terça-feira, 28 de setembro de 2010

CONVERSA INTERROMPIDA

Estava caminhando com minha mulher pelo Centro de Curitiba. Comecinho da manhã, as pessoas abriam as lojas, arrumavam as mercadorias, limpavam o chão. Um movimento típico de início de mais um dia de trabalho. Não tínhamos compromisso até a hora do almoço, então ficamos vagando sem rumo. Observamos os prédios, lembramos de outras épocas em que frequentávamos a região, tudo num passo muito lerdo. As pessoas se apressavam e nós nos movíamos com uma lentidão quase sacrílega.
Mas eu tinha uma coisa presa no peito.
– Você sabe o que é um ficcionista?
Nestas horas, minha mulher se cala. Gosto de falar nas caminhadas, que não são na verdade caminhadas, e sim palestras. Eu falo e falo. Ela escuta. Expliquei:
– O ficcionista é alguém que não se contenta em ser ele mesmo.
– Isso é meio perigoso – ela falou.
– Por quê?
– Talvez você esteja insatisfeito com a sua vida.
– Nunca estive tão pacificado.
– Mas gostaria que fosse diferente. Por exemplo, ter o seu tempo dedicado apenas à literatura.
– Quem quer tempo só para a literatura é literato. Quero tempo é para viver.
– Não compreendo essas sutilezas. Mas, me diga, por que você pensou nisso agora?
Nós estávamos passando pela Praça Osório, onde ambientei o meu primeiro romance (na verdade, uma novela). Era a história de um professor de cursinho que, ao sair da aula à noite, resolve viver no banheiro público. Ele se torna uma figura popular pela opção absurda de habitar um local tão insalubre, por onde desfilava um zoológico urbano. Nunca mais volta para casa.
– Desconhecia este livro – ela disse.
Sua voz ficou mais suave, mas sem perder a força. Era como se eu a tivesse excluído de uma grande festa. Não gosto de excluir as pessoas.
– Era uma obra imatura. Nunca ninguém leu.
– Me deixe ler.
– Para o meu próprio bem, perdi o texto. Ficou só a memória superficial dele. A memória de um texto assim é maior do que o próprio texto. Esta superfície é o que havia de bom no grande monstro flácido.
– Imagem forte – ela falou, apontando para um prédio com suas janelas dando para a praça.
– Todo romance é um monstro flácido. Cresce por todos os lados.
– Ah, bom, pensei que você pudesse estar insinuando algo.
E riu.
– Sempre estou insinuando algo.
– Eis o ficcionista.
– Não, não é isto que em mim é o ficcionista. Mas este desejo de alteridade.
– É muito enigma para uma manhã tão ensolarada. Não sei a razão de termos começado esta conversa.
– Faz muito tempo que não começamos conversa nova. Nossas conversas datam de 27 anos atrás. Até hoje, estamos apenas continuando.
– Ser ficcionista é conversar sem parar – ela arrematou, irônica.
– Também é isso. As conversas nunca terminam. Bem depois, voltaremos a debater o mesmo assunto no ponto em que havíamos parado. São tantas coisas para comentar.
– Ok. Voltando à conversa CONTINUADA hoje. O que é um ficcionista?
– No meu romance de estreia...
– Qual o título?
– Me esqueci. Devia ser terrível. Lembro que o professor que vira zelador de banheiro foi o responsável pela instalação do primeiro elevador para cadeirantes.
– Mais um idealista?
– Para passar o resto da vida num banheiro público, tinha que ter muito ideal.
– Você não idealiza muito. Acho que seus textos são muito cruéis com tudo, principalmente com você mesmo.
– Olhe estas pessoas que abrem o comércio agora, que fazem pequenas tarefas, que pensam em comprar um tênis, no cardápio do restaurante popular onde vão todos os dias...
– Você tem pena deles?
– Ao contrário, invejo. Seria boa uma vida assim, na essencialidade dos seres práticos.
– Você se realizaria como pequeno empregado no comércio?
– Talvez sim.
– Este é um sonho fácil.
– O problema é que eu gostaria também de ser centenas de outras coisas.
– Em todas haveria sofrimento.
– Claro, sofrer faz parte.
– Mas o que de fato você gostaria de ser?
– O que sou, um ficcionista.
Ela solta uma risada.
– Sei, porque assim você pode se esconder nos personagens.
– Também por isso, mas principalmente porque sempre posso interromper estas vidas imaginárias.
Naquele momento passou um carro de som, suspendendo por alguns anos esta conversa.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

CARTA A EUSTÁQUIO GOMES

O escritor Eustáquio Gomes teve um AVC e perdeu a voz e a visão. Não o conheço pessoalmente, mas desde os anos 80 acompanho sua literatura. A editora Record está para lançar o romance em que ele vinha trabalhando: A GUERRILHA DOS POETAS. Seu título mais recente é A biblioteca no porão, volume de crônicas. Quando saiu, li e comentei em uma carta. Publico esta carta aqui como uma homenagem a este escritor que foi suspenso pela doença bem no dia em que assinaria a sua aposentadoria - depois de uma vida como jornalista da Unicamp. Seu projeto era só se dedicar à literatura. Tomara que a fala e visão voltem e ele consiga realizar o projeto.


