domingo, 31 de outubro de 2010

GENTE INEXISTENTE

A primeira regra para a difícil vocação de fazer inimigos é dizer o que você pensa.
Perigo: as pessoas não estão acostumadas a ouvir a opinião dos outros. Também não estão acostumadas a lidar com pessoas que pensam. Você está em uma área com risco de incêndios. Tudo será usado contra você, até o fato de você, por exemplo, não depender da ajuda política de ninguém. Onde já se viu uma pessoa que quer escrever alguma coisa importante no Twitter (gente, ele escreve no Twitter!) não precisar pedir permission ao político de plantão – perdão pela aliteração e também por esta rima em ão.
Claro, quem fala isso precisa não só do penico, mas também do papel higiênico – se não tiver, pode usar algum jornal.
Bem, você então ganha um inimigo.
Você nunca o viu mais louco, nas clínicas em que já foi internado. Você nunca soube nada dele.
Daí você liga para um amigo seu que dá uma mão ao pobre diabo. Você pergunta do furioso fulano. Tem pai? A ex-mulher ainda o ama? E coisas assim. O seu amigo diz:
– Esqueça, ele não existe.
Ok, o seu amigo venceu. Ele não existe. Mas a sua inexistência produz um monte de mentiras e de bobagens sobre você.
Há no mínimo um problema aí. Você não perdoa. Sim, você é ferino.
– Quem tem pago as contas do animal?
O seu amigo ri. E reforça:
– Já disse, ele não existe.
O fato é que você tem um novo inimigo lá no inferno.
(Inferno é o lugar para onde você manda os seus inimigos. Você leu Dante, você sabe que o destino de todo inimigo é o inferno. E reserva o lugar especial para cada um desses canalhas. Para este, pede a suíte presidencial.)
Feita a transferência imaginária do inimigo para o inferno, você se esquece dele.
Mas ele não se esquece de você, porque no inferno não há muito o que fazer a não ser sofrer com a independência alheia.
E você é culpado. Você ganha a sua vida honestamente. Você trabalha todos os dias da semana. Você ocupa posições profissionais que lhe chegaram por concurso público. Você leva os filhos à escola. Você ajuda a lavar a louça do jantar. Você lê os principais livros lançados no país e outros que ainda nem chegaram aqui. Você escreve os seus textos apesar das adversidades. Você enfrenta os profetas fétidos do fim da literatura.
Tudo bem, alguém tem que ser odiado. Melhor que seja você.
Daí você recebe um endereço na internet onde o seu inimigo escreve contra você. Você acha melhor não ler. Se ele não existe, como pode escrever? Milagres do mundo virtual.
Tentado, você acaba espiando as crises de histeria de alguém que não existe. Mas os teóricos não falam na morte do autor? Está aí, a inexistência do difamador.
Você ri das bobagens bêbadas do cara. Depois se detém nos comentários postados.
Para agredir você, as pessoas (isto é, os diabinhos) usam pseudônimos ou se apresentam anônimos. Assim, é fácil. Até eu tenho coragem de descer a lenha. E o que os detratores falam é uma réplica do canto desvairado do empregadinho mantido por cargo comissionado. Você se diverte.
Mas ao chegar às mensagens que livram a sua cara, você se comove. São pessoas conhecidas. Assinam com nome e sobrenome. Dão peso à opinião. Só o nome de quem assina já vale mais do que todas as baboseiras de quem ataca. Você se sente uma pessoa privilegiada. No meio do anonimato geral, da artilharia dos otários, há nomes que se ligam ao seu.
O idiota só tem seus asseclas inexistentes.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

LITERATURA CIUMENTA

Acompanho o escritor Eustáquio Gomes desde meados dos anos 80, mas só recentemente comecei a me corresponder com ele. Assessor de imprensa da Unicamp, viveu sempre de seu trabalho burocrático, sonhando com a aposentadoria. Um ano antes de fechar o tempo, tirou as licenças a que tinha direito e se dedicou ao projeto de uma vida. São deste período os fragmentos de sua correspondência que reproduzo aqui.

12 de outubro de 2009:
“Meus planos são simples: 1) terminar o romance A guerrilha dos poetas em 2009 (está bem encaminhado). 2) Em 2010, terminar a novela curta interrompida (A lemniscata) no primeiro semestre e, no segundo, escrever um outro romance já armado, Delenda Caicó. Para além disso, horizonte em aberto. No fundo, feliz de sentir que estou aprendendo. As dificuldades com A guerrilha, sobretudo quando já o supunha pronto, me ensinaram bastante sobre estrutura do enredo e equilíbrio da forma. Agora que tenho tempo vou descobrindo minhas insuficiências. Já não vale o álibi de que o emprego etc. E a luta fica mais ferrenha.”

8 de novembro de 2009:
“Eu tenho a sensação de roubar tempo à escrita quando me sento para parir (literalmente) a crônica semanal. E sempre deixo para a última hora. Tento reavivar meu interesse escrevendo séries temáticas ou afins, de modo que possam vir a compor livrinhos mais ou menos coesos. O José Carlos de Oliveira apegou-se a esse recurso e acabou escrevendo dois romances no seu espaço no Jornal do Brasil. Mas isso só foi possível porque ele era cronista de quatro dias por semana, uma loucura. Mas também só fazia isso na vida. Assim nasceu aquele livro de título belíssimo, Um novo animal na floresta que, contudo, não é um bom romance (a crônica o traiu) e também um outro editado pela Ática, Domingo 22, a que ninguém deu bola. Depois ele morreu.”
29 de março de 2010:
“Com a aproximação da aposentadoria (em junho, por ora ainda estou de licença-prêmio), o reitor está me fazendo um cerco feio para que eu me aposente e seja recontratado. Dois dias por semana, ele diz e me oferece mais da metade de meu salário atual. Não vou aceitar. São dessas recusas que a mãe literatura gosta. Até porque não sou tolo: esses dois dias são enganosos, logo eu estaria trazendo trabalho para casa.”
03 de abril de 2010:
“Patinei durante duas décadas travado por não sei que obstáculos, talvez pelo trabalho excessivo e pelo cansaço das noites mal dormidas (nunca dormi bem, só agora o tempo livre me permite um descanso real). Mas a obsessão é tanta que vou tentar o inusual: uma obra depois dos 57 [anos]. Dentro dos limites pessoais, não é impossível: Maupassant, que era um infeliz, construiu a dele em dez anos.”

