terça-feira, 30 de novembro de 2010

AMAR PALAVRAS

Os contos de As certezas e as palavras, de Carlos Henrique Schroeder (Editora Casa, 2010) contam com uma arquitetura que dá unidade aos textos que enfeixam o livro. Lemos o volume percebendo esta consciência estrutural. Se cada uma das peças tem independência, o que mais se destaca é o conjunto.
Este conjunto, que vai do aforismo ao conto propriamente dito, apresenta um fio condutor: a idéia de que não há fronteira entre vida e literatura. Os personagens e a voz narrativa dos contos estão sempre criando esta contaminação do vivido pelas imagens e pelos possíveis da literatura. Ao desfazer tal fronteira, Schroeder não quer levar o realismo das experiências cotidianas para o espaço literário, mas empreender o inverso. Transfere para a vida dos personagens as metáforas e o poder das palavras. São as palavras, neste seu estado de abertura ficcional, que corroem as certezas – e esta é uma possível explicação para o título.
Pessoas e obras são colocadas no mesmo nível. E, para alguns dos personagens, só é possível amar alguém quando este amor é mediado por um livro. Assim acontece com o narrador de “Não diga noite”, que fotografa a amada ao lado de livros para poder amá-la mais intensamente. E é a mesma paixão mediada que se manifesta no relacionamento de Gustavo e Anderson, em “Ponta de lança”. O amor morre diante dos textos fracos que Gustavo escreve, e esta frustração literária e amorosa o leva ao suicídio. Mas o sucesso póstumo de uma peça de teatro sua devolve a intensidade de sentimentos a Anderson.
Nestes contos, o homem é antes de mais nada um ser encadernado, um ser de cultura. Ler As certezas e as palavras é vagar entre prateleiras, lendo as muitas inscrições que sinalizam o caminho.

Para quem não conhece o livro, pode baixá-lo gratuitamente no http://www.carloshenriqueschroeder.com.br/

domingo, 28 de novembro de 2010

ESCREVER CONTOS

Escrever contos
muito pouco tem a ver
com contar casos
que ouvimos na rua,
soubemos por amigos,
jornais ou pela tevê.
Um conto é um corte
na pele fina do hoje
e ele sangra tanto
que, para estancá-lo,
resta-nos o manto
de termos cotidianos.

Não escreva contos
para fazer graça.
Só admita a piada
quando amarga.
A tristeza do tempo
que nunca pára,
mesmo o amor maior
nos espeta o peito
com a pior farpa.
Conto repele risadas.
Isso é para a crônica
que ajuda a digerir
as comidas pesadas.

Apenas escreva contos
em estado de fúria,
com um ódio santo
contra toda a turba.
Um conto necessário
é um ato de cura,
catarse em meio
à insanidade de tudo.
Escreva contos para
emudecer esse mundo
tomado pela usura.

Não escreva contos
como quem brinca
com palavras móveis,
incrustáveis nas frases.
Conto já nasce pronto.
Todo esforço vem antes,
ao se sofrer o corte
e sangrar até a morte.
Não é com palavras
que se faz um conto,
mas com o sentimento
de tantos desencontros
entre o Eu e o mundo,
mesmo quando o mundo
é quem um dia fomos.

Tente escrever um conto
que te prepare um pouco
para te ver como morto.
Estar vivo é algo falso
porque breve em demasia.
Todo conto é um canto,
um canto de despedida.

Não escreva contos
com palavras eruditas.
Conto é linguagem viva,
a mesma usada no bar,
na hora do namoro,
no balcão da padaria.
Palavras do dia-a-dia,
súbito se concentram
e dizem de uma vez algo
que ninguém mais diria.

Escreva os seus contos
como quem se suicida
sem deixar bilhetes
dando os tais motivos.
Um conto não se explica.
É morte imprevisível,
a vida como enigma,
a força de um mistério
que nunca silencia.

Só escreva os seus contos
quando não houver quando.

Publicado no volume Concursos literários 2009. Curitiba: Secretaria de Estado de Cultura, 2009.

sábado, 27 de novembro de 2010

CORRA!