Prezado Eustáquio

Viajei a Belo Horizonte para um encontro de literatura na UFMG, e levei o seu livro A biblioteca no porão. Não parei de ler até terminar o livro. Leitura agradável, que nos comunica um entusiasmo pelo que você define como a “música” do livro. Há poucas obras assim, que se sustentam não pelo assunto ou pelas inovações de estrutura, mas pela música. Esta era a tese de Ernesto Sábato, de que todo livro tem uma música. Mas no caso do seu livro é a música que nos rouba da realidade e nos deixa em um estado de elevação espiritual.
A idéia da semificcionalização do livro também me interessou. Você imagina um ancião mudando-se para o porão, habitante de uma ilha, e no começo imaginei que pudesse ser de fato um livro de ficção. Depois, o real da vida do autor, seus móveis existenciais, suas obsessões, suas particularidades vão devolvendo ao leitor o senso de cotidianidade tão essencial para a crônica.
Além dos personagens reais, que assumem algo de inventado, como um Rubem Alves já tocado pela figura de Paternostro, ou a Hilda Hilst, também a caminho da vida imaginária, chama a atenção a presença dos leitores – em vários textos ele se intrometem na obra. São seres pretensamente reais, mas se percebe que eles chegam ao livro pelo recurso da ficção. Mesmo alguns autores, que dão entrevista ao cronista, num expediente que se repete ao longo do livro, comparecem na condição de personagens. Daí deduzimos a grande verdade que parece estar por trás do livro. Mesmo quando fala do real, ou quando simula fazer isso, o escritor está fazendo ficção. Ele é um ser que faz com que tudo que seja tocado por seu olhar se converta em matéria de ficção.
Com isso, você minimiza a realidade justamente para ampliá-la. E uma força antinaturalista que você exerce dando ao verbo da crônica um estatuto não-confiável. Ao mesmo tempo, vai delimitando um espaço autobiográfico móvel, em que o autor é não o que ele exerce na vida real, mas tal como ele se vê neste espelho deformante da literatura.
Se o volume funciona bem no conjunto, há peças que mais me agradam isoladamente. Destaco: “Como começar um livro”, “Aventura de um leitor”, “O diário de Lázaro”, “A poesia dos escritórios”, “Em busca de Pérola”, “Hilda”, “Carta a García Márquez” e “Mensagem aos cinquentões”.
Em suas mãos, a crônica tem algo de diário, pois a estrutura do diário é muito forte na sua ficção. Há uma presença interior. E isso me agrada.
Com este sentido de plenitude que a leitura nos deixa, envio o meu melhor abraço
M.

sábado, 25 de setembro de 2010

UM LIVRO MUITO LIDO


Desenho de Maumau
Hoje, inadvertidamente,
peguei um livro de poemas
que eu antes costumava ler
lado a lado com alguém.

E a presença dela se fez
de novo tão forte naqueles
textos meio adolescentes
que não consegui entender

nem mesmo o menor deles.
É que aquele livro a reteve
nas muitas marcas de dedos

de mãos suadas e trêmulas
que, sem poder parar o tempo,
apenas folheavam poemas.