4 de abril de 2010:
“Em 1988/89 achei que estava condenado: arritmias, felizmente não sistêmicas, mas conjugadas ao estresse me davam uma sensação de morte iminente. O cardiologista me indicou um psiquiatra. Não fui (nunca fui) e me matriculei numa academia. Natação. No primeiro dia não dei conta de uma centena de metros. Meio ano depois eu fazia 800 metros. Mais seis meses e eu fazia 2.000 metros. Hoje baixei para l.000, mas numa piscina maior, num clube aqui perto de casa. Se não desapareceram de todo, as arritmias só se manifestam quando durmo mal dias seguidos ou algo não vai bem. Sem bravata, eu me sinto mais desempenado que aos 35.”

24 de abril de 2010:
“Eu estou concluindo a última (ultimíssima) revisão de A guerrilha dos poetas. Nas horas favoráveis, fico achando que ficou bom pra cacete; depois vou baixando a bola.”

10 de maio de 2010:
“Eu já estava afiando os dedos para iniciar uma ficção nova quando surgiu uma coisa inesperada que não posso deixar passar: a proposta de um grupo que faz livros de arte de transformar um diário que tenho de três temporadas em Paris num volume de capa dura, mesclando o texto com ilustrações fotográficas. Penso dedicar dois meses na montagem e melhoria do texto, não mais. Título: A biblioteca atravessada por um rio.”

31 de maio de 2010:
“No dia 22 próximo sai a publicação de minha aposentadoria. Já me apronto para dizer não à volta sub pecunia. Seria loucura total, uma rendição ignóbil, que a literatura ciumenta não perdoaria.”

01 de junho de 2010:
“Vou pela página 70 da novela nova, que não deve e não pode passar de 110. Claro que será preciso reescrever. Mas espero terminar tudo em maio e começar outra coisa. A guerrilha, que de fato dei como terminado, deixei descansando um pouco na gaveta. Coragem a do Cristovão Tezza, hein, de chutar o balde da carreira docente. E de anunciar isso publicamente. Em tese, ele tem razão: a literatura é absolutista.”

O último e-mail que recebi dele foi no dia 4 de julho e ele falava da edição de A guerrilha dos poetas, acertada com Luciana Villas-Boas, da editora Record. Eustáquio estava enfim de bem com a mãe literatura, depois de uma vida funcional exemplar, e de ter mantido viva a chama da escrita, principalmente pelo cultivo de um diário – trechos dele foram publicados em Viagem ao centro do dia (A Girafa, 2007), onde esta luta contra a rotina funcionária é descrita. Tudo estava pronto para ele começar a sua obra. No dia de assinar a aposentadoria, Eustáquio teve um AVC. Depois de semanas internado, sobreviveu. Tragicamente, ficou cego (não pode escrever) e mudo (nem ditar as histórias que devem continuar vibrando em seu interior). Torço para que isso seja passageiro.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

AFASTAMENTO

Das perguntas de meu filho que não sei responder, uma é recorrente.
– Por que tem casas lá longe? – ele questiona isso quando está no banco de trás do carro, em sua cadeirinha de pequeno déspota, olhando a paisagem.
Moro em uma cidade montanhosa, o que permite que se vejam casas distantes, campos agricultáveis, fábricas e a rodovia. Meu filho enxerga uma casa a quilômetros de onde estamos e não entende a razão de alguém morar lá.
Antônio está com três anos. Como todo tímido, é extremamente observador. Não deixa passar nada. E tem uma tendência para o mando.
Quando me pede algo e eu não faço imediatamente, reclama:
– Mãe, o pai não quer me obedecer.
Ele inverteu a situação, colocando-se no lugar do adulto que exige obediência das crianças.
Ao chegar do serviço ou de uma viagem, ele me olha com severidade e diz:
– Han! Estou muuuito chateado. Onde você esteve?
Eu me sinto o filho adolescente voltando para casa depois de uma fugidela e levando uma prensa do pai. Como convive a maior parte do tempo com adultos, ele incorpora as nossas falas e a nossa identidade.
Um outro fator para este comportamento é que aqui em casa damos atenção às crianças. Interrompo uma conversa seja com quem for para responder a uma pergunta, peço a opinião de meus filhos, vou ver o mosquito que ele matou numa expedição perigosa pela garagem. Talvez eu esteja fazendo tudo errado (aliás, eu sempre estou fazendo as coisas de uma maneira errônea) e o certo fosse eu colocar limites, como minha mulher sempre pede. Mas não consigo.
Fui criado numa família em que a criança não existia para o mundo adulto. Meu padrasto não respondia a nenhuma de nossas perguntas. À mesa, comíamos o que a mãe colocava no prato. Quando tínhamos visitas, a nossa refeição era servida antes ou em outro lugar. O mundo era dos adultos, e nós podíamos apenas espiá-lo.
Resultado: tenho uma sensibilidade extrema em relação a esta idade, quando os olhos infantis nos lançam as dúvidas que não conseguem ser articuladas pela linguagem.
Assim, é uma criança de três anos que manda em casa. Enquanto está acordado, ele decide o canal da televisão – e se irrita quando alguém muda a programação numa ausência temporária dele.
– Quem tirou os meus desenhos?
Voltamos correndo para os desenhos, e ficamos ali com ele, todos reunidos em torno da única televisão de casa (isso é um ponto de honra para nós: não ter outros aparelhos para não dispersar a família).
Quando a criança é o centro de uma casa, os nossos desejos de adulto ficam prejudicados, não fazemos aquilo que faríamos, a conversa não ocorre sobre os assuntos importantes do momento. Há uma subversão.
Andando pela cidade, sempre com o filho junto, pois não temos familiares com quem deixá-lo, o infante tenta entender o mundo. Se vê um mendigo ou um bêbado, identifica imediatamente o sofrimento do outro. E, com os olhos tristes, pergunta:
– Cadê o pai e a mãe dele?
Desde o início, falamos a verdade.
– Devem ter morrido.
Ou:
– São velhinhos demais e não podem cuidar do filho.
Antônio acompanha o outro com grande interesse. Para ele, é inadmissível que as pessoas fiquem sozinhas, nem mesmo os cachorros de rua deveriam viver assim:
– Onde está a mamãe dele? – repete a mesma pergunta quando vê um cão doente.
Se a deseducação que lhe dou faz com que tenha uma voz impertinente em muitos momentos, quero acreditar que também esteja formando o se caráter. Saber-se importante é o primeiro passo para reconhecer importância em toda forma de vida.
É isso que leio em algumas de suas atitudes afetivas. Do nada, em momentos mais improváveis, ele se aproxima e nos beija, dizendo uma de suas frases prediletas:
– Pai, eu te amo você.
A intensidade de seus sentimentos fica expressa na duplicação pronominal.
Não temos respostas a algumas perguntas que ele nos faz, mas aos poucos ele vai construindo percepções para seu próprio uso. Por isso talvez pergunte tanto, não para colher uma certeza qualquer, mas para se familiarizar com os vazios da condição humana.
Ele que vive tão próximo dos pais e da irmã, que manda e desmanda na pequena família, que determina a programação da tevê, que tem o direito de se intrometer nas conversas, de interrompê-las, enfim, ele que é o centro de nosso mundinho tenta entender como pode haver pessoas distantes.
Por isso pergunta:
– Por que tem casas lá longe?
Eu poderia responder:
– Elas não estão tão longe assim. Você pode ir até lá.
Mas acho que ainda é cedo para ele percorrer este caminho inevitável.
Então me calo.