Escritores profissionais se vêem obrigados a ter alguma ocupação paralela. Dedicam-se tão intensamente à escrita, afastando-se da vida cotidiana, que correm o risco de naufragar nas próprias neuroses. Muitos acabam entregues à bebida. Mas há também os que buscam atividades totalmente desligadas do trabalho intelectual.
É o caso do escritor japonês Haruki Murakami (1949), que tem publicado no Brasil o seu livro Do que falo quando eu falo de corrida (Alfaguara, 2010, trad. de Cássio de Arante Leite).
Murakami é um obsessivo e vem disputando uma maratona por ano e correndo 10 quilômetros todos os dias. A sua defesa da corrida é algo comovente, pois revela antes de mais nada o valor das idéias fixas. O romancista é alguém tomado por uma idéia, alguém que não admite fugir às regras que ele cria.
Assim, a corrida funciona, no livro de Murakami, como uma metáfora para a escrita do romance. Ambas as atividades exigem o esforço extremo da pessoa, levando-a a conhecer os seus limites. Dificilmente você escreverá um grande romance sem ter antes enfrentado este processo de exaustão física. Diz o autor: “Se você não fica repetindo um mantra de algum tipo para si mesmo, nunca vai sobreviver” (p.8). Ele tem o mantra para correr, e também para escrever.
O livro de ensaios relata o início da carreira de escritor, totalmente acidental, e de corredor, mostrando um caráter muito forte. Murakami pode estar morrendo numa maratona – chegou a percorrer uma de 100 quilômetros – mas nunca se entrega, sempre encontra força para continuar. Embora não seja um corredor profissional, ele se orgulha de nunca ter caminhado em maratonas. E de sempre ter treinado sério para disputá-las, mesmo sabendo da impossibilidade de vencê-las.
A corrida é também vista como um momento de solidão, algo como uma extensão da atividade da escrita. Enquanto está treinando ou disputando uma maratona, ele se faz ainda mais sozinho: “corro a fim de conquistar um vácuo” (p.21). Mas, pelas histórias do livro, ele corre principalmente para conquistar um sentido, para estabelecer conexões com o mundo real, para ocupar um papel (é bem verdade que meio fútil) dentro da sociedade.
Estabelecendo uma lista de três qualidades necessárias para ser romancista, ele chega ao seguinte ranking: 1º. Talento; 2º. Concentração; e 3º. Perseverança. Como talento é algo inato, que a pessoa tem ou não tem, resta a um candidato a escritor investir na concentração e na perseverança. Quanto menor o talento mais ele tem que fortalecer as outras qualidades.
Nesta perspectiva, a corrida seria um treino para a escrita. É um momento em que a pessoa está totalmente concentrada em seu próprio ser para chegar ao final.
Murakami corre para poder continuar escrevendo com esta mesma determinação. Mas ele corre também para passar pelo que poderíamos chamar de momentos de epifania: “A maioria dos corredores corre não porque queira viver mais, mas porque quer viver a vida ao máximo” (p.73). Assim é também na literatura, onde se escreve não para aproveitar a vida mas para experimentar intensidades.
Por fim, ele corre também para manter a saúde. A tensão do ato de criar leva os escritores a uma vida insalubre, distante das atividades físicas. Correr é acreditar que um corpo saudável pode produzir um texto melhor do que um corpo muito frágil.
Do que falo quando eu falo de corrida é um bom livro sobre a vida do escritor, valendo mais pelos depoimentos de um homem que tem um senso de responsabilidade aguçadíssimo do que propriamente pelas idéias.
A pergunta que fica é: seria preciso então correr ou praticar esportes para escrever bons romances? Evidentemente, não. Mas o escritor que não tem outra profissão – a pequena minoria que fez sucesso – acaba se obrigando a se engajar em algo. E aí a corrida pode ser a salvação.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A VIDA ÍNTIMA DOS ARMÁRIOS