OBJETOS INCÔMODOS

Todo escritor acabará no sebo. Esta é a lógica da coisa. Um leitor comprou o seu livro, não gostou ou não teve tempo de ler e está precisando fazer a faxina. Então se desfaz do objeto incômodo. Livros incomodam muito as pessoas.
Morto o dono de uma coleção de obras literárias, a primeira coisa que os parentes fazem é descartar os livros, que passam a figurar como “velharias”. E depois tem o cheiro de mofo. Estávamos precisando renovar o ar. Eu queria instalar uma sala de tevê no quarto em que ele guardava as obras. Estas e outras justificativas são usadas para enterrar o morto pela segunda vez, dissipando a sua biblioteca.
Mas quem alimenta o negócio de livro usado no Brasil é o jornalista de cultura. Há livros meus que chegaram ao sebo antes de chegar aqui em casa. Num esforço de conquistar espaços – cada vez menores – para os livros, as assessorias de imprensa das editoras distribuem generosamente a cota de divulgação. O jornalista recebe quilos de livros diariamente. Não têm como guardar estes fardos, e muito menos tempo para ler. Então, vende os livros no sebo mais próximo. E melhora um pouco os seus rendimentos.
Boa parte dos 258 livros meus (de minha autoria e organizados por mim, meio a meio) que estão hoje anunciados na Estante Virtual sequer foi aberta. Alguns livreiros de usados declaram que o livro é novo. Isso é reflexo do excedente de livros e da carência de espaços de divulgação.
O lado bom disso que é os livros ficam um pouco mais barato, aumentando as possibilidades de leitura. O lado ruim é que estes exemplares não rendem direitos autorais, e foram distribuídos sem fins comerciais. Algumas editoras carimbam os livros, outras cortam uma das pontas, mas nada impede que o livro circule no mercado.
Há um movimento hoje para que os livreiros de usados paguem os direitos autorais da revenda ou da venda destes exemplares de divulgação. É algo plenamente possível com o advento de redes como a Estante Virtual. Bastaria o autor se cadastrar lá e o site depositar os clássicos 10% a cada 3 meses.
Tirando esta questão prática de nosso livro estar no sebo, há também a questão psicológica. Quando vemos tal livro em tal cidade, ficamos imaginando quem foi que nos desovou ali. Por exemplo, há um volume de poemas meus em Guarapari, no Espírito Santo. Está autografado. Tenho vontade de comprar este volume só para reenviá-lo para o único poeta que conheço em Guarapari. Claro, sem nenhum rancor, apenas como brincadeira. Com uma segunda dedicatória: “Para Fulano de Tal, para que possa vender meu livro de novo e assim melhorar seu orçamento”. Ou: “Para Beltrano, na esperança de que este livro seja novamente descartado”.
Assim, para desfazer-se de livros autografados, a regra é tirar a página do autógrafo. Wilson Martins, que doava todos os seus livros para a Biblioteca Pública do Paraná logo depois da leitura, cobria com corretor as dedicatórias mais pessoais, pois não tinha coragem de estragar os livros.
Na longa e frutífera conversa entre Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges (Borges, Buenos Aires, Destino, 2006, p. 737), catatau que tem sido meu livro de cabeceira, há um diálogo irônico sobre isso. Borges fala de um militar literato (Ubaldo Genta), e Bioy responde:
– Hoje descartei um livro dele. Antes não me animava a descartar livros com dedicatória, mas é claro que não se pode acumular em casa objetos inúteis.
–É preciso arrancar a dedicatória – diz Borges.
– Caramba, não tive este cuidado. Depois, eles aparecem nas livrarias e as pessoas pensam que alguém os vendeu.
Desfazer-se de livros, com ou sem dedicatória, é uma tarefa comum e faz parte da vida de qualquer leitor. O que denigre esta atividade é a intenção financeira do leitor, isto é, do vendedor.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

RETRATOS COM ORELHAS CORTADAS

Entre os trabalhos ligados à literatura, há o de escrevedor de orelhas. Este tipo de espaço tem uma lógica. Só admite a admiração. Se não admirarmos o livro que estamos apresentando, a orelha se faz falsa. Então, esta talvez seja a pior prova a que é submetido um homem de letras, este ser adaptado a todos gêneros – ficção, poesia, crítica, crônica, contos etc.
Fiz muitas orelhas nos últimos anos, sempre me preocupando em ajudar, com a pequena força que meu nome possa ter, a formar público para a literatura brasileira. Algumas de minhas críticas de jornal acabaram saindo como orelha ou texto de quarta-capa de livros de autores que nem conheço. E nunca me opus a nenhuma destas apropriações. Eu mesmo me vali deste recurso em meus livros.
Tudo isso é legítimo.
Mas ultimamente ando meio sem jeito de escrever orelhas para livros alheios.
Para meus livros, tenho preferido o trabalho anônimo de alguém da editora, ao qual acrescento uma ou outra palavra ou do qual retiro alguma frase.
Convidei três amigos, em momentos diferentes, para escrever orelhas para mim. Quando saiu Hóspede secreto (2003), falei com o Luiz Rufatto, que fez um belo texto para o livro. Tempos depois, pedi para o poeta e crítico Felipe Fortuna um texto para os poemas de Venho de um país obscuro (2005). Ele morava em Londres. Mandei o material impresso pelo correio. Houve idas e vindas de cartas. Quando o texto chegou, o livro já tinha mudado tanto, era outra coisa, e a orelha já não servia mais nele. Fiquei constrangido, mas não pude aproveitar a apresentação.
Foi neste momento que decidi não usar orelha assinada. A editora poderia se valer do material sobre meus livros que saísse na imprensa. Ou escrever algo mais publicitário e impessoal.
Mas houve ainda mais um episódio. Quando estava para sair o romance A primeira mulher (2008), criou-se uma grande expectativa editorial – que depois se frustrou – e fui convencido a pedir uma orelha para uma pessoa com quem eu tinha tido muito contato. Como eu resenhara praticamente todos os livros deste amigo, fiquei envergonhado com a coisa toda. Mas não queria deixar que a editora pensasse que era um descaso. Venci o pudor e pedi.
Educadamente, o amigo alegou um problema de acúmulo de trabalho e eu fiquei aliviado.
Não solicitaria mais tais favores. Até porque uma orelha só funciona se for um discurso amoroso. E ninguém pede para ser amado.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