in Gazeta do Povo (Caderno G), 19 de outubro de 2010.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

PARÊNTESES

(Uma casa primeiro é sonhada.)
Entramos em cada um de seus cômodos mesmo com portas e janelas fe­­chadas. Olhamos o ho­­rizonte do terraço. Há uma luz que lambe a madeira do piso, uma madeira que ainda nem está disponível. Esta nesga de sol resseca, na verdade, a madeira verde na árvore, plantada a centenas de quilômetros, numa ma­­ta cheia de sons e plantas e animais. Virão daquela região escura e distante os caibros que um dia serão deste telhado.
(A casa se ergue no meio do nada.)
Eu vejo a água passando no rio, movendo bancos de areia. Lavar o minério, purificá-lo, tirar dele todo o barro. Há equipamentos que em breve serão construídos para retirar das margens deste rio a areia que, agregada por ou­­tros elementos – água, cal e cimento –, cobrirá as paredes da casa. Estão ainda dispersos no planeta, pertencem a reinos distintos, mas um dia se unirão na betoneira para vestir os tijolos.
Os próprios tijolos, filhos recentes da criação, ainda ontem eram a argila bíblica, estavam informes numa região não muito distante, quando os tratores recolheram a matéria mole, sujando as rodas no atoleiro, e a levaram para a cerâmica. A argila foi batida, ganhou forma, os furos deixaram-na airada e leve, depois ela passou pelo forno, e ficou descansando, como um pão de barro.
Quando os tijolos se erguerem sobre o traçado de nossa imaginação, quando as linhas na planta se fizerem paredes, e sobre elas se assentar a laje de proteção contra o vazio do universo, e as telhas vierem para acolher os pássaros, nós não nos lembraremos da cara suja dos tijolos, da sua natureza frágil, de sua vida de lama, mas serão eles, os tijolos, a parte mais humana.
Por isso você se comove com as construções precárias que não ganham reboco. Você não vê ali só o tijolo. Vê pessoas, o barro original. Sabendo ser preciso adiar o retorno.
E assim, com acréscimos – na parede uma cor clara, e também uns quadros, os rasgos de vidro e janela, uma paisagem que se insinua, a luz fugaz da lua – ir vestindo a matéria bruta.
O risco que um dia será casa ganha móveis, novos e antigos, recebe tapetes, pisos cerâmicos; uma casa é uma coleção de detritos, de objetos em negativo, que já não brigam entre si, que antes se protegem, que se somam, formando uma única coisa, e tudo isso que agora é matéria em conflito, aproximou-se pelo nosso sonho.
(A casa é a harmonia possível em meio ao pandemônio.)
Os pregos, o cimento, os encaixes, os parafusos, enfim, as coisas de unir são propriamente a casa. Sem elas, a madeira não se ligaria à viga de concreto, a areia não colaria seus próprios seres em fragmento, os tijolos ficariam sem sustento, as janelas e portas não amariam as paredes.
(Casa, junção de materiais os mais diferentes.)
Meu padrasto gostava de viajar para as casas dos parentes. Enchia o carro e fazia a romaria pelos locais de antes. Dormíamos em colchões na sala, provávamos os temperos mais fortes, ouvíamos conversas sobre gente morta, gente que não conhecêramos e das quais nem guardamos os nomes, e mesmo assim elas continuam conosco no escuro do sótão. Íamos pelas cidades participando da vida dos outros. Meu padrasto exigia que pedíssemos bênção a todos. Alguns nem eram parentes, conhecidos apenas, compadres de alguém da família, e nós, crianças crédulas ainda, estendíamos as mãos para aqueles estranhos, numa comunhão antes de tudo humana.
(A casa erguida mano a mano.)
O edifício que imaginamos ainda não tem corpo. Mas tem tantas paredes, passagens secretas que nos levam a lugares e a pessoas sem nomes. Viemos ao longo dos anos fabricando os tijolos de barro que somos. As mãos se fizeram cimentos. Beijos e abraços, pregos impertinentes. Erguemos colunas. Tentamos dar asas às telhas.
É antes, quando inexistente, que a casa é mais sólida, pois no projeto nada se deteriora. A casa em que moraremos um dia nasce aos poucos. Os pedreiros hoje não vieram trabalhar. Faltou material. Estamos esperando chegar os pisos. As chuvas atrasaram o cronograma.
(A casa se constrói apenas em finais de semana.)
Não há pressa. Faz quase 50 anos que erguemos com a matéria dos sonhos um lugar nosso. Mas que ele não seja apenas nosso. Que tenha fantasmas. Mesmo uma casa nova é assombrada, traz esqueletos concretados em colunas e vigas, pois onde há homem sempre há mortos, esta multidão que comigo mora.
Construímos a casa também com a matéria do que já não existe. O sol que entra pela porta vem de uma época extinta. A água com que se faz a argamassa é a da chuva de nossa infância. As tábuas são de árvores cortadas há muitos anos.
(A casa é um improvável reencontro.)

