mais do que os textos em si.
Assim, percorremos a via crúcis desta poesia como se não houvessem paradas, numa leitura contínua. Quem já ouviu a poeta falando os seus poemas ao vivo, reconhece-se nesta voz aliciante, que nos conduz por um drama humano que é de todos, mas que Adélia intensifica para colocá-lo no centro de uma era materialista.
Neste volume, vamos encontrar a eterna voz de Adélia. Sua preferência pelos loucos, pelos humildes, pelas mulheres e pelas crianças, a valorização de um cotidiano social que guarde pequenas iluminações místicas, a linguagem bíblica, a volta ao seu tempo de menina...
Há alguns momentos que são clichês, mas clichês com intensidade, e que funcionam nesta linguagem que não quer destoar da de seu universo social. Mas não é isso que tira a individualidade de seus poemas, embora contribua para tal processo, e sim uma gramática de diário que ela usa para escrever poesia. O próprio título indica o valor do dia. É mais um diário em versos do que conjunto de poemas bem estruturados.
Três poemas guardam o poder de se destacar do fluxo de anotações.
“Alvará de demolição”, uma verdadeira poética:

O que precisa nascer
tem sua raiz em chão de casa velha.
À sua necessidade o piso cede,
estalam rachaduras nas paredes,
os caixões de janela se desprendem.
O que precisa nascer
aparece no sonho buscando frinchas no teto,
réstias de luz e ar.
Sei muito bem do que este sonho fala
e a quem pode me dar
peço coragem.

É a defesa de uma poesia com densidade humana, que vincule este eu a outros tempos, a outras experiências, em que os espaços distantes se reúnem. Isto que é transformado em um ideal, surge como enredo em outro poema, “Tenda e cimitarra”, em que a ex-menina se lembra de um amor por um turco maravilhoso, mais velho do que ela, num momento de desejo que a deslumbrou na infância, e que agora, com a velhice, diante da visita pela memória deste homem do passado, promove uma inversão – a velha é ela. Há um encontro/desencontro de tempos.
Há ainda “Aproveitamento da matéria”, poema sobre a matéria humana, que não é apenas barrosa, mas menos nobre ainda, neste reconhecimento da humilhação de ser. O poema conclui com versos fortes, ecoando Santo Agostinho:

Vim de um oco sangrento,
é entre fezes e urina
que nasci.

Nestes momentos, a voz de Adélia Prado se intensifica e se faz poema. Em outros, é uma voz de diário, que em uma ou outra anotação deixa reluzir versos avulsos muito intensos.
Estas duas faces de sua poesia não revelam uma essencialidade poética contra uma superficialidade da crônica, mas faz parte da construção de uma poesia que se alimenta deste material reaproveitado da vida e de suas ninharias. Em uma (a mais extensa), descansamos dos excessos e das desrazões da outra (a vertical).

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

OUTRA HISTÓRIA DE LEITURA


Ainda ontem, outro e-mail que me derrubou. É mais um texto que demonstra o processo curativo que a literatura desencadeia. Fazia muito tempo que não tinha notícia da família de Jamil Snege. Este escritor foi uma das minhas grandes influências literárias. Éramos ácidos um com o outro. Nossa amizade sempre foi feroz. Mas nos últimos anos da vida dele, não passamos um dia sem um telefonema. Aos domingos, fazíamos em família visitas a restaurantes rústicos na periferia de Curitiba.
Escrevi a orelha de livros dele, organizei dois deles e eu talvez tenha sido a única pessoa que leu os fragmentos de O grande mar redondo, o romance que ele deixou inconcluso.
Com a morte dele e minha mudança para Ponta Grossa, perdi-me da família.
Soube por alguns amigos que o filho Jean-Marcel Snege, apenas um menino uma década atrás, estava seguindo o caminho da literatura.
Ao receber ontem o e-mail dele, fiquei cabrito [essa era uma palavra que o Jamil sempre usava]. Fui tão massacrado pelo último romance (no qual, segundo a opinião de tanta gente, eu não perdôo nenhum de meus amigos) que achei que sofreria mais agressões. Daí recebo as palavras de compreensão de Jean, que me agradece por devolvido imagens do pai dele, coisas que ele viveu e que a minha ficção agora o ajudou a entender.