SEMANA LITERÁRIA DO SESC


Participei de dois momentos da Semana Literária do SESC – a mais importante iniciativa de debate da leitura no Paraná. No ano passado, estive em cinco cidades (Guarapuava, Umuarama, Maringá, Paranavaí e Campo Mourão). Este ano, fui convidado para Londrina e Apucarana. Em outros momentos, me apresentei em Curitiba e Ponta Grossa.
Para o sucesso destes debates, há uma engenharia complexa. Depende da divulgação, do dia, das pessoas convidadas, de pequenas ações, do clima, da programação da cidade. Claro, público não é tudo. Os organizadores podem arregimentar gente de várias maneiras. O importante, nestes casos, é a razão pela qual as pessoas estão ali. O escritor gosta de se sentir prestigiado, mas isto é apenas vaidade. Interessa saber se o que ele disse surtiu algum efeito.
Em Londrina, tudo estava ótimo. A organização foi um show, a recepção das mais calorosas, um público que lotou o anfiteatro. Minha parceira de palco, Marina Colassanti, foi a principal responsável por este interesse todo. Marina tem um público cativo e merece muito mais. Então, estas misturas de gerações mais conhecidas com gerações menos conhecidas funcionam bem. É a primeira aprendizagem que tiro desta participação.
A conversa foi animada, houve uma boa interação com a platéia. Falamos de leitura, mas não lemos nenhum de nossos textos. Eis uma questão fundamental para mim. O escritor tem que ler mais os seus textos. Somos convocados para falar, para opinar sobre leitura, mas a única contribuição efetiva que damos nesta área é cativando os leitores pela palavra em estado literário. Se os leitores não nos conhecem, é importante ler e ler nossos textos. Se eles forem bons, ganhamos leitores. Se não forem, suicídio.
O texto fala pelo escritor.
No final, uma fila imensa de autógrafo – para a Marina. Que, como eu disse, merece. Da minha parte, tirei umas fotos com estudantes, assinei umas cadernetas, recebi uns livros de presente. E ganhei alguns seguidores no twitter. Bem, saí no lucro.
Em Apucarana, a sala era menor. Nem eu nem minha companheira de mesa – a jornalista e poeta Célia Musilli – somos muito conhecidos. O público era pequeno, mas houve uma grande surpresa. Um professor (Moacir) levou seus alunos do terceiro ano para a conversa.
Assustei-me quando o professor trouxe uma pasta com várias de minhas crônicas da Gazeta do Povo, tudo organizadinho. Os alunos leram durante o ano as minhas colunas e queriam conhecer o autor. Conversamos, antes do evento, sobre a vida deles. Cada um falou um pouco do que pretende fazer e do trabalho do Colégio Estadual Isidoro Ceravolo. Há ali um empenho para formar bem os alunos, preparando-os para a concorrência desleal do vestibular.
Conversar com aqueles jovens foi talvez a coisa mais bacana em todas estas itinerâncias literárias. Eles comentaram as crônicas, fizeram perguntas sobre assuntos os mais diversos e depois nos ouviram. Tendo que sair para uma prova, um pouco antes de acabar a mesa, eles se levantaram e agradeceram a oportunidade.
Fiquei muito alegre por este encontro com 8 leitores – além das outras pessoas que não eram do colégio. Mais alegre com o fato de o professor Moacir lecionar a disciplina de Geografia.
Ele não me conhecia até o momento em que o Colégio assinou a Gazeta do Povo. Imediatamente passou a usar meus textos na sala de aula.
São professores assim que realmente transformam alunos em leitores.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

POESIA VERSUS DISSERTAÇÃO

Há livros de poemas construídos, e outros que são acumulados. E isso depende da maneira de trabalhar do poeta em dado momento. Em alguma parte alguma, de Ferreira Gullar (José Olympio, 2010), é um quarto onde o maior poeta vivo do Brasil guardou textos produzidos na última década. Esta natureza cumulativa tira a essencialidade do conjunto, embora haja grandes momentos de poesia autêntica – este artigo tão raro em qualquer época.
O poeta maranhense, ocupando o podium de nossa poesia, e tendo um trânsito pelo meio jornalístico e artístico, é sempre solicitado – pelos outros e pela sua própria sensibilidade – a escrever poemas em torno de determinados acontecimentos. E ele o faz com muita competência. De definições de poesia – para o êxtase de professores de literatura e suas análises – a poemas que se confundem com crítica de arte ou de literatura, o poeta apresenta sempre a sua tese, fundando-se em teorias subjacentes aos textos. É mais o crítico do que o poeta que se manifesta em um verbo pensante, que usa espaço poética para debater com o leitor, embora ele mesmo nos avise desta falácia teorizante: “só o que não se sabe é poeisa”, p. 25.
Desde o início, a principal qualidade de Gullar foi promover uma mudança de rota, levando a poesia brasileira para a área lingüística comum da prosa. Esta proseificação do verso – tanto formal quanto temática – tem um valor imenso em uma tradição que tende a elevar o verbo na hora de escrever. Ferreira Gullar prendeu a poesia a um chão expressional que lhe deu não apenas renome crítico mas também leitores. A convivência com a horizontalidade da prosa necessita sempre de um equilíbrio com a densidade da poesia, em uma tensão permanente. Embora ainda haja esta tensão no livro Em alguma parte alguma, ela se faz mais rotineiramente.
Tendo se dedicado a uma crônica que quer pensar questões atuais, escrevendo sobre artes plásticas e dando palestras em vários eventos, sobre assuntos de natureza mais intelectual, Ferreira Gullar migrou este tom dissertativo para os poemas. A sua personalidade pública (o outro de que fala em “O duplo”) tomou o lugar do poeta em boa parte dos textos. É um processo normal dentro deste mecanismo de identidade, em que não é mais um homem que escreve, mas o escritor avalizando a própria voz.
Não quero deixar a impressão de que o Em alguma parte alguma não seja um bom livro de poema. É.
Temos aqui uma experiência dolorosa com a morte individual (e os poemas em que Gullar dialoga com os próprios ossos do corpo são magistrais) e a morte geral, com sua perplexidade diante da irrelevância da vida humana em confronto com o infinito. É uma poesia verdadeira, que nos coloca diante do tudo que é o cotidiano e do nada que é o sem-margens.
Nesta dialética, reaparece uma metáfora central de sua poesia: as bananas podres. Filho de um quitandeiro de São Luis do Maranhão (o pai, a cidade e a rua são convocados insistentemente não só neste livro), Gullar localiza na distante infância/juventude um odor forte de decomposição. Este odor vem da escuridão da quitanda fechada com suas frutas, mas vem de uma escuridão maior, a do tempo passado. Assim, a memória olfativa (também ligada à imagem da flor, do jasmim) é o sinônimo da fragilidade do existir. Decomposição e ressurreição da vida. Assim, não são os ossos, a parte mais duradoura do corpo, a parte mineral dele, o que fica, mas esta fragrância, que se confunde com a própria poesia. É esta eternidade transitória que nos resta (“estou eterno” diz o poeta na p. 70) e que a arte busca.
Na cesta, pretejadas e liberando seu mel estonteante, estão as bananas podres. Eis o que resta do que fomos.