sábado, 9 de outubro de 2010

UM PAÍS CHAMADO SERTÃO

Estive esta semana em Pau dos Ferros, sertão do Rio Grande do Norte, a convite da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), para um colóquio de Letras. O pessoal de lá tem um grande entusiasmo que contagia a gente.
E há toda uma preparação para esta passagem a um outro Brasil.
Descemos em Natal, depois de horas de vôo, perto da meia noite. Dormimos na capital e, pela manhã bem cedo, seguimos de carro para a cidade que fica no extremo do Estado, numa região que chamam de “tromba do elefante”, imagem sugerida pelo mapa do Estado. Antes pararíamos em Mossoró, para pegar o outro escritor, o cordelista Antônio Francisco.
Eu jamais ouvira falar nele, por conta deste isolamento em que vivemos. Poetas populares não transitam no mundo literário do Sul e do Sudoeste, para azar nosso.
A viagem de Natal a Pau dos Ferros, com a escala em Mossoró, seria de 8 horas. Mas não sentimos passar o tempo. A paisagem árida, as imensas pedras espalhadas pelos campos ressequidos (onde só estão verdes os cajueiros e as carnaúbas), as casas humildes – todas agora com uma cisterna, construída pelo governo federal – e mais a conversa do motorista (seu Canindé) e do poeta aceleraram o tempo. Para um escritor essencialmente urbano, este contato com o Brasil é uma dádiva. Fiquei atento a tudo.
Antônio Francisco declamava seus poemas, falava da região, cantava. Ex-ciclista, conheceu o estado inteiro no selim de uma bicicleta. Fez várias coisas na vida, mas foi principalmente como pintor de placas que sobreviveu.
Um dos 17 filhos de um casal pobre, teve uma vida dura. Conseguiu fazer o curso de História na UERN porque era no período da noite, mas seu sonho universtiário não se realizou: freqüentar as aulas de Educação Física, ofertadas apenas durante o dia.
Já homem maduro, depois dos quarenta, retorna a uma prática infantil.
Como seu pai fora fascinado por cordéis, o filho pôde aprender a ler nestes folhetos que circulavam na casa de taipa. Logo ele dominava estas estruturas literárias.
E as pessoas da família pediam para que ele lesse os poemas. E Antônio Francisco fazia isso com muito prazer, dando voz às histórias. Quando um texto estava muito chato, ele inventava versos mais exuberantes.
Nem imaginava que inventar versos e representá-los seria a sua profissão de madureza.
No meio do caminho de sua vida, redescobre os cordéis e começa a publicar, fazendo-se um dos nomes mais representativos do gênero – com orgulho, ocupa a cadeira número 15 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), que antes pertencera a Patativa do Assaré.
Durante o evento em Pau dos Ferros, com o auditório lotado, Antônio Francisco foi saudado como um herói. O público aplaudia todo vez que seu nome era pronunciado pelo cerimonial. E os aplausos aumentaram quando ele começou a falar seus poemas.
Poemas críticos, que tratam de assuntos próximos de todos, sem fazer distinção entre vida e arte. A formação de historiador deve ter contribuído para esta revolta contra as injustiças. Mas há também o viés memorialístico, o passado vivido não como exílio, mas como exemplo. O poeta é menino de calça curta e chinelas, como ele mesmo diz em seu discurso de posse na ABLC – o discurso é todo em versos.
A força de uma voz. A resistência de um olhar.
Seus livros bem cuidados circulam impressos e declamados. Uma estudante falou um de seus cordéis mais longos. Outros sabiam trechos de cor. O poeta não é apenas dono de uma voz popular, ele próprio tem uma grande popularidade.
Por tudo isso, foi uma tarde inesquecível. No final, trocamos livros. Eu lhe dei a coletânea Primeiros contos (Arte e Letra, 2008) e ele me mandou Dez cordéis num cordel só (Queima Bucha, 2006). Está na oitava reimpressão, já devidamente esgotada.
No meio daquela paisagem de negatividade, chamam a atenção as pedras (que se sobressaem no solo desnudo) e os cajueiros – verdes e com copas generosas no meio do marrom acinzentado que matiza os campos. Não tem como não se deixar fascninar pelos cajueiros que não se rendem à seca e pela beleza rude das pedras. A paisagem ensina – como queria João Cabral de Melo Neto – uma força de linguagem. Esta pedagogia não é só a da a pedra, nem a da seca ou a da faca, é a pedagogia dos cajus cheirosos também.
Enquanto enfrentávamos a estrada, os vidros do carro fechados, ficamos atrás de um caminhão carregado de caju. O cheiro era tão forte que se fez um silêncio reverencial. E depois explodiram os comentários.
Assim também aconteceu quando Antônio Francisco espalhou sua palavra no auditório. Silêncio e êxtase.
Onde não chove, a palavra é muito mais forte.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O GRANDE AUSENTE

In Gazeta do Povo,"Caderno G", p.3, 05 de outubro de 2010.


