terça-feira, 28 de dezembro de 2010

THE END

Entre as piores coisas do fim de ano está o fato de recebermos uma enormidade de spam, a maioria sobre promoção disso e daquilo, muitos com vírus, enquanto pouquíssimos são os e-mails dos amigos. Estes estão nas compras, preparando as festas, fazendo planos para o novo ciclo etc. Eu que não me dedico a nada disso, continuo com a vidinha de sempre e sinto falta dos diálogos que a internet me possibilita.
Embora haja tantas quinquilharias ofertadas para seqüestrar parcelas de meu décimo terceiro salário, ainda não encontrei o produto de que mais preciso neste período. Falei isso aqui em casa e me aconselharam a procurar num desses sites de compra. Acatei a sugestão e entrei num dos maiores sites do ramo, onde se vende tudo.
– Achou? – perguntou minha filha.
– Não, não tem.
– O que exatamente você está procurando?
– Uma caixinha de pontos finais.
– Ah, pai, vê se não enche – ela disse e se afastou.
Sonho com uma invenção, vá lá, utópica, que possa descomplicar a vida da gente. Seria muito prático ter muitos pontos finais de vários tamanhos. Um amigo fez uma cachorrada qualquer, daí pegamos um dos pontos, o maior deles, e colocamos na parte da memória que serve para recordá-lo. Ele não atrapalharia mais, entraria para uma espécie de arquivo morto. Você tem o velho projeto de aprender a tocar violão. E nunca consegue passar das primeiras lições e isso causa frustração, principalmente quando você vê Yamandu Costa fazendo misérias com o instrumento. Pegue então um ponto final e coloque nesta parte dos mecanismos interiores de desejo e guarde suas energias para outras coisas.
Quem sofre de crises depressivas no final do ano sabe quanto é importante possuir um pequeno estoque de pontos finais. Enquanto a indústria não desenvolve este produto milagroso, temos que usar imaginariamente o recurso de fechamento de frases e parágrafos de nossa vida.
Quando me perguntam o que se deve fazer para se escrever um texto claro, tenho uma resposta pronta:
– Coloque muitos pontos finais. E fuja do excesso de vírgulas.
O que tento praticar nos textos nada mais é do que um reflexo da minha vida. Gosto dos pontos finais. Quando posso usá-los, sei que estou cortando um cordão umbilical que já se alongou muito.
Pois bem, fiz esta introdução toda apenas para dizer que esta crônica é um ponto final.
– Última crônica do ano – pensará o leitor.
Mas é mais do que isso. Estou encerrando minha contribuição como cronista da Gazeta do Povo.
Só me tornei cronista extemporaneamente. Já era crítico literário, poeta, contista e romancista quando ensaiei os primeiros textos aqui, contrabandeando uma ou outra crônica num espaço destinado à crítica. Foi nestas páginas que surgiram, entre 2002 e 2003, quase todos os textos de meu livro Herdando uma biblioteca (Record, 2004). A partir desta experiência, mesclei crônica e crítica até me tornar apenas cronista.
Agora vem o convite, para reformular minha colaboração, que mudará de dia (a coluna sairá aos domingos). De fevereiro de 2011 em diante, estarei me ocupando novamente com a crítica de livros, na tentativa de apresentar ao leitor as melhores opções editorais.
Ou seja:
– Ponto final. Agora abra novo parágrafo.
Entre um e outro, no entanto, haverá parênteses.
Em janeiro, aos sábados, escreverei crônicas interinamente no lugar da Marleth Silva, na página 3 do primeiro caderno.

in "Caderno G", Gazeta do Povo, 28 de dezembro de 2010.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