Um compartimento do armário aqui da biblioteca está apresentando muita umidade. Toda vez que o abro, vem o cheiro de mofo. Deixo uns produtos para desumidificação e, semanas depois, a vasilha de plástico está cheia de água. O marceneiro já esteve estudando o caso e verificou que não há vazamento nem nada anormal.
Minha mulher diz que isso só acontece porque passo os dias trancado nesta catacumba, sem abrir portas nem janelas.
– Por isso, tudo está se tornando bolorento – ela decreta.
É claro que me incluo neste tudo. Afastados do mundo, eu e minhas pretensas idéias estaríamos criando bolor. A minha tese é de que a umidade não é fruto do fechamento de portas e janelas. Mas minha mulher insiste que é preciso ter, em qualquer cômodo, uma ventilação cruzada. E que a quantidade de papel...
– Livros! – quase grito.
Mas ela continua:
– ...que a quantidade pa-pel – soletra para me enlouquecer – é como uma esponja para a umidade do ar.
E logo arremata a sua análise:
– Qualquer pessoa que vem de fora sente este cheiro ardido de mofo.
Sempre sonhei com quatro paredes revestidas de livros, onde eu pudesse me sentir longe da vida doméstica, dos problemas cotidianos. A conta está negativa, mas faltam apenas umas poucas páginas para eu terminar de ler este romance. É claro que há algo de obsceno nesta fuga para a biblioteca, mas eu nunca quis ser o senhor cumpridor de todos os rituais da civilização.
Contrariando meu projeto juvenil de gastar a vida em uma nave espacial perdida no tempo, embora bem instalada no quintal, revolvi abrir as janelas e as portas. Agora, só trabalho com ar fresco, canto de passarinhos, os ruídos da rua e dos vizinhos. O que era um território autônomo cravado no meio desta pátria mercantil hoje é apenas um apêndice do bairro, da cidade.
Desperdiçando meu tempo na biblioteca, agora sim pornograficamente aberta, tento ler e escrever.
Digo tento porque fui colonizado pela internet. Tornei-me uma dessas máquinas multitarefas. Leio, respondo e-mails, alimento o twitter e o blog, navego em sites, compro livros on-line, sigo as notícias etc. As janelas que abri vão muito além do quintal e do bairro.
E isso tem sido um atrapalho. Fico sabendo de todas as novidades. Quem está em alta na cotação do mercado literário. A produção de todos que escrevem no Brasil e mais uma infinidade de grandes notícias do dia de hoje, que são incessantemente atualizadas. Enquanto isso, a biblioteca me diz coisas mais interessantes, notícias que sobreviveram a décadas, a séculos, a milênios, e que, mesmo emboloradas, continuam atuais.
Eu me esforço para corresponder à biblioteca e à internet. Uma é um velho armário onde vamos colecionando coisas que nos são caras – caras apenas para nós, a quem não repugna o seu cheiro de bolor, tão afeitos estamos a ele. A outra é esse rio sempre correndo rumo ao abismo, também conhecido como futuro.
Não sendo bom datilógrafo – sim, sou um datilógrafo que se adaptou à era do computador –, meus poucos dedos aptos para a digitação ficam doídos. A internet não me consome apenas o tempo, mas principalmente a ponta dos dedos. E todos sabem que as pontas dos dedos são essenciais para a literatura. É delas que vêm nossos textos. Resultado: quando mais tempo passo na internet, menos me dedico ao essencial.
E a internet ainda tem um agravante: atua sobre o desejo de escrever. Somos continuamente bombardeados pelo sucesso dos escritores da hora. Daí pensamos: não há espaço para a nossa literatura mofada. Estes são tempos para textos arejados, que não queiram mexer com as pessoas. Para que então escrever?
Quando se quer matar um escritor, há uma arma acessível a qualquer um: é só minar o seu ânimo para a leitura e para a escrita. O escritor é uma planta de caule aquoso. Diante da menor agressão, já se deita sem capacidade para elaborar seus frutos.
E sempre está vindo pela internet uma negação dirigida a ele. Se não fosse por esta onipresença digital do mundo, ele não ficaria sabendo daquilo que disseram sobre seu último lançamento, da acusação pessoal sofrida, da avaliação rigorosa (mas não injusta) de um até então amigo. O escritor se desespera com estas invasões.
A primeira coisa que ele gostaria de fazer é fechar as portas e janelas das quatro paredes que o protegem. Mas se fizer isso, os livros vão embolorar. Os armários vão ficar verdes de limo. Ele pode desenvolver uma doença respiratória qualquer. Não, é melhor não fechar nada.
E, como única reação, seus olhos tímidos ganham um brilho líquido, embora seus músculos se enrijeçam agressivamente.
Em uma destas ocasiões, chega a minha mulher e pergunta o que está acontecendo.
Olho-a meio enlouquecido e digo:
– Está vendo o armário? Deixei todas as janelas abertas e ele continua tão mofado quanto antes.

in Caderno G, Gazeta do Povo, 23 de novembro de 2010.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

DECÁLOGO DO CONTISTA

1.
Não existem escolas de um só mestre. Beba de todas as fontes; cada uma delas tem um elemento necessário para solidificar seu estilo.

2.
Veja-se como um amador, que está sempre começando. Nada é pior para um escritor do que a presunção do domínio das ferramentas narrativas.

3.
Nunca imite ninguém. A imitação gera textos fracos, em que o outro se revela maior do que o eu. Se algo em algum escritor desperta sua cobiça, roube-o. O roubo exige que ocultemos a pilhagem, levando você a camuflar o que não lhe pertence. Com isso, ele passa a ser parte legítima de você.