Caro Miguel:

Acabo de ler Chá das cinco com o vampiro.
Apesar de repudiar as polêmicas e a dificuldade que alguns encontraram em aceitá-la como obra de ficção, devo admitir que embarquei na leitura como testemunha, buscando detalhes desses anos que vivi sem entender direito o que se passava.
Desde que perdemos o Jamil, estive afastado dessas conversas e desse pequeno mundo. Pra mim, inclusive, é bastante complicado lembrar do Jamil, de como ele era, de nossas conversas, de qualquer coisa.
Talvez eu tenha aceitado um luto amnésico, onde borrei essas lembranças. Tenho seus livros em meu criado-mudo, mas meu pai não é aquele Jamil do Como eu se fiz por si mesmo. Para a minha surpresa, ao ler o Chá das cinco, revivi diversas situações que trouxeram cor às recordações fugidias.
Enfim, gostaria de agradecer pelo livro. Diverti-me com a acidez do Beto e com toda essa pequena vingança.
Gosto muito dos seus livros. Li recentemente A Primeira mulher e acabei encontrando na universidade um exemplar de Impurezas Amorosas, livro que não conhecia.
Tenho ido muito a Ponta Grossa [...]. Quem sabe poderemos almoçar algum dia. Deixo um grande abraço para a Juliana, Camila e para o pequeno Antônio, que ainda não conheço, mas que acompanho através de suas crônicas na Gazeta.
Um grande abraço,
Jean

Minha gratidão a Jean, que conheci menino, acompanhei suas leituras, dividindo algumas conversas. O amor que o velho Turco tinha por ele era uma coisa sem tamanho. Parava tudo para dar atenção ao filho que nasceu quando ele já estava mais maduro. Agora, quando também tive um filho na meia idade, sei da força desta paternidade tardia. Lembro-me do Jamil lendo os mesmos livros que Jean tinha que ler para os trabalhos escolares, construindo assim uma referência literária comum. Era o pai hiperletrado herdando as leituras juvenis do filho.
Esta carta-história complementa a anterior e, juntas, dão um sentido vital para a literatura.

UMA HISTÓRIA DE LEITURA

Recebi ontem o e-mail abaixo de Moisés Fornazari - um desses leitores especiais que a literatura dá a todo escritor. Tenho sorte de ter leitores assim, como o Moisés. A carta que recebi dele vale por muitas teses sobre leitura. Ignoremos o que ele fala sobre meu mais recente romance. Vejam o processo de herança no sentido inverso - é o pai que herda as leituras do filho:

Oi Miguel,
Parabéns pelo
Chá das cinco com o vampiro! Acabei de ler e gostei muito!
Comprei o livro na véspera do dia dos pais. Um presente para mim mesmo já que meu pai morreu em janeiro. Ele estudou até a quarta série, mas, nos seus últimos cinco anos de vida, já muito doente e acamado, leu ao menos uns trezentos livros da minha biblioteca, entre eles
Chove sobre minha infância, Hóspede Secreto e Primeiros Contos, além de vários outros do Dalton Trevisan. Nada mais justo do que comprar o Chá das Cinco com o Vampiro no meu primeiro dia dos pais como órfão.
Fui a uma livraria do Shopping Curitiba e pedi a um atendente o livro. No mesmo instante ouço atrás de mim a seguinte frase: "Se tiver um só vamos ter que disputar no braço!" Era um rapaz franzino, com cabelos lambidos para trás, usando calças jeans e um suéter bege. Tinha feito o mesmo pedido ao atendente. Educadamente disse que o livro era dele. Ele, por sua vez, disse que o livro era meu. O mais engraçado é que o atendente não conseguia encontrar o único exemplar da loja.
Cansado de esperar, o rapaz que queria disputar o livro no braço sumiu. Eu fiquei namorando o livro
50 Contos de Machado de Assis. Alguns minutos depois o atendente aparece com o livro. Digo a ele para procurar o rapaz e oferecer o livro. O rapaz recusa e diz que já havia escolhido outro título. Saio da loja contente, com o presente que meu pai nunca lerá.
Um abraço,
Moisés


Não há como não se comover com uma história dessas. Pai e filho, nenhum dos dois é da área da literatura, unidos por uma biblioteca. O pai quase não estudou. O filho se formou na área biológica. E o maior elo entre eles é a literatura, espaço das convivências intensas.
Comove-me ainda a atitude de Moisés de buscar um livro meu que fosse um encontro com o pai, agora morto, às vésperas do dia dos pais. Se um livro serve para esta atitude tão nobre, ela se justifica de maneira assutadoramente reconfortante.
Se meu livro é cruel como dizem por aí, ele tem ao menos o poder de soldar pessoas. E noto que o pai do Moisés gostava também dos livros de Dalton Trevisan.
Este pequeno escritor fica assim pacificado consigo próprio. Que a biblioteca de Moisés cresça, que continue unindo pessoas.