OS NOSSOS NADAS

A crônica literária tem algo de Big Brother.
É uma maneira de o leitor espiar a vida íntima – no geral, monótona – do cronista. Lemos para saber algo sobre aquela pessoa que fala como se estivesse diante de câmeras indiscretas.
Lógico, o cronista não tem a notoriedade das figuras do Big Brother, e não consta que algum de nós tenha sido convidado para posar nu em revistas do gênero – o que é uma prova da sensatez do mundo, no geral tão desconcertado.
Não é o corpo ou o visual o que chama atenção no cronista. Mas a sua capacidade de criar metáforas sobre experiências comuns à maioria dos leitores.
Ele é um pequeno herói da vida besta, confundindo-se com as figuras populares da cidade, do bairro. Por isso, desperta sentimentos de identificação. É assim que me sinto como cronista – como alguém que fala colado ao leitor.
Ponte entre literatura e vida, esta forma de expressão cria uma gramática da oralidade. Não escreve crônicas quem não quer conversar por escrito com interlocutores implícitos mas muito próximos.
Encontro pessoas que perguntam de meu filho, da minha biblioteca ou de outros assuntos, como se fôssemos amigos.
E de fato somos amigos, mesmo sem nos conhecermos pessoalmente.
Espaço do confessional, este formato leva a pessoa que o ocupa a não se constranger ao falar sobre os nossos nadas, tentando sempre construir alguma estrutura simbólica. É aí que reside o poder literário da crônica. Ela ordena afetivamente o mundo cotidiano, de maneira despretensiosa, a partir de alguma imagem que, de tão mínima, passa despercebida para a grande maioria.
O cronista faz esta e outras descobertas absolutamente desnecessárias, e no entanto tão desejadas.

domingo, 26 de dezembro de 2010

VOZ AUTORAL

Luciana Villas-Boas, uma das pessoas que melhor conhece o mercado nacional e internacional de literatura, escreveu hoje no Estadão uma reflexão extremamente lúcida sobre a ficção contemporânea. Transcrevo o último parágrafo do artigo, sentindo um orgulho muito grande de ser editado por ela.


"Quanto à grande literatura, houve, nos países centrais, um retorno espetacular da narrativa, a valorização, evidente nas premiações e na recepção crítica, para não falar de vendas, do enredo inteligente e bem armado para dizer algo relevante sobre a condição humana ou a História, por meio de personagens densos e multifacetados e um trabalho de linguagem de quem domina seu idioma e consegue construir uma voz autoral original e inconfundível. No Brasil, engatinhamos, ainda esmagados pelas desconstruções joycianas do século passado, na maioria das vezes sem a devida bagagem literária e controle do idioma. Mas surgiram prêmios literários de repercussão e a condição do escritor é muito mais apreciada do que no século passado. Não é fácil, mas é possível ser otimista e acreditar que nos próximos 10 ou 15 anos começaremos a construir uma grande literatura nacional, com presença e visibilidade até mesmo na Europa e nos Estados Unidos".

in "Caderno 2", O Estado de São Paulo, 26 de dezembro de 2010.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

BOAS FESTAS


Coberta de flores

a cerca semiapodrecida

também se sente nova

A ÚNICA PESSOA NA FACE DA TERRA


Escrevo apenas em momentos de intensidade. Um romance vai tomando corpo a partir do acúmulo de observações, frases e memórias, que num instante de choque se unem e se reproduzem ficcionalmente, afastando-se de suas origens. Assim, só consigo escrever tendo à disposição muitas horas de trabalho e durante semanas seguidas, sem interrupções da vida familiar ou social. Quando abandono um relato, ele perde a temperatura e não consigo retomá-lo. Para não parar, tenho que começar a escrever sempre pela madrugada, dia após dia, e seguir até o final da tarde. Acordo perto das 4 da manhã, aproveitando o despovoamento da cidade e me sentindo a única pessoa na face da terra. Na hora em que estamos escrevendo somos sempre a única pessoa na face da terra.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

SENHOR ANTÔNIO

1.
De cada palavra meu filho corta uma sílaba.
Comunica-se em um idioma em ruínas.

2.

Aos 3 anos, ele é eterno. Começará a morrer quando aprender as horas.

3.
Pergunto de que cor ele é.
– Marrom – ele me responde, embora seja branco como o leite.
– E de que cor sou eu?
– Azul-papai – ele diz, apesar de minha cor de cuia queimada.
Antônio conhece todas as cores, mas opera uma paleta imaginária.

4.
Toda vez que vê um caminhão, pergunta o que ele carrega.
E eu então invento: anjos, nuvens, morcegos...

5.
Enquanto sou fotografado, ele me olha.
Será que vai se lembrar desta cena daqui a 20 anos, quando encontrar estas fotos?

6.
No parque, pergunta o que é aquela construção onde eles entraram.
– Um palácio – diz a mãe dele.
– Então o rei sou eu?

7.
Na Páscoa, pintamos patinhas de coelho saindo da janela da sala, no primeiro andar, e acabando num ninho de ovos.
Antônio olha tudo e pergunta:
– Coelho voa?

8.
Saindo do banho, Antônio abraça a mãe e diz:
– Mãe gostosa.
E completa:
– Você é macia.

9.
– Mãe, comi tanto papá que minha barriga quer quebrar.