4.
Não deixe que nada destrua a sua vontade de escrever, de escrever cada vez melhor.

5.
Só se dedique a uma história depois de ter convivido intensamente com ela, de tal forma que não exista descompasso entre a sua imaginação e o ato de escrever.

6.
Use as palavras como se tivesse de pagar para publicá-las, evitando o menor desperdício de dinheiro. Mas sabia que há textos que exigem grandes investimentos.

7.
Busque sempre os ossos da linguagem, mas nunca os deixe à mostra; saiba acrescentar carnes, nervos e uma pele agradável.

8.
Durante a escrita, tente ver o seu personagem como alguém que está ao seu lado. Coloque-se imaginariamente dentro da história, isso vai permitir que você tenha sempre uma melhor visão dela.

9.
Um bom conto nasce da embriaguez de um momento, de um momento já desaparecido. E este estado de inconsciência é tão forte que suspende as barreiras de tempo e lugar, fazendo com que o passado e o futuro se encontrem num presente imorredouro.

10.
Escreva como se não existisse mais ninguém na face da terra, pois de fato não existe. Um grande texto é a expressão da solidão própria do criador, que apenas agora começa a habitar o mundo.

sábado, 20 de novembro de 2010

CRISE E CRIAÇÃO

Literatura é sempre uma linguagem com a temperatura modificada.
Não se produz um bom texto, que se faça redemoinho de fatos experimentados interiormente, sem sair de um estado de normalidade psíquica.
Esta mudança aguça a percepção de quem escreve e permite que a linguagem o comande e não o contrário.
Todas as vezes que comandamos a linguagem, o texto esfria, perdendo a fluência. Enquanto, nestes momentos de entrega total, o texto escorre, denso e poderoso, arrastando o autor (e depois o leitor) a lugares imprevisíveis.
Estou opondo aqui dois conceitos, o texto febril e o texto fabril.
Este é fabricado, construído de maneira racional, e tem inúmeros fins na comunicação principalmente de idéias. A funcionalidade é sua marca. Serve para certa filosofia, para artigos políticos, para ensaios.
Mas a grande literatura será sempre febril. Linguagem quente, vertida do olho convulso do vulcão.
Por isso, pessoas com instabilidades de espírito tendem a se tornar artistas. Elas passam de uma temperatura a outra com grande facilidade.
O que para a maioria seria uma crise, para o escritor é um momento criativo.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