A morte de um autor desencadeia um senso de justiça que é muito mais difícil de ser praticado com a pessoa viva. Este sentimento nobre que a morte aviva pode se manifestar de várias formas – artigos críticos, dossiês, rememorações, homenagens as mais diversas, e também reações histéricas. Sim, mesmo as reações de histeria acabam incluídas neste movimento de enunciar um autor.
Nenhum, no entanto, é mais legítimo do que a vontade de leitura que surge quando sabemos que um autor morreu e ainda não o lemos. O leitor é tomado por um remorso que o responsabiliza perante um legado. E se processa o retorno à obra da pessoa recentemente morta.
Outro movimento decorrente deste impulso é a republicação ou publicação dos livros daquele que subitamente se fez o grande ausente. Mais do que interesse comercial, a publicação de suas obras representa também uma tentativa de preencher o espaço antes ocupado pelo autor. No lugar dele se coloca a obra, garantindo uma plenitude outra, a da palavra.
Tendo sido uma presença forte na cultura brasileira desde os anos 50, Wilson Martins (1921-2010) passou por momentos de grande prestígio intelectual e por outros de ostracismo. Mas suas análises críticas, pela independência, sempre eram acontecimentos na vida literária brasileira, mesmo depois de ele ter sofrido um rebaixamento midiático. A centralidade de uma obra não está no seu local de circulação, mas na sua força crítica. E esta força nunca faltou aos artigos de Wilson Martins, nem quando, profissional exposto à ingrata tarefa de ler primeiro, ele errava feio em seus julgamentos.
Assim, no começo dos anos 1990, quando volta a Curitiba (depois de 30 anos lecionando nos Estados Unidos), e começa a recolher seus textos de jornal na série Pontos de vista (pela T.A.Queiroz), Wilson Martins se encontra isolado, apesar dos terremotos gerados a cada artigo seu.
No início de minha militância crítica, aqui na Gazeta do Povo, jornal que acolheu Wilson Martins no seu retorno ao Brasil, escrevi alguns artigos sobre ele. Sem ainda o conhecer pessoalmente, recebi cartas dele, nas quais falava deste exílio. Em 06 de maio de 1994, escreveu: “Estou relendo na Gazeta [do Povo] o seu consagrador artigo. Minha satisfação é tanto maior quanto seus comentários acertaram na mosca, ao mesmo tempo em que abalaram o muro de silêncio que se ergueu ao redor dos Pontos de vista”. Depois de outro texto meu, sobre o volume seguinte desta série, ele volta ao assunto em 26 de dezembro do mesmo ano: “Recebo o seu artigo como o melhor presente de Natal e recompensa da persistência com que me mantive na estacada. Ai de mim! Sou o último dinossauro”.
Aos poucos, este muro de silêncio foi sendo abalado por outras vozes, que reconheceram o trabalho de Wilson Martins, mas este reconhecimento ainda está nas fases iniciais. Alguns de seus livros voltaram a circular – como A palavra escrita (Ática, 1998), A idéia modernista (Topbooks, 2002), A crítica literária no Brasil (Francisco Alves, 2002) e as reuniões de O ano literário (Topbooks, 2005/2007), mas faltava o principal, reeditar a enciclopédica História da inteligência brasileira. E é esta tarefa desmedida que a Editora UEPG (da Universidade Estadual de Ponta Grossa) acaba de concluir solitariamente.
Foram anos de trabalho para fazer a digitação, as conferências do autor, a revisão ortográfica, o projeto gráfico e o índice onomástico das 4.600 páginas que compõem este que é o maior ensaio escrito por uma única pessoa na literatura brasileira. A reedição estava concluída quando Wilson Martins morreu. (E agora é lançada na Bienal do Livro do Paraná, na esperança de que seja um dos marcos de uma nova fase editorial em nosso Estado.)
Anos atrás, uma revista especializada fazia uma matéria elegendo a História da inteligência brasileira como o livro mais plagiado no ambiente universitário. Ela foi fonte de muitas cópias indevidas não apenas em trabalhos acadêmicos, mas também nas recuperações de autores esquecidos da literatura brasileira. A produção de Wilson Martins permanecia secreta, não era muitas vezes nem citada nas teses, dissertações e ensaios, mas estava no interior deles.
Como poucos conheciam ou reconheciam o ensaio, ele podia ser saqueado à vontade. Esta reedição dentro do circuito universitário quer colocar Wilson Martins à disposição do leitor interessado em compreender o movimento das idéias no Brasil. Pela natureza arquivista desta obra, há uma riqueza imensa de dados e de avaliações, dotando-a de um valor único – ela funciona como uma imensa biblioteca reduzida a dimensões legíveis.
A sua republicação é mais um esforço para abalar o muro de silêncio e para criar uma vontade de leitura que seja uma convivência intensa com um autor que, quando vivo, a cultura brasileira desperdiçou.


Serviço: História da inteligência brasileira – 7 volumes (4.600 páginas). Valor da coleção: 270 reais.
Editora UEPG: 42 3220-3306. E-mail: editora@uepg.br

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

ENTREVISTA DO MÊS




Miguel Sanches Neto é ficcionista, poeta e crítico literário. Autor dos romances Chove sobre minha infância (Rio de Janeiro: Record, 2000 – traduzido para o espanhol: Llueve sobre mi infância. Barcelona: Poliedro, 2004), Um amor anarquista (Rio de Janeiro: Record, 2005), A primeira mulher (Rio de Janeiro: Record, 2008) e Chá das cinco com o vampiro (Rio de Janeiro: Objetiva, 2009) e da coletânea de contos Hóspede secreto (Rio de Janeiro: Record, 2003 – Prêmio Nacional Cruz e Sousa de 2002). De poesia publicou Inscrições a giz (Florianópolis: FCC, 1991 – Prêmio Nacional Luis Delfino), Venho de um país obscuro (Curitiba: Travessa dos Editores, 2000) e Abandono (Edição fora do mercado, 2003). Integrou o livro Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea (org. Rinaldo de Fernandes – São Paulo: Geração Editorial, 2006). É professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Tem doutorado em Letras pela UNICAMP.


Rinaldo de Fernandes – Você prefere escrever contos ou romances? Por quê?

Miguel Sanches Neto – Eu prefiro escrever romances, pois é um gênero que permite um contato com um espectro maior de leitores. Por sua forma mais aberta, em que entra tudo, tanto do ponto de vista dos elementos de linguagem quanto das tensões, o romance é uma aventura para o outro, para o diverso, para a impureza. E isso me agrada muito. A. Alvarez (em A voz do escritor) chama o romance de “monstro flácido”, ou seja, é uma forma literária que pode ser expandida por todos os lados. Se esta natureza ajuda o escritor a ampliar o repertório narrativo, é também um desafio. Fazer com que tantos elementos diferentes se unifiquem, tenham um corpo só seu. A busca de um equilíbrio entre extensão e tensão.

Rinaldo de Fernandes – Um amor anarquista é um romance histórico, no qual você retrata uma experiência anarquista no interior do Paraná. Como lhe ocorreu e idéia e como foi o processo de criação desse romance?

Miguel Sanches Neto – Este é um tema que me é muito próximo geograficamente. Convivi com descendentes dos anarquistas italianos que vieram para o Brasil no final do séc. XIX, tive acesso a documentos, pesquisas, fotos, memórias, e visitei o lugar da antiga colônia em Palmeira, enfim, convivi longamente com este episódio que me chamou a atenção pelas contradições. Num período científico do pensamento ocidental, um médico veterinário resolve pôr à prova o anarquismo em uma comunidade socialista. O centro de sua tese é que as mulheres deviam ter vários companheiros para que os filhos nascidos ali não fossem de um determinado pai, mas de todos. Era uma forma de vencer o egoísmo e, com ele, a visão proprietária do mundo. Ele inoculou no próprio corpo esta substância. Participou de uma relação poliândrica, e termina casado de forma burguesa com a mulher que serviu a tal experimento, criando os filhos dos outros homens que estiveram com ela. Eu quis entender então este processo. Há algo mais forte do que a ciência, do que ideologia, e é isso que modificava as pessoas. O desafio de romances históricos é contar a história sem estragar as estórias. Tentei fazer isso usando os recursos de cartas que dão conta dos acontecimentos e capítulos que colocam os personagens em cena. É meu livro de maior sucesso. O único que chegou à terceira edição.