10.
Ele abaixa a calça e mostra o pipi ereto:
– Olhem, ele está fazendo careta.

11.
Molhando o pincel numa poça na calçada, Antônio diz estar pintando a parede na cor da água.

12.
Risca o livro impresso em papel bíblia, mostrando-o, todo orgulhoso:
– Eu também sabe escrever, pai.

13.
– Cuidado! Estes cachorros são brabos – eu aviso.
– Não são brabos não, pai. Eles são é felizes.

14.
Quando não aceito carregá-lo, pergunta:
– Ei, seu colo parou de funcionar?

15.
Ele disca um número, depois começa a rugir muito alto no telefone.
– O que está fazendo?
– Ligando pro leão, ué.

16.
Ainda sem saber definir seus estados de alma, quando se entristece diz que está muito malvado.

17.
Ele me desenhou no Dia dos Pais, colocando o desenho debaixo da porta do escritório. Daí cho­­rou porque queria o presente de volta.

18.
– Você se sujou todo, Antônio. Que feio!
– Pare com isso, pai, eu sou é lindo!

19.
– Que foi isso? – pergunto.
– Nada, só o meu bumbum dizendo pum.

20.
Ele diz, chegando ao cabo e à cápsula de sementes:
– A maçã também tem esqueleto.

21.
Perdi meu pai na primeira infância. E agora meu filho declara:
– Eu já fui o seu pai.

22.
Ao ver as nuvens cinzas, diz o menino:
– O céu está caindo.

23.
Dormindo ao lado de meu filho, sinto que o sono dele tem muito mais raiz.

24.
Apontando a lua minguante, ele fala:
– Olha, a lua está quebrada.

25.
– Você deve guardar este segredo – digo.
E ele questiona:
– Onde, aqui dentro da boca?

26.
Antônio se aproxima e diz:
– Vou me casar com a Mel.
(Mel é a nossa cachorrinha.)
– Por que você quer se casar com ela?
– Pra ter alguém pra dançar.

27.
– A sua mão, pai, é uma aranha. A mão da mãe é outra.
E daí Antônio junta as nossas mãos, dizendo:
– Agora, aranhas, se apaixonem.

28.
– Quando eu for criança igual a você – digo a meu filho –, talvez eu aprenda a não sofrer.

In "Caderno G", Gazeta do Povo, 21 de dezembro de 2010.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