domingo, 12 de setembro de 2010

UM CLÁSSICO CONTEMPORÂNEO

A reedição deste clássico contemporâneo (O homem vermelho. Editora Leitura, 2007) era algo há muito esperado pelos leitores de Domingos Pellegrini. Aparece agora para marcar os 30 anos de estréia em livro deste que é um dos nossos mestres do conto.
Narrativas avulsas de Domingos já haviam recebido importantes prêmios (como o do Concurso Nacional de Literatura da Fundação Cultural do Distrito Federal e o Prêmio Fernando Chinaglia), e este livro ainda receberia o Jabuti de 1977. Isso tudo era um reconhecimento espantoso para uma obra de estréia de um autor jovem que residia na periférica Londrina. E a razão de tal sucesso é uma só: a qualidade insuperável destes textos.
O Brasil vivia a década do conto, gênero usado com instrumento literário e também político. Pellegrini militava nestas duas frentes, dedicando-se a movimentos de resistência à ditadura e fazendo sua literatura com um verbo urgente – escreveu algumas de suas histórias em guardanapos de papel pelos bares onde a sua sede o ancorava. O título (O homem vermelho) remetia, portanto, ao homem comunista, funcionando como uma senha de acesso à obra. Mas enviava o leitor também a algo mais profundo, que permanece atual ainda agora, o habitante da terra vermelha do interior do Paraná, o desbravador de um sertão fértil, que prometia riqueza a quem fosse trabalhador, confiscando-a num piscar de olhos. O título era mais uma identidade regional do que política, e é este o sentido que o autor restaura nos contos revistos de hoje.
Do caráter comunista do texto sobrou a opção pelas formas simples, pelo tom falado dos relatos, pelas trajetórias de pessoas comuns, por uma valorização do trabalho na terra, pelas paixões de peões e violeiros. E isso é um saldo altamente positivo. Se não vale mais a ideologia daqueles tempos, vale ainda, e muito, a opção estilística do autor. Uma realismo de linguagem, uma rapidez narrativa, um poder encantatório da palavra em estado de oralidade, um humanismo doído.
Quem comparar esta com a primeira edição notará diferenças de títulos e de frases ou do final dado às histórias. O autor reescreveu estes relatos matinais, não para negar suas primeiras configurações, mas para se fazer contemporâneo de si mesmo. Assim, embora seja uma reedição, este livro é quase uma nova edição, que nos apresenta o grande contista no vigor da juventude e na serenidade da madureza.
Uma obra sem igual na literatura brasileira, O homem vermelho revela um escritor que nasce pronto, com um sentimento de adesão trágica a um espaço humano que tem a vocação da alegria apesar de todas as adversidades.