Rinaldo de Fernandes – Houve em torno de Chá das cinco com o vampiro, seu romance mais recente, uma polêmica, na qual foi envolvido o grande contista paranaense Dalton Trevisan. Pode explicar o que houve? Você se tornou um inimigo de Dalton Trevisan?

Miguel Sanches Neto – A repercussão de meu romance Chá das cinco com o vampiro é que envolveu o contista Dalton Trevisan. Meu livro não se refere diretamente a ele, e eu não quis e não quero fazer julgamentos de pessoas. Escrevi uma narrativa sobre a perda das ilusões de um jovem que se dedica à crítica literária. Ele vai, em um crescendo, se decepcionando com os escritores com que convive. É um processo de formação pela desilusão. Se eu me desiludi com Dalton? Não apenas com ele, mas com a vida literária como um tudo. Então quis tratar deste processo dentro de um ambiente que eu dominava, transportando-o para o território da ficção. O escritor é um Midas da fantasia. Tudo que seu texto toca vira imaginação. Se há uma semelhança de origem com algumas figuras reais, a chegada do texto é totalmente ficcional. Este é um livro que concluí em 2002, e que ficou suspenso até agora, mas um livro, depois de escrito, por mais polêmico que seja, deve ser publicado. Embora o livro tenha tido uma exposição de mídia, eu continuo aqui na minha espaço-nave, longe das disputas e das intrigas. Vendo-se deformado no livro, o que é um direito de todo leitor, Dalton se colocou violentamente contra mim antes do livro sair – ele forçou o acesso a uma cópia do romance. Da minha parte, continuo admirando o texto dele, e até fiz a resenha de seu título mais recente – Desgracida (Record, 2010).

Rinaldo de Fernandes – O que acha da literatura de Dalton Trevisan? Você sofreu influência dele?

Miguel Sanches Neto – É o grande mestre do conto. Tem uma importância central na cultura brasileira. Ele mudou o parâmetro do gênero, levando-o a um minimalismo que começa com os personagens e destinos insignificantes para chegar a uma economia de meios própria da poesia. Ele tirou o peso da linguagem deste gênero, erotizando a escrita. No início de minha produção sofri influência deste estilo – basta ver os textos iniciais que reuni em Primeiros contos (Arte e Letras, 2008). Mas fazia parte da aprendizagem. Quando encontrei minha voz, descobri que éramos sensibilidades literárias antípodas. O que nos distancia é muito mais as nossas vozes do que as nossas diferenças pessoais.

Rinaldo de Fernandes – Como é seu processo de criação? Há algum impulso inicial incontrolável? Acredita em inspiração?

Miguel Sanches Neto – Eu acredito no ferimento. Só escrevo se sou ferido por algo. Cultivar esta ferida, tirar as suas cascas, queimá-la com a experiência, este é o meu processo de pré-criação. Quando a ferida está aberta, totalmente à vista, só carne viva, eu começo a escrever para cicatrizá-la. Para os contos, escrevo com muita rapidez, durante horas seguidas, trabalhando no piloto automático, porque convivi tanto com aquela história que quero contar/cicatrizar que não penso mais na hora de escrever. Os dedos, ligados diretamente ao meu centro nervoso, vão fazendo o trabalho curativo lá deles. Depois entra o olhar crítico, as revisões, os cortes, as substituições. Enfim, entra o intelectual que sou, com os equipamentos que adquiri. Com o romance, a coisa é mais complexa. Só consigo escrever dedicando-me integralmente a ele, dia após dia, durante um longo tempo. Não sei escrever romance aos pedacinhos. Então, só escrevo nas férias de verão, quando tenho 3 meses sem maiores atividades. Daí trabalho 12, 14 horas por dia. E ao longo das férias seguintes e dos feriados prolongados vou podando o grande monstro flácido.

Rinaldo de Fernandes – Acompanha os ficcionistas e poetas atuais? Que autores destacaria e por quê?

Miguel Sanches Neto – Já acompanhei até 2004, quando fazia crítica literária militante. Foram 10 anos de atividades críticas, mas chega uma hora em que temos que dedicar mais tempo aos escritores clássicos e à produção de nossa obra. Hoje, não possuo leitura suficiente para dizer quem é quem na produção nacional. Claro, leio alguns autores muito jovens, mas não sei dizer a importância deles em relação aos outros de sua geração. Eu me tornei um leitor privado.

Rinaldo de Fernandes – A literatura deve testemunhar a sociedade? É importante o escritor se envolver com a política? Por quê?

Miguel Sanches Neto – Nós temos preconceito em relação ao real. Mas a literatura, por mais ficcional e literária que seja, tem um funcionamento em verdade – como diz Foucault. Assim, tudo é legítimo quando escrito com uma intenção de arte. E tudo é ruim quando escrito com outras intenções. Em A primeira mulher (Record, 2008), criei um labirinto narrativo em torno de uma deputada que se candidata a prefeita. É um livro com raiz no nosso agora político. E foi meu livro com menor repercussão. Philip Roth, o grande nome da literatura norte-americana, é um autor que trata com alta densidade literária a realidade política de seu país. Outros de lá também o fazem, mas nós aqui queremos ser apenas Artistas, e tudo que conseguimos é ser literatos, com a lição de casa bem feitinha e a certeza de uma nota alta no final do semestre. Agora, escrever sobre as tensões políticas não tem nada a ver com engajamento político. Eu nunca me filiei a nada nem assinei manifestos. Sou um espião do real. Trabalho sozinho, isolado, e uso as observações para me compreender e não para me comprometer com uma causa.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

DESGRACIDA


O ESPIÃO
Sempre com um boné, cuja aba cobre seus olhos, e caminhando em linha reta, sem acompanhar o que acontece ao redor, o escritor Dalton Trevisan (Colombo, 1925) se desloca pelos mesmos trajetos há décadas – um pequeno tabuleiro da região central de Curitiba, que vai do Alto da XV, nas imediações da Reitoria da Universidade Federal do Paraná, ao extremo oposto do Centro, um pouco além da Praça Osório. Neste umbigo da urbe, ele se move incógnito e sempre desconfiado.
Tal obsessão por uma identidade anônima tem uma função literária. Permite que ele seja o espião de uma cidade que, a cada livro, fica mais delimitada. Coletor de histórias desde sempre, ele freqüenta um pequeno círculo de amigos, gente da mais variada procedência, garimpando casos, episódios, documentos e depoimentos pessoais – todo um material humano que será transportado para a sua linguagem e sua visão de mundo, em um processo de alquimia literária. Mudam os personagens e os dramas, mas a paisagem de fundo é sempre a mesma: a província perversa.