PS. Meu pai era analfabeto e eu gostaria de ter podido ensiná-lo a ler.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O MELHOR REVÓLVER PARA MATAR AMANTE

Reunindo contos de Anton Tchékov (1860-1904) publicados em jornal entre 1882 e 1887, Um negócio fracassado e outros contos de humor (L&PM, 2010 – trad. Maria Aparecida Botelho Pereira Soares) serve como uma viagem estilística e temática aos anos de formação deste inventor da narrativa curta moderna. É um Tchékov ainda anterior ao autor de contos inconclusivos, em que tudo está antes sugerido do que dito. Por isso mesmo é um livro importante, por nos mostrar de que base narrativa saiu o escritor.
Nestas pequenas histórias (ao todo são 38) que tendem para a crônica, Tchékov quer divertir o leitor. Esta é uma função literária tão nobre como qualquer outra, e tem uma adequação perfeita ao meio jornalístico. Naqueles anos iniciais, recém-formado na Faculdade Medicina, o jovem contista paga as suas contas entretendo os leitores com casos saborosos. E esta é outra função nobre do texto literário – pagar as contas dos escritores.
A estrutura é sempre a mesma. O conto começa com um fato que aponta para algo intenso, para um grande sentimento, uma elevação qualquer, e logo se revelam as reais intenções de personagens que nada têm de heróicos. São contos da imposição de uma vida banal, de um pragmatismo que cria efeitos irônicos, reduzindo todos os personagens a uma estatura mínima. Os acontecimentos surgem num crescendo dramático para se resolver como comédia. Há um efeito sanfona nestas narrativas, de enchimento e esvaziamento dramático.
Se a fórmula anedótica prevalece, diminuindo a estatura das narrativas, há uma análise primorosa da sociedade russa, com a corrupção dos funcionários públicos, os interesses pessoais se sobrepondo a toda forma de idealismo, uma tendência para a mesquinharia e outros sentimentos pouco louváveis. Porque o conto de humor é antes de tudo um conto crítico, que zomba das pretensões altruísticas de figuras interessadas apenas no próprio bem-estar.
Uma visão crítica domina todas as narrativas – a da comercialização das atitudes. As famílias vinculadas ao comércio são tidas como desprezíveis, mas tudo, principalmente o funcionalismo público, se rende a este espírito de vendilhão. Neste universo onde prepondera a busca do lucro, as atitudes mais elevadas caem por terra. São máscaras. E por isso produzem o riso.
Para produzir este efeito, as narrativas trabalham com uma estrutura fechada. O final tem grande importância para a economia deste tipo de texto. Em um ou outro momento, no entanto, surgem aberturas que apontam para o estilo maduro de Tchékov, que já estava se colocando a caminho. Isso é bem visível em “O marido”, publicado em 09 de agosto de 1886. Depois de retirar a mulher feiosa de um baile em homenagem a um regimento que visita a cidade, momento em que ela se experimenta bela e desejável, o marido conduz a esposa de volta para a vidinha de sempre. Ela então ouve ao longe aquela alegria sonora: “Enquanto isso, a música retumbava, e as trevas estalavam povoadas dos sons mais convidativos à dança” (p.167). Não há um desfecho humorístico para a situação. O fim traz um drama destas vidas apagadas da província, que vão se distanciando mesmo das menores distrações. É um conto doído.
Mas a força desta coletânea está no poder um tanto rude do riso, que se manifesta a cada duas ou três páginas. O conto mais intensamente engraçado é o último, “O vingador”. Nele, um marido vai à loja de armas para comprar um revólver com o projeto de matar a mulher, o amante dela e depois cometer o suicídio. O vendedor lamenta o fato de os homens acharem normal a traição, não matando as esposas. Falando do Smith & Wesson, o revólver da moda, ele diz:
“Diariamente vendemos um dezena deles, para atirar em bandidos, lobos e amantes. Tem um tiro muito forte e certeiro, alcança uma grande distância e mata com um só tiro a esposa e o amante. Quanto a suicídios, monsieur, não conheço sistema melhor” (p.201).
Falar tão abertamente destas finalidades da arma acaba tendo um papel catártico. O comprador desiste do crime e, para não sair de mãos abanando, leva uma rede de caçar codornas.
Se há muito humor nestes contos, há também sutilezas. Na medida em que estas vão se intensificando, Tchékov deixa de ser o jovem que quer divertir o leitor para se fazer o grande escritor que nos ensina a olhar mais para os dramas do que para as farsas.