DESCOBRIDORES

Existem os descobridores de talento, de modelos, de oportunidades de mercado etc. O descobridor é uma pessoa que desenvolve um olhar especial para ver aquilo que a maioria nem sequer imagina. São, portanto, figuras necessárias para criar tendências e histórias de sucesso, fazendo a máquina do mundo capitalista funcionar.
Da minha parte, sou uma ne­­gação também nesta tarefa. Não consigo descobrir objetos cotidianos nos seus lugares mais pro­­váveis. Por exemplo, tenho que pegar a tesoura para um trabalho rápido. Sei que ela fica em determinado armário, com apenas três gavetas. Reviro o conteú­­do destas sem o menor sucesso. Daí já brigo com a família que sempre tira as coisas do lugar.
– É impossível viver sem um mínimo de previsibilidade.
Alguém se aproxima e, de longe, acha a tesoura que estava invisível para mim.
– Só pode ser magia negra. Algum diabinho que tira as coisas e depois as devolve para zombar da gente.
É claro que nem eu acredito nesta desculpa. Mas é preciso ter alguma coisa para dizer nestes mo­­mentos em que somos desmascarados.
Nesta área das habilidades hu­­manas, tenho apenas algum su­­cesso com a descoberta de bares. Sei que esta é uma ciência supérflua, e que não me dará nem no­­toriedade nem dinheiro, ao con­­trário, consumirá mais os meus rendimentos, mas há décadas tento descobrir lugares adequados para beber.
Num conto famoso de Ernest Hemingway (1899-1961), “Um lugar limpo e bem iluminado”, o narrador recusa os bares e bodegas, preferindo passar as suas ho­­ras de folga em cafés muito bem organizados. Teme voltar para casa e para a sua solidão.
Esta não era a preferência do próprio autor, frequentador contumaz de todos os botecos.
Em Madri, fiz o périplo pelos balcões preferidos do velho Ernest. Passei duas noites bebendo dry martini no Museo del Chicote, na Gran Via. Depois desta aventura (voltar caminhando e sozinho às 4 da manhã para o ho­­tel), um amigo me disse que aquilo não passava de coisa para turista ver, raro mesmo era o bar de um hotel, não guardei o no­­me, onde estava escrito:
Neste bar Hemingway NUNCA bebeu.
Sem me corrigir neste turismo etílico, estando em Havana, passei pelos locais do escritor, a sua casa em Finca Vigia, o hotel onde morou por um tempo (Hotel Ambos Mundos) e por seus bares. Foi um começo de noite agradável que gastei no restaurante-bar Floridita, na Obispo 557, esquina com a Monserrate, um dos 7 mais famosos do mundo, onde bebi daiquiri, o drinque que o Ernest tomava. Há uma estátua dele ali. De recordação, trouxe uma bolacha para copos.
Mas os bares famosos não podem ser descobertos. Ou melhor, eles só são famosos porque alguém já os descobriu há muito tempo.
E bar não é um lugar para ir numa visita rápida, é antes de tudo uma extensão da casa e do trabalho. Um lugar que freqüentamos com alguma assiduidade.
Estou sempre à procura desse tipo de boteco. Para eu me sentir bem, é preciso que ele preencha alguns requisitos. Ter um lugar em que eu possa sentir como meu. Uma mesa. Um canto de balcão. Uma marquise ou varanda.
Não ser muito cheio, mas ter uma clientela mais ou menos fixa. Cada bar é lugar de uma turma, que se encontra para falar de seus assuntos prediletos. Mesmo não fazendo parte desses grupos, é bom saber que eles estão por perto.
Quem gosta de bar não gosta de bêbado, e sim de beber. Beber em paz. Boteco onde os alcoólatras em fim de carreira estacionam são extremamente inadequados. Eu evito.
Um bom bar deve ter também caráter. Não pode ofertar todas as novidades da indústria de bebidas e alimentos. E deve manter alguns ingredientes tradicionais e meio escandalosos – como torresmo frito na hora. Um bom boteco é sempre um tanto antiquado.
Os melhores bares ficam ou no centro (a cidade pode ser grande ou pequena) ou bem na periferia. Os desta localidade geralmente são um misto de bar e mercearia, e você encontra alguma comida especial feita para os freqüentadores.
Ao contrário do que pensava o narrador do conto de Ernest, bar tem que ser um pouco escuro, criando certa proteção para quem bebe de dia. Pois só ama de fato os bares quem sente vontade de passar a tarde toda neles, vendo o movimento da cidade em suas urgências na maioria das vezes desnecessárias.
Quando acho um lugar assim, começo a bater ponto uma ou duas vezes por semana. Não que eu só beba uma ou duas vezes por semana, mas é que preciso dispor de mais de um endereço onde eu seja acolhido. Sinto-me seguro com esta possibilidade. Em um, tomo chope. Em outro, a cerveja tal. Naquele, bebo uma dose de pinga, um martelinho, como dizem os entendidos.
Nas viagens a outras cidades, sempre ando pelo Centro para identificar um ou dois bares em que eu possa rapidamente criar alguma camaradagem no curto espaço de exílio.
Onde houver um bar assim, ninguém estará completamente sozinho.

In "Caderno G", Gazeta do Povo (Curitiba), 14 de dezembro de 2010.

sábado, 11 de dezembro de 2010

ALUGUEL

Texto de Regina Zilberman sobre minha antologia poética Alugo palavras (Erechim: Edelbra, 2010).

"Alugo palavras é uma narrativa? É um livro de poesia? Ou é obra memorialista?
Para essas perguntas, há um sim e há um não. Sim, o autor conta uma história, pois ele se expõe, com nome e sobrenome, desde a introdução; sim, poemas se apresentam em quase todas as páginas, e mesmo os trechos em prosa são líricos; sim, o fio da memória monitora o discurso do autor, que se manifesta em primeira pessoa e relembra sua trajetória.
Mas não: Alugo Palavras não é isso, porque não se define por um único gênero. De fato, é uma narrativa, um livro de poemas, um texto memorialista, o que a torna uma obra magnífica sobre a criação e sobre o modo como as palavras se oferecem ao ser humano, povoam seu imaginário e fazem dele um artista.
Acompanhe esse percurso e seja você levado a buscar nas palavras o mundo fantástico que elas nos presenteiam"