HOMENS VERMELHOS

Domingos Pellegrini, o Dinho, almoçou aqui em casa hoje. Tomamos uns vinhos e conversamos sobre vida e literatura.
Ele é uma de minhas grandes influências, pois deu voz a uma forma de ser própria de uma região que antes não tinha espessura literária - o Norte do Paraná.
Lembrei então de recuperar o texto que fiz para a orelha da edição comemorativa dos seus 30 anos de estréia literária.
É este texto que aparece a seguir.
Ele é um de nossos mestres do conto.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

NOVO MESTRE DO CONTO


O mau escritor acha que literatura se faz com grandes fatos, com personagens exageradamente marcantes, com uma linguagem elaborada, com paroxismos de dor e de alegria. O resultado disso é a pior subliteratura, uma paródia canhestra da percepção literária da existência. O bom escritor sabe que a narrativa tem as malhas rasgadas da vida, e que as coisas acontecem, tanto no texto como no mundo de onde este vem, com descontinuidades, com simbolismos e com muitas banalidades.
Há toda uma linhagem minimalista nos Estados Unidos que valoriza esta opção narrativa. E ela deságua no maior contista vivo do país – e ainda muito pouco conhecido aqui: Charles D’Ambrosio (Seatle, 1958), que tem um segundo livro publicado no Brasil: O museu do peixe morto (Grua, 2010) – o primeiro foi A ponta (Grua, 2008). Quando se fala em minimalismo no Brasil, pensamos logo em textos curtos, no conto-relâmpago, nas ministórias etc. O nosso conceito de minimalismo é de caráter formal, de economia de meios. O minimalismo de Charles D’Ambrosio (herdeiro de Ernest Hemingway e de Raymond Carver) é de fundo. Os contos são longos, extremamente cativantes, mas não se percebe bem o que está acontecendo, há a falta de um centro, tal como no conceito tradicional de conto como esfera. O autor não isola um momento fulcral. Ele relata a vida banal de personagens fazendo as coisas mais cotidianas, e no meio deste movimento narrativo surgem pequenas tensões, imagens que revelam a profundeza de sentimentos que não se entregam facilmente ao leitor.
Há dramas muito intensos nos oito contos que compõem o livro, mas estes dramas não estão à flor do texto, não são tratados de forma direta pelos personagens. Podemos ver tudo por uma lente embaçada, o que não nos distancia, antes nos aproxima dessas vidas comuns.
O sentimento que une todos os contos é o desespero. São personagens à beira de uma explosão qualquer, vivendo uma profunda orfandade. Eles estão perdidos em um mundo, vagando pelo país para sobreviver, tentando algo para ir até o próximo ponto. Tudo fica sugerido, nada se revela totalmente, e o que acompanhamos é a rotina destes personagens que seguem vivendo, apesar da escuridão que carregam consigo.
Não há um conto ruim do livro, todos são muito bons, mas alguns são verdadeiras obras-primas. O melhor deles é “Drummond & filho”, em que Charles D’Ambrosio faz coincidir o fim de uma era – a era da máquina de escrever – com o fim de uma linhagem familiar. Drummond herdou a loja de reparos de máquinas do pai, aprendeu tudo ali, e agora tem um filho com problemas psicológicos. É a luta para manter-se fiel ao legado profissional que não poderá ser transmitido. É o mais belo e intenso texto sobre a relação pai e filho que já li. Enquanto o mundo se informatiza e as relações se tornam líquidas, os dois seguem juntos, num esforço de humanização que ele encontra nas máquinas-de-escrever reformadas e vendidas a pessoas que querem posar como grandes escritores: “Sempre que Drummond abria uma máquina, enxergava uma vida naquele anfiteatro de letras sentadas na barra de tipos” (p.39). O amor às máquinas obsoletas se estende ao filho sem um lugar no mundo.
Outra obra-prima é “O esquema geral das coisas”. Aqui, e em outros contos, entra a viagem, o deslocamento. Um casal ganha a vida enganando as pessoas com a venda de revistas de uma associação que ajuda as crianças nascidas de mães viciadas em drogas. São dois picaretas, mas a mulher tem um dom visionário. Órfã, criada em instituições, parece que ela encontra o seu lugar numa fazenda onde um casal de velhos vive à sombra da morte da filha. Eles acolhem os viajantes porque a moça fala da menina, que ela viu – em uma visão – ser morta pelo pai que colhia milho e a colhe junto. É outro conto muito tenso, em que as conversas bobas do interior vão escondendo o drama. Ela pode ocupar o lugar desta filha?
No meio da noite, eles fogem, roubando tudo o que podem. O marido, extremamente materialista, leva o carro cheio de milho. A moça, na sua pobreza extrema, rouba um sutiã da velha. Nesta peça está a metáfora maior da orfandade. O seio materno que ela não teve. O seio em que a velha outrora amamentou a filha morta. Um desencontro de histórias. Mas este desencontro guarda um momento conciliador, pois houve uma relação verdadeira embora muito fugaz, que culmina com uma ceia em família entre os viajantes e os agricultores órfãos da filha. Uma frase deste conto vale muitos e muitos romances: “Um segundo de amor já é todo amor que há no mundo” (p. 144). Se não há mais espaço para relações afetivas duradouras, restam ao menos estes lampejos.
Muitos contos falam de filhos abandonados, de uma descontinuidade amorosa entre pais e filhos. É um mundo cheio de órfãos – mesmo dentro do seio familiar (como no belíssimo “Bênção”), mas as pessoas continuam buscando estes poucos segundos de amor, de encontro, de comunhão intensa. Mesmo que ela logo desvaneça.
O último conto – “O jogo dos ossos” – ultrapassa a história familiar para revelar um momento em que a orfandade é de todo um povo – os índios. Um jovem herdeiro de uma fortuna viaja pelos locais importantes na trajetória do avô para jogar as cinzas dele em algum lugar especial. A comunhão com os índios se dá por meio de um ritual de pesca do salmão, que é comido depois de assado em uma fogueira, ao lado de uma prostituta índia, mas num cenário desolador. Neste momento de encenação paródica do Velho Oeste, o jovem perde seus bens para a índia num jogo, identificando-se assim com este povo à margem do país. Finda a bebedeira, tudo volta ao normal, e ele recupera sua identidade de branco rico, que pode explorar os que estão em situação inferior.
Como um todo, O museu do peixe morto é uma obra que devolve à literatura contemporânea uma intensidade perdida. Charles D’Ambrosio constrói contos elegíacos, em que os personagens se confrontam a todo momento com a sua desumanização.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