sábado, 7 de agosto de 2010

MINHA CLARICE

Embora o livro de Clarice Lispector que eu tenha lido um maior número de vezes seja A paixão segundo GH, sofri mais o impacto de seus contos.
A minha Clarice, portanto, é a contista.
Por trazerem uma concentração de emoções e de linguagem, seus contos se tornaram uma referência para mim. A dispersão de seus romances tem um efeito literário e filosófico extremamente interessante, cifrando uma modernidade narrativa. Reconheço e admiro tal efeito, mas ele está distante de minha sensibilidade de escritor. Já seus contos, estes criam uma tensão existencial que me leva a sofrer com a condição órfã do indivíduo sensível.
Talvez esta seja a grande marca dos personagens de Clarice: eles não têm proteção diante do mundo. Qualquer pequeno acontecimento mais áspero cria uma instabilidade brutal, exigindo que se reconstrua uma segurança mínima contra o sem-sentido da vida. Seus contos operam isso em uma estrutura bem-amarrada, dando-nos um sentimento de plenitude mesmo diante do vazio.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

CARREGAR LIVROS


Carregado com sacolas de livros
ultrapassando a hora do almoço
um alimento qualquer nos olhos
caminho pelo Passeio do Prado
Havana tão destruída e tão íntegra
corrompida como qualquer cidade
vendedores oferecendo charutos
a preços baixos falsificados
o turista sempre o grande otário
mesmo no ventre revolucionário
desço pelo Passeio do Prado
dois guardas anotam os nomes
de algumas prostitutas meninas
que eu amaria doidamente
não com a lâmina cega do desejo
que quanto mais se refrega
menos nos deixa satisfeito
eu amaria aquelas meninas
negras as barrigas só estrias
como um pai incestuoso
os policiais tomam notas
num caderno tão corroído
como os prédios de Havana
e os jovens a caminho de casa
são muitas nuvens perfumadas
e estão ali mais em conversa
do que em uma batida
esses policiais essas meninas
meninas me dêem seus corpos
quero me afundar entre seios
o mundo também pode ser seda
negra e tão esgarçada seda
para quem está sempre sedento
e parando num bar eu peço
água com gás e café amargo
e ali leio textos do poeta
que estou indo agora visitar
me preparando pro encontro
o ex-jovem e o veterano
conversarão em que idioma?
eis o seu velho endereço
Calle Trocadero, 162, bajos
um guarda me indica o rumo
os livros que levo pesam muito
e me movo entre escombros
prédios que se esboroam
e o tempo em sua juventude
tenta reinventar um sonho
ando pela Calle Trocadero
desviando de jovens na calçada
um pedreiro peneira a areia
tão amarela quantas as casas
e o acúmulo desta matéria
imita no chão uma ampulheta
passo pelo pedreiro e chego
àquele que é agora o centro
da Havana íntegra no tempo
a casa térrea do poeta imenso
num edifício de três pisos
sob as pobres moradias
onde o vento enche saias
estendidas numa das sacadas
embandeirando as peças íntimas
forço a porta na intimidade
de quem admira a sua obra
somos alguém de casa agora
mesmo nunca tendo estado ali
empurro a porta que não se abre
o poeta não pôde me esperar
e não sei o que fazer comigo
homem magro carregando livros
nesse idioma estrangeiro
como sempre é a grande poesia
para onde eu me enviarei?
terei que ir para que tempo?
sigo até o meio da outra quadra
volto e forço uma das janelas
não se deixa um leitor pra fora
o homem sentado na sala
é o vigia guardando o nada
explico que busco o poeta
não pode entrar ele decreta
o poeta me espera insisto
um poeta sempre espera
eu não estou então mentindo
deixe-me ver ele responde
com as palavras de seu idioma
e sai lento pelo ventre vazio
e quando enfim retorna diz
a casa foi fechada para visita
volte no próximo século
ele fala como quem brinca
então apelo que sou do Brasil
gosto das novelas brasileiras
ele comenta e me envergonho
de que sejamos apenas amados
pelo que temos de mais fácil
e digo logo adeus e me afasto
mas antes olho aquela fachada
tingida de um amarelo-merda
saiba que vim meu caro
a porta estava cerrada
pois reformam a velha casa
em seu primeiro centenário
para o qual não poderei ficar
sigo para o Passeio do Prado
onde você passeou seu passado
os policiais ainda falam
com as prostitutas meninas
Havana tão corrompida
Havana assim tão íntegra
me abandono de mim mesmo
por ruas que lhe foram íntimas
poeta José Lezama Lima
e este poema quem o assina