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

VOCAÇÃO

Ainda não existem homens que, na hora de preencher o campo destinado à profissão em algum formulário, declarem: do lar. Muitos chefes de família, no entanto, estão se dedicando por hobby à culinária. Fazem cursos com os melhores especialistas, criam cardápios sofisticados e se esmeram na cozinha de casa. No geral, a comida masculina é mais generosa e menos rotineira.
– É porque vocês só cozinham de vez em quando – revida mi­­nha mulher.
Domino a ciência de uns poucos pratos, todos eles rústicos, mas não tenho o menor orgulho disso. Minha comida faria sucesso em um acampamento, numa expedição de pescaria ou em alguma situação do gênero. Nem mesmo me saio bem no churrasco dominical, e com isso a churrasqueira aqui de casa anda de fogo morto.
É que a concorrência é desleal. Minha mulher cozinha bem, tem um senso estético na hora de montar os pratos, sabe modificar as receitas de acordo com os ingredientes disponíveis e domina todos os meus gostos. Sento-me à mesa e como com a boca boa – esta é a melhor forma de elogiar um prato.
Refeições em casa, principalmente no final de semana, quando a empregada não está, sempre tem uma complicação: lavar a louça. Muitos podem até gostar de cozinhar, preparar drinques, assar carnes, mas dar contar da tralha suja é algo que não entra na lista de preferências das pessoas.
É o momento menos estético da refeição. Depois de ter decorado travessas, alternado cores, disposto copos, taças, talheres na mesa, fazendo-os combinar com a toalha escolhida para aquele momento, ou seja, depois de todo um exercício artístico, vêm os pratos lambuzados, restos, talheres engordurados, travessas que devem ser esvaziadas.
Já ouvi, da mulher de um amigo, que ela não cozinha porque não suporta nem olhar para a louça suja.
E louça suja é algo que não falta aqui em casa. Com imensa generosidade, minha mulher vai espalhando alimentos e objetos pelo longo balcão em forma de L. A me­­sa também fica cheia de coisas, com um ou outro eletrodoméstico usado. Ela trabalha com muita rapidez, sem tempo de ir organizando. Então, a cozinha é a versão reduzida de um cenário de terremoto.
Se estou sem trabalho urgente para entregar, faço-me ajudante. Vou guardando coisas, fechando embalagens, devolvendo à geladeira e aos armários o que não vai ser usado etc.; e ainda desempenho pequenas tarefas: descascar alho, cortar cebola, abrir um vidro de palmito, lavar as verduras.
Mas a minha contribuição maior para as refeições de final de semana é quando retiro do armário o escorredor de louça, instalando-o ao lado da cuba da pia. Com o frasco de detergente na mão esquerda e a buchinha na direita, torno-me uma pessoa perigosa. Numa destreza um tanto caricata, como se tivesse que bater algum recorde, começo a esfregar panelas e outras peças e pôr para escorrer. Quando o escorredor está transbordando, retiro um guardanapo limpo da gaveta, enxugo as louças e as guardo.
Nestas ocasiões, o cheiro da comida sendo preparada me deixa alegre. Trabalho como uma pessoa orgulhosamente vocacionada para aquilo.
Minha mulher me chama para experimentar o molho ou o sal de algum prato. E este é um momento mágico. A comida ainda não está pronta, o arroz arbóreo trinca nos dentes, mas o molho cremoso de funghi secci que o envolve está divino. Só os cozinheiros e os ajudantes conhecem o sabor dos pratos em seus estágios preliminares.
Enquanto corto os palmitos em rodelas, devoro uns pedaços. E assim, antes da refeição, vou me alimentando. Mas a degustação se dá em quantidades tão mínimas que, quando sou convocado para a mesa, como se fosse uma visita, estou ainda faminto.
Durante este trabalho, é comum eu abrir uma cerveja ou um vinho. Então, levo meu copo e a garrafa para a mesa. Eis a pequena família reunida em torno do alimento preparado com alegria. Aos poucos, vamos estragando os pratos tão cuidadosamente construídos. Uma mancha de molho ganha a toalha. Nódoas de gordura embaçam os copos. O vinagre balsâmico deixar cair uma gota escura na travessa de arroz branco. É a vida que se impõe.
Ao final, depois dos filhos já terem deixado a mesa, começamos a ordená-la. Limpar e empilhar os pratos, separar o que vai ser guardado. Poderia ser um momento depressivo (“Tanto trabalho para estes instantes fugazes de satisfação?”), mas estou entusiasmado.
Levo tudo para a cozinha, criando uma seqüência. Primeiro, os copos e similares. Depois, os talheres. Em seguida, pratos e travessas. Por último, as coisas mais engorduradas. Começo a lavar a louça em estado de graça.
– Em estado de leve alcoolismo – brinca minha mulher.
Depois de armazenar o que sobrou, ela me pergunta se quero uma ajudante. Não preciso dizer nada, pois ela já empunha um guardanapo que acabou de retirar da gaveta.