ANTOLOGIA

Já não tinha idade para tentar certas coisas. Mesmo assim, começou a praticar caminhadas e logo estava fazendo pequenas visitas aos mor­­ros da região.
De uma árvore encontrada nestas aventuras, retirou um galho e fez um bordão. Sempre sonhara com um bordão, talvez reminiscências de filmes religiosos vistos na infância.
Foi da infância que recuperou um canivete para abrir a casca verde do galho, deixando a madeira lisa e úmida à mostra. Colocou-a então para secar na sacada do apartamento. Mas o bordão só se tornou bordão depois que suas mãos alisaram a madeira, dando-lhe a consistência de matéria polida.
Com este cajado, um embornal que ganhara em uma feira de livro, tênis gastos e encardidos, ele saía sozinho pelas montanhas da redondeza.
Por vezes não voltava para dormir em casa, improvisando um abrigo no oco de alguma árvore ou numa loca minúscula. Havia sempre a broa, o vinho, a água e frutas.
A família se irritara tanto com os novos hábitos que ele passou a ser quase um estranho. Mal respondia às perguntas para não discutir esse desatino.
A mulher lembrava de seus problemas de saúde. Poderia acontecer algo na caminhada. Morreria sozinho, dando o maior trabalho para recuperar o corpo.
E ele, irônico:
– Todo cadáver sempre é irrecuperável.
– Não dá mesmo para falar sério com você.
O filho tentou dissuadi-lo.
– Pai, pense em seus netos – e apontava dois meninos de olhos melancólicos.
Mas o Profeta (assim a família passou a chamá-lo) insistia em suas expedições:
– Não tem gente que gosta de pescar no final de semana? Esta é minha pescaria.
– Mas e os peixes ao final da jornada? – ironizou a mulher.
– Eles vêm em estado fóssil.
– Enlouqueceu mesmo! – esta era a opinião de todos.
E ele achou melhor assim.
Em suas escaladas, não tinha pressa. Subir uma montanha com as pernas bambas. Sentar em pedras. Rogar por árvores de copas acolhedoras. Deitar no capim com o sol no rosto. Ver algum animal silvestre. Caminhar ao som das aves inquietas. E, lá da montanha, observar a cidade.
No ponto mais alto em que suas pernas cheias de varizes o levavam ele proferia as Palavras. Gritava para o alto conversas co­­muns. O que tinha dito o homem do mercado. Como estava boa a comida ontem. O trecho de um livro lido na semana e que ele havia decorado. E mais um rosário de banalidades. Falava da melhor lua para o plantio. Dava a re­­ceita de um remédio caseiro infalível para diabete. Recitava versos de seus poetas preferidos.
A montanha ouvia tudo em silêncio, sem ousar nem mesmo um eco.
Quando se cansava, ele sorvia um longo gole de vinho, rasgava o pão e o mastigava com dentes de fera. Depois, se deitava em qualquer canto para recobrar as energias.
Durante a semana, passou a ler e reler seus livros, separando os melhores trechos. Como já não havia tempo para decorar as passagens marcantes, levava folhas impressas com esta antologia. E, lá na solidão, ele as encarnava.
Sua pele escureceu. Os cabelos ganharam uma cor suja. O corpo definhou. Tornou-se ainda mais silencioso. O mundo próximo se fez mais quieto porque ao redor de um louco os movimentos cotidianos são suspensos – embora ele não fosse propriamente louco. A loucura, mesmo quando indevida, tem este dom de fazer com que as horas se tornem neutras.
Em uma de suas fugas, encontrou o neto. Fugira de casa e queria ir com o avô. Conhecer o vento das montanhas.
Já era quase moço. O avô sabia merecer aquela companhia. Mudos, subiram morros, cruzaram rios lajeados, furaram matas, cercas de arames farpados, e enfim chegaram a uma localidade alta. O neto estava exausto e logo dormiu.
Acordou no meio do ritual do avô, que gritava seus textos para um céu surdo. O neto se sentou numa pedra e apreciou aquela cena. Pouco entendia do que era dito. O vento carregava as palavras para o outro lado. De vez em quando, uma frase qualquer chegava até ele: ruínas de um discurso que ele só podia imaginar pelos gestos do avô. Falava talvez de amor.
Quando se completou o ritual, o avô rasgou as folhas em minúsculos pedaços e as soltou como borboletas brancas ao vento. Voltando-se para seu companheiro de escalada, explicou:
– Algumas frases, por um desvio qualquer, conseguem deixar o nosso planeta. Suas ondas ficam vibrando numa viagem errante pelo universo. Quando se deparam com obstáculos, reverberam e podem voltar ao ponto de origem.
O neto não sabia o sentido exato de alguns termos, mas estranhamente compreendia tudo que o avô havia dito.
Desceram a montanha mais leves. A noite ia pontuando estrelas que, segundo a sua professora, eram luzes de astros extintos, que havia anos vinham em nossa direção.
Se tivesse sorte, poderia ser ele um dos futuros receptores das palavras que o avô semeara no nada.

in "Caderno G", Gazeta do Povo (Curitiba), 16 de novembro de 2010.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O PERIGO DA REVISÃO

Há um mito da reescrita: o escritor deve rever permanentemente os seus originais e depois os livros nas eventuais reedições. Com isso, valoriza-se o trabalho artesanal, numa tentativa de intelectualizar a literatura. Mas a genialidade de uma obra, o seu valor de simbolização, se manifesta mais no impulso da escrita. As revisões servem para dar fluência, sendo acessórias em relação ao momento imprevisível e intenso do ato criador.
Assim, quando o escritor se coloca de maneira muito racional diante de um texto, este tende a soar construído.
Mesmo na reescrita, deve preponderar o ouvido a qualquer outro órgão. Não se trata de criar situações engenhosas no texto, mas de lhe dar um valor de música. Por isso, desde Gustave Flaubert, aprendemos que é necessário sentir o texto em voz alta, para que ele se revele.
A revisão longa e excessiva nem sempre melhora muito um livro, e pode até piorá-lo. Um exemplo de um livro trabalhado durante décadas e que resultou frágil porque falso é o romance João Ternura (1965), de Aníbal Machado, publicado postumamente.
Aumenta-se a literatura do livro, que perde a sua natureza de documento humano, próximo de quem o escreveu em um estado de percepção privilegiada da existência.
Não nego a revisão ou a reescrita, mas entendo que cada livro tem o seu tempo e comporta certo grau de melhoria, não sendo possível ir além sem tirar dele a sua magia.
Penso nisso enquanto reviso os contos para uma coletânea com o material escrito de 2003 para cá. Os mais antigos, por mais que eu os releia, não sofrem alterações significativas. Os mais novos, sim. Elimino passagens inteiras, troco frases, junto ou abro parágrafos. Os primeiros contos chegaram ao grau máximo de depuração a que eu, como autor, poderia submetê-los. Não melhorarão se forem publicados daqui a 10 anos. Os mais recentes ainda não atingiram esta estabilidade em que a força fundadora é mantida numa forma livre de pequenos ruídos.
Porque é apenas isso que a reescrita ou a revisão pode fazer: eliminar ruídos. A música inteira vem da origem.