é alguém que carrega livros.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

MAIS POETAS


Assim como Amuleto (1999), ramo narrativo ampliado a partir de uma cena de Os detetives selvagens (1998), o quinto romance de Bolaño, originalmente publicado em 1996, Estrela distante (Cia. das Letras, 2009, trad. Bernardo Ajzenberg) foi desentranhado de um de seus mais conhecidos livros – A literatura nazi na América (1996), um dicionário de escritores que pactuaram com a direita. Em Estrela distante, a figura do poeta continua central. Agora, o personagem catalisador da história é um pretenso autor de vanguarda que encarna os horrores da ditadura chilena. Também reaparecem as estratégias narrativas que notabilizaram Bolãno. Há um momento de concentração de trajetórias seguido de uma dispersão e da urgência de entender aquele passado, movimento próprio das recentes diásporas latino-americanas.
No início, candidatos a poetas vivem no Chile, mais precisamente na cidade de Concepción, freqüentando provincianamente duas oficinas de poesia, a de Juan Stein e Diego Soto, poetas locais com formação diferente, que preparavam uma nova geração no alvorecer dos anos 70, quando o Chile se entusiasmava com o governo de Salvador Allende.
Tudo ainda é virtualidade na vida desses jovens, entre os quais se encontram o narrador, o já legendário personagem de Bolãno, seu alterego Arturo B, duas irmãs gêmeas, que são as mais queridas do grupo, e uma figura que foge ao padrão comportamental do poeta – um jovem frio, que se declara autodidata e se tem em grande conta. Este se apresenta com o nome de Alberto Ruiz-Tagle e mantém uma aura de mistério em torno de sua vida e de sua futura obra, esperada como uma revolução estética.
Revolução esta que se confundirá com a ditadura de Pinochet, espalhando a morte entre as pessoas. Neste ambiente de horror, ressurge Ruiz-Tagle, agora no papel de poeta de vanguarda e com outro nome, Carlos Wieder. É um poeta-aviador, símbolo do progresso tecnológico em arte, que escreve, tal como um novo cavaleiro do apocalipse, suas obras com fumaça – isso mesmo, com fumaça – nos céus do Chile, desenhando versos em tom bíblico. Eleva-se à altura de astro, numa “carreira que, naquela época, o tempo das exibições áreas, recebeu o respaldo de um dos mais influentes críticos literários do Chile (coisa que literariamente falando não quer dizer nada, mas que no Chile, desde os tempos de Alone, significava muito)” – p. 40. Enquanto cresce sua fama, patrocinada pelo governo e pelos juízes literários de formação católica, ele acaba se isolando, o que o leva a expor-se em sua obra mais radical – uma instalação num apartamento, depois de um show aéreo quase suicida. O evento para um pequeno grupo se resume à exposição de fotos das poetas gêmeas, que Wieder matara provavelmente a mando do governo, e de outros cadáveres. Numa metáfora forte, o poeta de direita é apresentado ao leitor como um assassino em série, e revela ali a radicalização de sua arte-ação: as imagens dos corpos mutilados. É o fim de sua carreira. Daí para frente, Wieder será uma sombra se movendo clandestinamente pelo mundo.
A ditadura dispersara aquele grupo, e Arturo acaba em Barcelona, quando recebe a visita de um famoso ex-detetive conterrâneo, também no exílio, que tenta reencontrar Wieder para um cliente, ganhando assim dinheiro para voltar ao Chile. O poeta-aviador viveria foragido com outras identidades e o investigador quer a ajuda de Arturo para rastreá-lo em publicações menores – verdadeiro trabalho para um detetive-poeta. Este encontra assim a chance de corrigir um pouco o passado tenebroso de seu país, vingando os amigos mortos ou esquecidos.
Romance sobre a contigüidade entre certa vanguarda literária e postura nazista, Estrela distante é um dos melhores romances de Bolaño, curto e denso, escrito a partir de sua percepção de poetas como mártires de equívocos estéticos e históricos.