UM INÍCIO DE VIDA LITERÁRIA
Nem sempre, no entanto, Dalton Trevisan esteve afastado da vida literária. Na década de 1940, ele foi um dos centros periféricos da cultura nacional. Em uma delegação de rapazes, que se antecipou aos acadêmicos locais, ele participou do II Congresso Brasileiro de Escritores, em Belo Horizonte, em 1947, junto com jovens que faziam a revista Joaquim (1946-1948). Dalton unia as juvenilidades (lá estavam, entre outros, o poeta José Paulo Paes e os críticos Wilson Martins e Temístocles Linhares) para fazer uma limpeza do campo literário dominado pelo tradicionalismo da Geração de 45. Trevisan estréia assim como contista e editor de uma revista iconoclasta.
Nas páginas desta publicação, ele assina críticas contra grandes nomes locais e nacionais. Emiliano Perneta, ícone da poesia simbolista paranaense, é tratado, por exemplo, como um produto bairrista em um artigo intitulado: “Emiliano, poeta medíocre” (julho de 1946). Também se torna alvo da artilharia (em agosto de 1947) um escritor antes cultuado pelos jovens – o Monteiro Lobato de Urupês, acusado por Dalton de promover um “terceiro indianismo”, sucedendo os de I-Juca-Pirama (de Gonçalves Dias) e de Iracema (de José de Alencar). “Monteiro Lobato, ainda em vida, é um autor póstumo”, decreta o jovem Dalton.
O fato é que, neste período, o contista e o crítico literário se misturavam, e ele conquista uma presença forte na literatura brasileira, recebendo aplausos e colaboração dos maiores nomes da cultura nacional. Finda a revista, por um acúmulo de textos medíocres de colaboradores, que se publicados negariam a brigada contra a má literatura, Dalton se dedica a uma carreira solo, usando a mesma lógica da revista: imprime folhetos de contos e os manda, meio anonimamente, aos grandes intelectuais do momento. Eis o início do mito do escritor recluso.

PRÊMIO NACIONAL DE CONTOS
Depois de transitar neste grupo, que referenda sua produção (Temístocles Linhares e Wilson Martins escrevem em jornais de circulação nacional sobre sua obra), Dalton se une a um núcleo do Rio de Janeiro, criado em torno de Otto Lara Resende e Rubem Braga. É o seu ambiente de maturidade, onde se fortalecerão suas idéias de uma literatura leve, lírica, erotizada, fiel aos pequenos nadas da vida. Agora já é um Dalton Trevisan consagrado como mestre. Este reconhecimento vem com o Prêmio Nacional de Contos de 1968, promovido pelo Governo do Paraná. Dalton vence, deixando para atrás, entre outros, Lygia Fagundes Telles, Luiz Vilela e Ignácio de Loyola Brandão. Na comissão julgadora, gente de peso, como Fausto Cunha, Rubem Braga, Peregrino Junior, Autran Dourado e Ledo Ivo.
Na entrega do prêmio, Luiz Vilela entrevista o autor para o Jornal da Tarde (06 de julho de 1968). O escritor curitibano fala de contos baseados em histórias de amigos e de parentes, pede para que os nomes das filhas constem na matéria e, depois de se deixar fotografar, e vendo o resultado, confessa: “Puxa, não é que estou bacana aqui? Estou começando a gostar dessa coisa toda...”. Apesar de uma timidez crônica, reconhecida por todos que conviveram com ele, principal determinante do mito do vampiro, ele se mostra extremamente afável e de bem com a mídia neste momento de consagração – estava com 43 anos. Mas acontecerá justamente o contrário e ele seguirá uma rota cada vez mais reclusa, potencializando a sua timidez, fugindo ao confronto direto com muitas pessoas reais que serviram de modelo a personagens nada agradáveis, garantindo uma liberdade para levar uma existência normal entre pessoas que logo se tornariam matéria literária – dentro da lógica realista de sua literatura. Enfim, solidificou-se o mito paralelamente ao sucesso de público.

A MAIOR PERSONAGEM
Temístocles Linhares, que acompanhou toda a carreira do contista, reclama da ingratidão do amigo no dia 04 de outubro de 1982 (o trecho está na coletânea Diário de um crítico, vol. VI), depois do grande sucesso de Essas malditas mulheres (1982), livro que sai pela Record com uma tiragem inicial de 20 mil exemplares, quando Trevisan já é o maior contista do Brasil: “É certo que Dalton Trevisan nunca foi muito acessível. Era sempre muito difícil aproximar-se dele. Mas isso não acontecia com os amigos ou as pessoas mais chegadas. Agora, porém, estas também são evitadas. Cada vez mais isolado, ele não procura ninguém, a não ser conhecidos eventuais, mas não de seu nível intelectual. Não só as suas personagens que são neuróticas e mesmo monstruosas. Assim, agora só resta a Dalton escrever a sua autobiografia. Ele próprio, quer me parecer, seria a sua maior personagem”.

ACERTOS DE CONTA
Com este crescente isolamento do autor, que insiste em dizer que só a obra tem valor, seus livros vão passar a se encher de recados contra desafetos, textos respondendo a provocações, e algumas avaliações críticas. É uma forma de rascunhar a própria biografia, ocultando-a no meio dos textos de ficção e lhes dando o mesmo status. O caso mais famoso é o argumento que nega as leituras modernas de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Dalton defende uma leitura contextualizada do livro em “Capitu sem enigma”, em Dinorá (1994), e depois ficcionaliza a questão em Capitu sou eu (2003). Entre as inúmeras passagens em que ele usa o espaço ficcional para desancar desafetos, há alguns casos em Dinorá. Com as acusações “Santíssima e patusca” e “Edu e o cheque”, em que ele, respectivamente, destrata uma professora universitária que usou trechos de sua correspondência numa dissertação de mestrado e acusa um grande amigo da infância, advogado que cuidava de seus negócios, de ter roubado um cheque.