domingo, 14 de novembro de 2010

CULTURA TRANSNACIONAL

Disse-me certa vez o poeta e tradutor José Paulo Paes (1996-1998) que uma cultura se tornava cosmopolita quando contava com os livros mais importantes da civilização vertidos em seu idioma. Ele dava o exemplo da Itália, onde era possível encontrar na língua local a essência do mundo letrado. Destacava ainda o fato de as grandes obras estrangeiras serem citadas, nos ensaios lá produzidos, em versões italianas.
José Paulo usava este argumento para defender uma tradução de qualidade em larga escala no Brasil, projeto em que se engajara desde os tempos moços da revista Joaquim (Curitiba: 1946-48), defensora de uma cultura de integração cosmopolita. Mas esta tese pode ser usada com outros propósitos se aceitarmos uma lógica borgeana.
A tradução serve para refundar a literatura produzida na língua de chegada. Mais do que uma amostra do que se faz ou fez em outro contexto, o livro traduzido entra na corrente sanguínea do idioma e fortalece o organismo todo. Com isso, estou querendo dizer que, uma vez transposto para o português, todo livro passa a fazer parte da literatura brasileira. Assim, temos o nosso Homero, o nosso Shakespeare, o nosso Proust, o nosso Gabriel García Márquez etc., que não são visitantes em nossa língua, mas um patrimônio cultural próprio.
A verdadeira literatura nacional não fica circunscrita aos autóctones, ela é composta principalmente por aquilo que há de melhor no mundo e que pôde chegar com força simbólica a uma outra língua. A tradução dá centralidade ao conceito de idioma como um contraponto ao de localização histórica e geográfica. É uma forma de pertencimento pleno a todas as épocas e a todos os lugares.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A NOVA POESIA BRASILEIRA

Sou um dos cem poetas
de todos os confins do país
publicados em regime de cooperativa
na edição de 1985
da Nova Poesia Brasileira.

Não era difícil ser selecionado.
Mandávamos três poemas ruins
e um deles passava a figurar
na antologia anual,
ganhando a pessoa o privilégio
de ser chamado de autor
e um carnê para pagamentos
em favor da pequena editora.

Vinte e cinco anos se passaram
sobre o papel off-set 75 gramas
dos poemas, amarelando-o.
Traças furaram o volume
que ficou esquecido no armário
da casa materna
com uma dedicatória exagerada
à minha irmã.

E que eu me lembre
só paguei a primeira
das quatro prestações,
mesmo assim recebendo
os exemplares do autor,
todos afoitamente distribuídos
sabe-se lá a quem.

E reaparece agora este
para me mostrar entre
jovens alunos, professoras
primárias, funcionários públicos
que faziam da poesia
o seu nada, o seu tudo.

Não sei onde foram parar
os outros dois poemas recusados
e os demais que eu então escrevia,
alguns deles, segundo a nota biográfica,
publicados em jornais.
Mas tenham o valor que tiverem
e mesmo que nenhuma linha
do que eu escrevi depois
fique,
sou um dos cem poetas
de todos os confins do país
publicados em regime de cooperativa
na edição de 1985 da Nova Poesia Brasileira.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A TECLA DEL

Na gaveta que destino aos poemas que eventualmente escrevo, acumularam-se uns 40 textos desde 2005. Não quero escrever poemas. Tenho colocado meu interesse em outras coisas, mas há momentos em que um poema surge. Contra minha vontade. Há anos a poesia só me visita como invasão. O máximo que faço é facilitar, deixando a porta mal trancada. Não sei o que fazer com estes textos. Não quero publicar um novo livro. Jogar tudo fora talvez fosse o mais sensato, mas fazer isso em bloco seria muita crueldade. Então, tenho que me dedicar a estes poemas. Verificar a possibilidade de salvar alguns.
Venho fazendo isso. Ler coisas escritas em outras temperaturas emocionais. Melhorar versos. Julgar a minha própria produção. E deletar muitos poemas. Rasgar a cópia impressa. Apagar o arquivo. Limpar a lixeira do computador. É um trabalho depressivo. Mas me submeto a ele.
Não se trata de jogar fora um pedaço de papel, mas de amputar de minha vida um instante, uma emoção que foi forte ao ponto de permitir uma tentativa poética. Eu me sinto ludibriado quando constato que aquele poema (aquele momento de minha vida) resultou falso. Eu me enganei. Mas se me enganei, não posso enganar meu improvável leitor. Não posso roubar dele os instantes que gastaria lendo algo que se propõe como poesia e que não passava de palavras vazias.
Então eu me suicido apagando esses poemas.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