FÔLEGO MAIS LONGO

Existe toda uma literatura que fez a opção do aforismo. Há mais de 20 anos, acompanho alguns autores que escrevem neste gênero mais próximo da poesia do que da prosa ou do pensamento. Aforismo é pensar por meio de pílulas de linguagem. Ao contrário do lugar comum, só escreve aforismos quem tem muito a dizer, mas prefere dizê-lo de forma contundente. Se o aforismo não for contundente, ele se esvazia. É como uma borracha que estica e perde a sua potência.

Os aforismos de F. Nietzsche são para mim os mais elaborados da modernidade, porque existe tamanha agressividade em seus textos que estes produzem ferimentos graves em qualquer intelecto. Para ser contundente, deve-se abrir mão do medo de ferir. O autor de aforismos é sempre um ser desagradável, um destruidor de miragens – é preciso ler com lentidão seus livros O crepúsculo dos ídolos (Cia. das Letras, 2006) e principalmente os Fragmentos do Espólio (Editora UnB, 2008) para sentir o seu poder demolidor. Não são livros, são armas para enfrentar a mediocridade do politicamente correto de nosso tempo.

Outro autor que me encantou muito foi Walter Benjamin, lido na academia mais pelos seus ensaios filosóficos e literários, mas que é autor de aforismos imperdíveis, reunidos nos livros de Rua de mão única (Brasiliense, 1987). A ironia e o lirismo andam juntos nas coletâneas de volume II das obras reunidas e nos chegam com uma modernidade espantosa, pois trabalham com a sobreposição de mercadoria e linguagem.

Também me deixei seduzir pelos Silogismos da amargura, de Cioran (Rocco, 1991), livro que foi uma bíblia para mim nos anos de passagem da juventude para o túmulo – depois da juventude, só nos resta o túmulo. E é ainda um das obras mais bem realizadas como conjunto; volto sempre a ela quando, de madrugada, tenho vontade de me matar.

Com um movimento inverso, de crença no homem, mas igualmente crítico e inquietante, há o volume Discípulo de Emaús (Agir, 1945), de Murilo Mendes. Eis mais um destes livros que nunca terminam de dizer o que têm para dizer. É o poeta pensando dentro do catolicismo, mas sem peias ideológicas.

Poetas modernos sempre estiveram de namoro com o aforismo, como um Oswald de Andrade ou um Mário Quintana. Este aproximou o aforismo da crônica e deixou grandes momentos de pensamento irreverente. Os poetas marginais como um todo confundiram poesia com aforismo e é a parte que mais me agrada neste movimento dominante em nossa lírica dos anos 70 – destaco Cacaso, no seu projeto de uma poesia decrescente, como o grande nome deste período. Mas há também um José Paulo Paes, de uma geração anterior, para quem o aforismo foi uma sala contígua à produção poética.

Mesmo alguns ficcionistas, e aí lembro o paranaense Dalton Trevisan e o guatemalteco Augusto Monteroso, levaram o conto à fronteira do aforismo, deixando contribuições geniais. Ou mesmo os romances em formato de aforismo de Machado de Assis.

A receita é simples: pensar com sabor e ironia, longe dos meros trocadilhos ou inversões engraçadas, que é a parte menos nobre deste gênero. É esta tendência para o riso a qualquer custo que estraga boa parte da produção imensa de Millôr Fernandes, que fez do aforismo uma espécie de caricatura política – isso dá atualidade aos seus textos, mas os torna um tanto rasos ou jornalísticos.

Como eu dizia no início, é toda uma literatura que se vale de tal formato para nocautear o leitor menos avisado. Daria para viver só desta literatura.

Se ela tivesse um centro, este se chamaria Karl Kraus. Foi a leitura de seu primeiro livro no Brasil – Ditos e desditos (Brasiliense, 1988) que sedimentou em mim o gosto pela coisa breve. Junto com o livro de Cioran, este volume construiu uma tendência em mim. Com eles, adquiri a coragem de pensar (???) por contra própria, correndo todos os riscos. Vindo de uma formação poética, tentei fazer com que as duas paralelas (poesia/aforismo) se encontrassem. Nas crônicas, em meus livros de prosa, na poesia, fui incorporando a estrutura aforística.