HISTÓRIAS DE POETAS PERDIDOS


A literatura, como qualquer outra área, precisa de mártires que nos livrem das rotinas, devolvendo-nos a uma experiência de grandeza que nos fascina e nos assusta. Quando o assinalado tem uma obra de qualidade, este processo é positivo por nos colocar em contato com livros que, em outra circunstância, passariam despercebidos. O novo mártir da literatura hispano-americana se chama Roberto Bolaño (1953-2003), chileno que rodou o mundo em busca de um lugar, encontrando-o apenas na literatura vivida como aventura terminal.
Ele traz todos os requisitos para ser cultuado devotamente. Exilado desde cedo, voltou ao Chile para acabar preso pela ditadura de Pinochet, sendo logo solto por um amigo da infância que se encontrava a serviço do regime. Morando no México, liderou um movimento poético – o Infra-realismo –, mas não se firmou como autor de uma obra lírica pois a atitude poética era, naquele momento, mais importante. Neste período, a crítica aos grandes nomes da poesia, capitaneados por Octavio Paz, era confundida com a própria produção. Esta obsessão do militante literário contra os medalhões da cultura vai posteriormente marcar a obra ficcional de Bolaño, que só floresce em seu outro exílio, agora na Espanha. Depois de uma existência móvel, tendo trabalhado em todo tipo de subemprego, como acontece com os imigrantes, de lavador de prato a vigia de um camping, Bolaño é surpreendido por uma doença hepática, por uma relação amorosa estável e pela paternidade – e isso sem ter uma obra e sem poder contar com meios materiais para sobreviver. A cruzada do poeta marginal chega assim ao fim, e o chileno busca fazer de sua formação literária fonte de renda e uma forma de retardar a morte. Passa a se manter pela participação em concursos literários, um ramo bem consolidado na Espanha, até chegar o sucesso com seus romances irônicos, velozes e fragmentários. Ele foi lido como um romancista que morria de uma doença crônica. E fez da ficção uma forma de capitalizar-se, construindo um nome e um patrimônio para a família num curto espaço de tempo, produzindo e/ou publicando quase duas dezenas de livros, dentre eles alguns romanções.
A paródia do mundo literário, dos movimentos, das discussões sobre obras e autores, fictícios ou reais, e as experiências autobiográficas são os elementos de identidade da literatura de Bolaño. Ele foi um escritor borgeano por ter criado simulacros de obras e autores, mas exibiu uma vida mais próxima de seu conterrâneo Pablo Neruda. Entre esses dois modelos, surgiu uma produção que mapeia o mundo literário de uma América posta entre a resistência e a rendição. É em torno de poetas – Bolaño gostava de ser visto como poeta – que são construídas suas tramas romanescas. A sua se afirma, por isso, como uma literatura metalingüística, mas sem a aridez desse tipo de registro. Ao contrário, sobressai a fluidez, que o autor herdou do romance policial, glosado de maneira sardônica em alguns de seus títulos – mais um tributo a Borges.
Minha leitura do autor se iniciou pelo convite de uma revista para resenhar Os detetives selvagens (Cia. das Letras, 2006), segundo título do autor no país, uma narrativa genial e programaticamente desconexa, que solapa os princípios do romance policial ao contar a história de uma busca sagrada: ao longo de 20 anos, dois poetas perseguem uma mítica poeta de vanguarda no México. Este elemento aglutinador permite que o autor mostre a trajetória de uma geração de artistas que vive um momento de interesses comuns e que depois se dispersa pelo mundo nas existências errantes. A procura quixotesca da poeta que teria se recolhido a uma vida simples no deserto de Sonora é a espinha dorsal do grande painel de uma geração, no qual Bolaño mitifica o período juvenil de sua militância lírica no México.
Como romancista, Bolaño foi um grande contista. Mais do que a sensação de um estar diante de uma narrativa, descobrimos pequenos contos geniais com vida independente do conjunto. Era como uma coletânea de contos aparentados que o autor construía seus romances, que talvez pequem pelo excesso e também pela abertura exagerada.
Os detetives a que se refere o título são os poetas Ulisses Lima e Artuno Belano, que passam duas décadas à sombra da poesia pretensamente inovadora que Cesárea Tijanero teria produzido – no final, os poemas encontrados tendem para a piada, criando dúvidas. Ela poeta seria apenas um mito juvenil de vanguarda, sem nenhum valor literário, e assim Bolaño estaria fazendo uma crítica ácida a certas atitudes programáticas que se sobrepõem à poesia? Ou seria uma crença no poder da arte que, mesmo em suas manifestações mais pífias, guarda um sentido que move a humanidade?