MULHERES
A presença do não-ficcional, antes periférica, foi se intensificando nos últimos livros e ganha uma centralidade no volume Desgracida (Record, 2010), volume que passa a figurar entre os mais importantes do autor. Dividido em duas partes (“Ministórias” e “Mal traçadas linhas”), ele retorna aos combates da revista Joaquim. Na primeira seção, composta de pequenos contos, há um texto central, que religa o autor ao tempo em que empreendeu a cruzada contra os passadismos simbolistas do Paraná. Em “Emiliano revisitado”, Trevisan zomba da poetisa paranaense Helena Kolody (1912-2004), comparando-a a uma santa popular. Aqui, ele reescreve o artigo “Emiliano, poeta medíocre” para negar um lirismo galvanizado, sem conexão com o tempo presente, vendo em Helena Kolody a permanência desta tradição, posteriormente valorizada por Paulo Leminski. Neste momento do livro, encontramos contos propriamente ditos, mas também meras piadas, aforismos, citações, poemas de amor, sobressaindo entre eles “Marishka” e “Iluminação”. O primeiro é um canto amoroso para uma mulher fatal, significativamente uma referência cinematográfica (área de onde descende boa parte das imagens de Trevisan) à mulher do conde Drácula. Longe das Marias de suas narrativas provincianas, as diabas em forma de fêmea, as desgracidas do título, ele elege um ideal feminino universal, centro de todas as afetividades e erotismos.
Se este texto é mais um poema, “Iluminação” é um conto antológico, que retoma a temática do amor. O narrador volta a um bairro polonês da região, onde ele teve o primeiro deslumbramento sexual, em busca da fêmea de outrora. Ele a encontra morta, sendo velada numa casa simples. Entra para vê-la no caixão, uma das filhas a descobre e ele se depara com uma “velhinha de novecentos anos”. Este conto faz referência a dois textos clássicos da literatura brasileira – a narrativa “Viagem aos seios de Duília”, de Aníbal Machado, e o poema “Alumbramento”, de Manuel Bandeira. Nesta viagem às coxas brancas da antiga polaquinha, ele não lê apenas a velhice da mulher um dia desejada, entrevendo agora as pernas da filha – reprise da epifania de outrora. O conto é perfeito, breve e intenso, apresentando um retrato cruel do bairro curitibano, um dos pontos da geografia afetiva do autor: “As polacas da Cachoeira bebem cachaça no sábado. A gente encontra todas as polacas bêbadas. Que voz mais rouca. Que canto mais triste. Cambaleiam ao sol. Você as derruba no mato”. Passado e presente se misturam neste conto, mostrando um narrador unido a um espaço desejante, na sua eterna busca pelo sexo.

CARTAS TARDIAS
Mas é na segunda parte do livro que está o valor de Desgracida. Nunca antes em sua obra o homem Dalton Trevisan esteve tão à mostra, embora sempre estivesse sugerido. O discurso crítico já se manifestara em outros livros, mas agora as suas opiniões dão vida às cartas que ele escreveu aos seus amigos mais próximos: Pedro Nava, Rubem Braga e Otto Lara Resende. Tendo sempre ocultado os documentos íntimos, Trevisan publica como conto algumas confissões que são valiosos documentos sobre a sua obra e que têm um poder de polêmica muito grande. Nelas, comenta leituras, avalia autores, elogiando uns e negando outros. Por meio destes textos, todos saborosíssimos, ele apresenta uma verdadeira arte da escrita ao recuperar estas avaliações que, em momentos distintos, ele enviou a interlocutores reais. Apenas uns poucos não nasceram como carta, figurando apenas como opção textual por este gênero. Mas a maioria integra a correspondência do autor principalmente com escritores a quem ele admirava.
Nestes seus comentários até então de circulação fechada, Dalton busca modelos literários em outras culturas. Diz, em um dos aforismos da primeira parte, que Fernando Pessoa só foi um grande poeta porque, desde a infância, aprendeu a escrever e a pensar em inglês. A mesma tese ele aplica, em uma das cartas, aos diários de Helena Morley (Minha vida de menina): ela escreveria bem em português porque pensava em inglês. Sua bronca não é com qualquer autor específico, mas com um padrão de pensamento e de escrita marcado por platitudes. Recusa também a chatice literária, pecado creditado ao Proust de Em busca do tempo perdido, e também ao Guimarães Rosa de Grande sertão: veredas. Sobre este, ainda acrescenta que lhe faltam a alma de romancista e a noção de verossimilhança, tendo Rosa criado uma mulher travestida de homem que seria facilmente reconhecida por qualquer um. Ele elogia o Rosa cronista, mas diz que o autor “pensa convencional”: “A forma seria inovadora, mas o fundo é reacionário” (p. 232). Este texto está ligado a outro artigo de Dalton, também publicado na revista Joaquim, sobre Monteiro Lobato. Diz ele agora, como se continuasse o anterior: “Rosa é herdeiro de José de Alencar, epígono do novo indianismo”. Com esta carta (datada de 21 de fevereiro de 1968), Trevisan abre novas perspectivas para avaliar Guimarães Rosa, revolucionando – ou ao menos tumultuando – a recepção de sua obra.

AS ADMIRAÇÕES
Os autores-chave para Dalton, revelados por estas cartas, formam um pequeno grupo. No Brasil: Pedro Nava, tido como superior a Proust. Rubem Braga, com suas crônicas puro cotidiano, é uma espécie de irmão de Montaigne e de Machado de Assis. Extasia-se com Helena Morley. E elege Otto Lara Resende, seu maior interlocutor, o autor de uma grande obra que poderia ter sido e que não foi. Dalton exige do amigo que ele escreva o livro-síntese que o seu estilo e a sua visão do mundo anunciam. Na literatura estrangeira, ele idolatra o francês Léautaud (“Desabusado, irreverente, contestador”, diz em uma das missivas), autor de diários ferinos e obscenos. E ainda lê Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez, como uma das obras-primas da modernidade. Para Dalton, no panteão da grande literatura se encontram o contista Anton Tchékov, um santo leigo, e o seu equivalente nacional, Machado de Assis.

RECEITA LITERÁRIA
Eis o que faz, para ele, uma grande literatura: uma linguagem agradável (próprio de uma concepção erótica do idioma), um olho atento para a realidade, fidelidade aos mitos da infância, uma capacidade de criar personagens em carne e osso, com os quais o leitor sofra e aprenda, uma experiência de vida, uma aversão a qualquer oficialismo ou artificialismo, uma originalidade de espírito. Ele próprio define a arte literária: “o que se espera de um bom e vero escritor [é] o strip-tease do coraçãozinho esfolado e ainda pulsante”.
É justamente isso que encontramos nos melhores contos deste livro, que ainda tem o valor adicional de apresentar fragmentos de uma espécie de autobiografia, como queria Temístocles Linhares. Uma autobiografia, no entanto, intelectual.