Nos últimos anos, vinha intensificando a preocupação de dizer tudo de uma vez. Foi este projeto que me levou a aderir ao Twitter, onde a não disponibilidade espacial exige uma concentração (e não uma concisão) de linguagem.

E é justamente nesta tradição literária em tempo de twitter que surge uma nova coletânea de Karl Kraus (Aforismos. Arquipélago, 2010), colocando o autor vienense na circulação sanguínea da produção contemporânea.

Mas ler Karl Kraus é uma tarefa para mentes abertas, pois ele é um agressor feroz, e nos agride com a pior arma: a inteligência. Não tem meias palavras, não deixa nada sugerido. Vai na veia – para lembrar um dos volumes aforísticos de Dalton Trevisan (Pico na veia. Record, 2002).

É de Karl Kraus a frase que melhor define o gênero:

“O pensamento é aquilo que falta a uma banalidade para ser pensamento”.

A distância entre um e outro (banalidade/pensamento) é mínima. A maior parte do que se escreve no twitter (e aqui me incluo) fica apenas no nível da banalidade, mas quando ascende um pouco se torna aforismo. Esta ascensão deve ser sempre buscada para quem quer usar o twitter como um espaço de reflexão e não como mero umbiguismo.

Aforismo é pensamento com lampejos. É esta tradição que vale na hora de enfrentar esta imensidão dos 140 caracteres, uma vez que, segundo Karl Kraus: “O aforismo requer o fôlego mais longo”. Ou seja, sem fôlego longo o sujeito não consegue escrever nem mesmo uma lápide.


PS. Esta é a íntegra do texto apresentado como tese de doutorado na Universidade de Letras Breves.

sábado, 4 de setembro de 2010

ESCREVER CONTOS





Escrever contos
muito pouco te a ver
com contar casos
que ouvimos na rua,
soubemos por amigos,
jornais ou pela tevê.
Um conto é um corte
na pele fina do hoje
e ele sangra tanto
que, para estancá-lo,
resta-nos o manto
de termos cotidianos.

Não escreva contos
para fazer graça.
Só admita a piada
quando for amarga.
A tristeza do tempo
que nunca pára,
mesmo o amor maior
nos espeta o peito
com sua pior farpa.
Conto repele risadas.
Isso é para a crônica
que ajuda a digerir
as comidas pesadas.

Apenas escreva contos
em estados de fúria,
com um ódio santo
contra toda a turba.
Um conto necessário
é um ato de cura,
uma catarse em meio
à insanidade de tudo.
Escreva contos para
emudecer esse mundo
tomado pela usura.

Não escreva contos
como quem brinca
com palavras móveis,
incrustáveis nas frases.
Conto já nasce pronto.
Todo esforço vem antes,
ao se sofrer o corte
e sangrar até a morte.
Não é com palavras
que se faz um conto,
mas com sentimentos
imensos de desencontro,
entre o eu e o mundo,
mesmo quando o mundo
é quem nós somos.

Tente escrever um conto
que te prepare um pouco
para te ver como morto.
Estar vivo é algo falso
porque breve em demasia.
Todo conto é um canto,
um canto de despedida.

Não escreva contos
com palavras eruditas.
Conto é linguagem viva,
a mesma usada no bar,
na hora do namoro,
no balcão da padaria.
Palavras do dia-a-dia,
que súbito se concentram
para dizer de uma vez algo
que ninguém mais diria.

Escreva os seus contos
como quem se suicida,
sem deixar bilhetes
dando os tais motivos.
Um conto não se explica.
É morte imprevisível,
a vida como enigma,
a força de um mistério
que não se silencia.

Só escreva os seus contos
quando não houver quando.


(Este texto foi escrito para a edição do 19a. Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio, da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, do ano de 2009. O volume acabou de sair.)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

LIVROS PARA UMA BIBLIOTECA COMUNITÁRIA

Fui aluno da Cida Perez, em Mandaguari, professora que devotou sua vida ao magistério e aos livros e aos amigos e parentes. Figura especial, que morreu recentemente. Sobre ela, escrevi uma crônica - "O manuscrito" - dizendo que foi ela quem escreveu em mim o amor pelos livros, embora eu já lesse bem antes de conhecê-la. A biblioteca na casa dela foi a minha primeira imagem de um paraíso encadernado.
Pois bem, depois de sua morte, a sua irmã Josepha Perez, outra figura especial, construiu uma biblioteca comunitária no quintal com o acervo da Cida.
Além dos livros, expõe a coleção de imagens de São Francisco e obras de arte que também pertenciam à minha ex-professora.
O nome é: Biblioteca São Francisco de Assis.
É uma iniciativa solitária e movida pelo grande amor que sempre uniu estas duas irmãs.
A biblioteca precisa, no momento, aumentar e diversificar o acervo de títulos literários.
Vou mandar uma caixa de livros.
Quem puder e quiser colaborar pode enviar livros para o seguinte endereço:

Rua Rodrigues Alves 553
Mandaguari Paraná
CEP 86975000

Ou depositar sua contribuição na conta corrente de:

Josepha Perez
Número 01000295-7
Agencia 0969 d
Caixa Econômica Federal