O romance é narrado com materiais heteróclitos. Boa parte é um diário, entrecortado por pequenas narrativas que acrescentam pontos de vista dos diferentes atores, que se alongam meio aleatoriamente, compondo uma história contrapontística de um momento literário que segue a lógica da vida. Juan García Madero, o jovem que tenta recuperar pela escrita do diário aquelas experiências formadoras, recebe uma lição elucidativa: “O problema da literatura, como o da vida, dom Crispín diz, é que no fim a pessoa sempre se torna um canalha” (p.119). Assim, vão sendo revelados os descaminhos desses poetas, transformados, pela traição aos ideais, em discrepantes figuras públicas ou privadas, enquanto Ulisses e Arturo perseguem a imagem fugidia de Tijanero.
O romance todo é uma “história de poetas perdidos”, e tem uma beleza melancólica por revelar o contraste entre o desejo e a realização, e o apego a uma santíssima trindade pop: amor, juventude e morte.
Deste romance, que me encantou e me irritou, passei ao seu primeiro livro: A pista de gelo (Cia. das Letras, 2007), cujo centro dramático é um assassinato narrado em três pontos de vista. Ainda aqui prevalecem os destinos dos poetas num momento entre o passado dedicado à arte e a integração à sociedade burguesa. Eis um romance muito bem realizado, sem os excessos que marcariam a obra terminal de Bolaño. Se em Os detetives selvagens o autor se projetara em Arturo Belano, neste livro ele aparece em Gaspar Heredia, que, assim como outro e o autor, trabalha num camping na Espanha. O senso de medida dá ao livro uma tensão permanente, o que faz desta obra um momento luminoso da literatura contemporânea.
Ao renunciar a seus ideais, esses personagens do mundo literário (Remo Morán, o empregador, e Gaspar Heredia, o poeta) participam da lógica do político Enric Ronquelles. E o primeiro deles conclui, meio justificando sua condição burguesa: “no planeta dos eunucos felizes e dos zumbis, a poesia não dava mesmo camisa a ninguém” (p.113). Qualquer um deles pode ser o monstro que matou com várias facadas a patinadora do gelo, pois vivem a deformação de seus projetos.
Só depois destas leituras é que cheguei a Noturno do Chile (Cia. das Letras, 2004), outra obra referencial de Bolaño. Aqui sobressai o clima opressor do Chile da ditadura Pinochet, paralisado num momento político de trevas. Neste ambiente perverso, o padre Sebastián, narrador do livro, navega em águas calmas, convivendo com artistas e intelectuais e construindo uma carreira de crítico literário sem maiores tormentos. Ele acaba ensinando marxismo a um general Pinochet interessado em conhecer os argumentos dos inimigos. O padre o ensina com um profissionalismo meio constrangedor, sem se deixar comover pelas teses marxistas, tratando tudo aquilo como letra fria.
É sua passividade, visível até no estilo conformado de sua narração contínua, que mais revolta no livro. Nada ele faz para modificar o cenário dantesco em que se transformara o seu país. Ele quer apenas a glória literária e o conforto. Num momento, ganha uma viagem para a Europa, onde, ironicamente, vai estudar as igrejas do velho mundo e as técnicas usadas pelos padres para dar fim às pombas que estragam os templos. Os padres com quem ele convive usam o método do falcão, caçando as pombas imprevidentes. Uma metáfora para todo o Chile, que também se vale da força militar para dizimar os inimigos desprotegidos. Apenas um dos padres inverte essa lógica, recusando o método, mas isso não altera em nada a postura absenteísta de Sebastián, que continua lendo os clássicos, dedicando-se aos livros enquanto o mundo lá fora estertora. Aqui não há a passagem dos ideais para a vida canalha, os personagens são canalhas desde sempre. Esses artistas, entre eles o padre, se reúnem numa mansão para longas tertúlias literárias, enquanto nos seus porões os presos políticos são torturados. Esta duplicidade da mansão, salão de arte e calabouço a um só tempo, mostra a proximidade entre os artistas e os assassinos – e pode figurar como legenda da obra a frase de Sebastián sobre a indiferença dos intelectuais: “é assim que se faz literatura no Chile, não só no Chile, também na Argentina e no México, na Guatemala e no Uruguai, e na Espanha, na França e na Alemanha, e na verde Inglaterra, e na alegre Itália. Assim se faz literatura. Ou o que nós, para não cair na sarjeta, chamamos literatura” (p.115).
Alguns personagens de Roberto Bolaño, e ele próprio, vão preferir a sarjeta a esse tipo de concessão ao sistema. No final das contas, no entanto, sempre vence a lei da vida.