IMEDIATAMENTE


Todos esperavam que a construção sobre o túmulo da família Escobar fosse a réplica de uma capela. Havia outras no cemitério, pertencentes a décadas passadas.
Hermenegildo Escobar era um homem antigo. Não abria mão do chapéu de feltro, da calça com friso impecável, do suspensório e do paletó. Se não exibia gravata, mantinha o colarinho da camisa sempre abotoado. Nem depois da morte da mulher, ele descuidou da aparência. Parece até que passou a caprichar mais.
Diariamente, ele seguia logo depois do almoço para o cemitério. Isso começou no início da construção do novo túmulo, uma semana após o enterro da esposa.
Quando o pequeno edifício tomou corpo, a primeira suspeita. Não lembrava nem de longe uma capela. E, antes do final da obra, ficou evidente que o túmulo era o modelo reduzido de uma casa com telhado de duas águas. Uma casa sem janelas, apenas com uma entrada. No momento de pôr a porta, a falação cresceu. Ela era feita de chapas de aço, com uns furos mi­­núsculos para a entrada de ar.
A pintura também foi outro capricho do senhor Hermenegildo. Escolheu a cor de alumínio, que ninguém mais usava. E algumas teorias foram surgindo.
“A mulher dele quis sempre mudar de casa, ir para uma construção mais moderna, mas o marido mantinha-se preso à casa colonial que pertencera a seus avós.”
“O alumínio na parede externava o amor puro do viúvo.”
“Ele mandara construir aquela casinha sobre o jazigo da família porque não deixaria descendentes. Sinalizava o fim de uma linhagem.”
Ninguém se aventurou a perguntar nada ao senhor Hermenegildo, que não permitia intimidades. Ele tinha fama de agressivo, falavam de seu passado. Que no começo do casamento surrava a mulher com chicote. Havia encomendado muitas mortes de pessoas que contrariaram seus interesses. Etc.
Apesar desses boatos, era sereno e educado o homem que caminhava à tarde para o cemitério, dispensando o táxi. Com o carro próprio não ia, porque nunca aprendera a dirigir. O carro descansava na garagem desde a morte da mulher – era ela quem fazia as vezes de motorista. Alguns dizem que permaneceu com a chave na ignição e com o vidro aberto. Tudo do jeito que ela deixara.
Se o senhor Hermenegildo se revelava educado, quem o conheceu não nega que ele tivesse um olhar duro. Talvez isso despertasse tanto temor.
Assim, todos acompanhavam com interesse, mas a distância, o projeto do senhor Hermenegildo. O túmulo ficou pronto e ele continuou com as visitas. Chegava sem pressa, rondava a construção, co­­mo se estivesse inspecionando uma casa para alugar, e entrava discretamente.
Um ou outro curioso, esticando o pescoço e firmando bem as vistas, jurava identificar coisas no interior do túmulo. Estaria cheio de flores, de imagens dos antepassados, um até falou que conseguira ver crânios humanos num altar. Ali seria um templo para rituais de magia negra, falaram. Para muitos, no entanto, ele se trancava naquele local apenas para rezar pelos seus.
Os cidadãos já estavam habituados aos passeios do viúvo no início da tarde quando deixaram de vê-lo. A empregada continuou indo trabalhar na ausência do patrão. Foi ela quem avisou uma vizinha. O senhor Hermenegildo viajara sem avisar ninguém. A vizinha ainda brincou:
“Avisar a quem? Ele não tinha parentes.”
E as duas riram. Mas se espalhou o caso. O bom viúvo viajara. Talvez tivesse ido visitar amigos distantes. Outros diziam que ali tinha rabo de saia. Estava em férias com alguma sirigaita.
“Desavergonhado, não faz nem um ano que a esposa morreu, construiu aquele túmulo horroroso para ela, fingiu de apaixonado indo lá todos os dias e agora de safadeza com uma amante”, comentou outra vizinha.
No terceiro dia, a empregada viu que não podia ser viagem. Não levara roupa. Se tivesse dado uma fugidinha, teria voltado. Avisou então a polícia. Outros boatos. Haviam sequestrado o velho e pediam R$ 1 milhão de resgate. A empregada parou de ir à casa, entregando as chaves ao prefeito. Estava com medo dos sequestradores. E também de algum ladrão que poderia se aproveitar da ausência do dono.
Uma semana depois do desaparecimento, o zelador do cemitério sentiu um cheiro forte ao passar pelo túmulo da família Escobar. Ele conhecia muito bem aquele odor. Era de defunto. E estava já bem podre.
A notícia se espalhou pela cidadezinha. O senhor Hermenegildo se matara dentro do túmulo. Tinha tomado veneno. Não, diziam outros, foi um tiro no céu da boca. Ele sempre andava armado.
Em poucas horas, juntou uma multidão em torno do jazigo. Alguns usavam lenços para proteger o nariz. O delegado chegou com dois soldados e uma picareta. Rapidamente, arrancaram a porta de aço.
O interior do túmulo não tinha quase nada, nem o nome dos mortos. Apenas um banco de alvenaria, com um colchonete revestido de napa azul. Sobre ele, deitado de costas, o senhor Hermenegildo morto, os ossos do rosto já visíveis sobre a carne apodrecida. Usava gravata. E sapatos novos e brilhantes.
O médico da cidade disse que, pela expressão e posição do cadáver, tinha sido um enfarte.
Uma mulher que estava no meio do tumulto, concluiu:
“Ergueu este cômodo para poder dormir algumas horas ao lado da esposa.”
Bem nesta hora, o delegado man­­dou que todos voltassem imediatamente para suas casas.
in "Caderno G", Gazeta do Povo, 02 de novembro de 2010.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