Rascunho, setembro de 2007.

domingo, 1 de agosto de 2010

KAFKA EM LINGUAGEM DE McDONALD'S


Pode a linguagem de massa dar conta de relatos literários extremamente densos? Esta é a pergunta que fiz diante do volume Kafka, com desenhos de Robert Crumb e textos de David Zane Mairowitz (Desiderata, 2010 – originalmente publicado em 1993).
Os autores deste volume de histórias em quadrinhos lembram da grande quantidade de livros sobre Kafka, com certeza o autor mais glosado na modernidade. Nesta variedade de abordagens, a história em quadrinhos entra como a face midiática de um discurso que nasceu como exceção.
A grandeza do livro vem da identificação profunda entre a escrita de Kafka e o desenho de Crumb, cada um, à sua maneira, explorando os tormentos da alma humana. Crumb seria um Kafka dos quadrinhos, um artista atento às nossas deformações. Num processo criativo, ele faz a apropriação pela imagem dos relatos sufocantes do escritor checo.
Para reconstruir esta maquinaria, há algumas estratégias. A primeira delas, e a mais forte durante todo o livro, é a sobreposição dos textos ficcionais e da biografia do escritor. Se lembrarmos que Kafka foi autor de milhares de cartas, inclusive a célebre Carta ao pai, e de diários, ou seja, que ele se valeu de maneira intensa de discursos autobiográficos, aceitaremos que obra e vida sejam uma coisa só. Crumb e Mairowitz passam de uma para outra sem reconhecer nenhuma fronteira.
Os personagens explicam Kafka e Kafka explica os personagens. Há certa tautologia nesta maneira de avaliar o escritor, embora ela sirva para os fins do livro, criando um impacto de leitura.
Sentimos, ao longo do álbum, uma presença sufocante. O escritor é visto como um atormentado. Embora Crumb e Mairowitz não o digam claramente, percebe-se que o drama central de Kafka vem do contato com a morte no açougue paterno. Ele se vê como um animal abatido pelo pai, originalmente um açougueiro, que faz questão de enaltecer a força, o poder de destruir próprio do mais forte. Kafka irá construir a sua vida e sua obra no lado oposto, tentando entender o sofrimento dos seres frágeis, fazendo-se inclusive vegetariano. Ele próprio é a encarnação desta precariedade física e psicológica, própria de alguém sufocado pela figura paterna.
O pai é o inimigo, o dominador, o homem prático, alguém que ocupa todos os espaços, como diz Mairowitz: “Ele imaginava o corpo do pai deitado em diagonal sobre o mapa do mundo” (p.33).
À sombra deste gigante (versão terrena do Golem destruidor), o escritor tenta criar uma trajetória de solidariedade, que expresse os tormentos de pessoas submetidas a todas as formas de poder.
As imagens contrastantes do livro são a do homem poderoso (gordo, peludo, vociferante) e a do homem frágil, magro, tímido. Crumb traduz os principais textos de Kafka sempre usando este padrão que se manifesta na oposição entre Hermann e Franz Kafka. Toda a produção do checo seria uma variação do drama vivido com o pai autoritário, que se deixou integrar-se ao sistema, ignorando suas origens judaicas, e se fez um terrível algoz familiar. A ficção seria proliferações do subconsciente do escritor.
Por conta deste caminho de leitura, Kafka é visto apenas como atormentado. Nenhuma alegria, nenhuma pacificação, o que o torna quase um monstro. Esta questão e a sobreposição do escritor e dos seus escritos são as duas principais limitações do livro, que não deixa de ser uma entrega ao senso comum sobre Kafka.
Um senso comum combatido por Crumb e Mairowitz, que lembram como o adjetivo kafkiano tomou lugar do substantivo próprio. O livro é uma tentativa de dar espessura ao termo. Mas, em boa medida, reforça a idéia corrente sobre o autor.
Os autores ainda produzem um posfácio, talvez a parte mais interessante do livro para quem conheça a obra de Kafka. Nele, eles revelam como Kafka habitou o imaginário de Praga em vários momentos históricos, mostrando que, hoje (anos 90), ele se mantém como um produto da indústria turística. O que era tormento e mistério, o que era sombrio, virou apenas um souvenir, uma grife, entregue ao mercado. Kafka, como marca, faz parte de um sistema (e, se seu pai o visse, ficaria feliz com o sucesso comercial póstumo do filho), e se presta a dar um verniz de cultura a turistas interessados numa percepção meramente biográfica – e resumida – do autor, apreendido por uma vida mitificada como bizarra.
Assim, a tradução para imagens – feita com intenção de grande arte, e de fato o é – acaba se destinando ao mesmo público que freqüenta Praga com o espírito leve dos turistas. Há uma facilitação que talvez não leve à obra do escritor, mas que cria uma sensação de que ele pode ser consumido rapidamente pela grande massa.
A fragilidade do Kafka de Crumb não vem da má execução de um projeto, mas da própria proposta. É impossível encurtar uma obra sem diminuí-la.