QUEM VENCEU A ELEIÇÃO PARA PRESIDENTE

Não sou um animal político, nunca me filiei a partidos e tenho horror a qualquer forma de fanatismo. Digo isso antes de tentar uma pequena análise do resultado da eleição para presidente.
Meus parâmetros são sempre literários, por isso recorro a uma carta de Mário de Andrade, de 26 de julho de 1925, dirigida ao folclorista nordestino Câmara Cascudo (In Câmara Cascudo e Mário de Andrade: cartas – 1924/1944. São Paulo: Global, 2010). Mário de Andrade estava colecionando imagens, textos, estórias e amizades dos quatro cantos do Brasil para compor seu livro-maior, Macunaíma (1928). Ele pede a Câmara Cascudo que mande todo o tipo de material que ele tiver sobre o Rio Grande do Norte.
Nestas cartas, o escritor revela uma gulodice pelo Brasil: “Tem momentos em que eu tenho fome, mas positivamente fome física, fome estomacal pelo Brasil” (p.47). E é isto que sentimos nos textos e nas leituras de Mário, um desejo de ser maior do que ele, coisa que ele vai destacar logo em seguida: “Me penso brasileiro e você pode ter certeza que nunca me penso paulista”. Aí está uma velha lição que muitos têm esquecido. Seja de que estado for um candidato a presidente, ele tem que se sentir brasileiro - mais ainda: tem que se sentir cosmopolitamente brasileiro, com uma visão que ultrapasse nossas fronteiras.
Ao longo da campanha de José Serra, sem dúvida um grande político, houve a preponderância de um olhar paulista. E foi principalmente este sentimento de paulistanidade que inviabilizou o seu nome. Para muitos, São Paulo é sinônimo de Brasil moderno. Mas, para a maioria, é uma antítese do Brasil profundo. Nesta última eleição, venceu o Brasil profundo, aquele mesmo que Mário de Andrade buscava, renunciando à sua identidade imediata.
Na coletiva de José Serra depois da derrota (uma derrota que, do ponto de vista biográfico, ele não merecia), o recente ex-candidato se dirigiu essencialmente aos paulistas, a quem agradeceu. Por mais que tenha viajado pelo Brasil, ele continuou sendo um político com denominação de origem. Neste ponto, o atual e a futura presidente contaram com um deslocamento de identidade que lhes permitiu um trânsito maior. Apesar de politicamente domiciliado no Estado de São Paulo, Lula é um nordestino. Ou seja, está fora de seu lugar. A mesma coisa se deu com Dilma Vana Rousseff. Mineira de nascimento, fez sua vida no Rio Grande do Sul. Este tipo de experiência torna o político mais permeável ao outro, e consequentemente lhe dá uma maior representatividade nacional.
Qualquer candidato que queira se credenciar para as próximas eleições presidenciais terá que ter esta fome física, estomacal pelo Brasil. Porque é o Brasil (com todas as suas mazelas) que deve vencer uma eleição para presidente. E nunca uma região – seja ela qual for.