In "Caderno G", Gazeta do Povo (Curitiba), 07 de dezembro de 2010.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O QUE FAZER COM ESSAS MÃOS?

Se fosse possível, os tímidos não falariam. Também gostariam de ser invisíveis. Esta seria a suprema felicidade: não ser visto e, ao mesmo tempo, poder observar o mundo, participar dele de forma discretíssima. Os tímidos amam as pessoas, as conversas, as reuniões, as festas, o único problema é que eles morrem de medo de passar por constrangimentos.
Então criam defesas. Não po­­dendo ser invisíveis, eles tentam desenvolver uma couraça. Agem como se não estivessem ali. Mo­­vem-se sorrateiramente, esquivando-se de uma multidão que os atrapalha, uma multidão imaginária, mas que atravanca todos os caminhos. Por isso os tímidos estão sempre olhando para baixo, para não pisar nos pés de ninguém, desses ninguéns que só existem em nossas cabeças.
Sim, sou um dos tímidos e já passei por muitas provações.
Tomar o elevador, por exemplo, é uma experiência muito difícil. Entro em um elevador cheio, sinto o hálito abafado, e logo procuro o painel que revela os andares. Por mais rápido que seja o elevador, a viagem acompanhada se faz lenta. Se alguém conversa durante o trajeto, sinto-me em pânico. Não quero essa proximidade tão grande com um desconhecido. Acho meio obsceno sa­­ber coisas da vida de alguém que não existe para mim. Grudo meus olhos no painel, melhor quando este fica no alto, daí posso focar um ponto acima da cabeça dos demais ocupantes daquele espaço coletivo.
Para os tímidos, os elevadores deveriam ser individuais.
Pior ainda é quando alguém faz um elogio público. Claro, em boa medida esses elogios são convencionais. O protocolo manda que se enalteça o trabalho do convidado. Participando de muitas situações formais, acabo ouvindo elogios. É o momento mais doloroso. Todos olhando para você, uma pessoa falando coisas sobre sua vida, sua trajetória, dizendo isso e aquilo do seu trabalho. Nas fotos que me revelam nesta circunstância, estou sempre com uma cara de assustado. Parece que a qualquer segundo vou sair correndo dali. Não saio, o tímido nunca é corajoso o suficiente para uma indelicadeza dessas.
Não sei também agradecer estes elogios. Deveria dizer umas tantas palavras doces, criando assim um clima diplomático. Mal consigo pronunciar um obrigado. Não fui feito para a urbanidade.
– Não vai me dizer que você não gosta de elogio? – me pergunta meu diabinho interior.
Gosto. Todos gostam. Mas prefiro saber deste elogio por meio de outra pessoa. Ou identificar no silêncio de olhares de um interlocutor a sua admiração pelo que faço. Ou mesmo ler um texto que revela a dedicação carinhosa a algo que produzi. Mas não suporto o elogio direto, mesmo quando sei que ele é verdadeiro. Isso me queima o rosto. Sobe um calorão até minhas orelhas. Vem uma vontade de me desmaterializar.
Como tenho sido convidado para falar em eventos, e como sou incapaz de dizer não, principalmente se o convite for feito ao vivo ou por telefone, vejo-me desprotegido diante das apresentações oficiais. Então, quando começo a fala, estou completamente atordoado por minha timidez.
E tenho que corresponder ao perfil traçado por quem me apresentou. Não posso frustrar. Os tímidos desenvolvem com o tempo um senso se responsabilidade extremo.
Nestas situações, fico sempre com as mãos movendo-se em descompasso com o resto do corpo, com os olhos perdidos num ponto neutro, com contrações musculares na face. Estou funcionando fora de meu ritmo normal. Minha voz, que na intimidade é fraca, se faz ardida e muito alta. Enfim, o motor trabalha em rotação máxima.
Na hora das fotos oficiais dos eventos, eu não sei onde pôr as mãos. Os tímidos nunca sabem onde pôr as mãos. Mas o bom desse estágio é que tudo já acabou. Podemos voltar para o hotel, sair para jantar ou fazer qualquer outra coisa. Sobrevivemos.
A vontade que dá é de beber até perder a consciência, para acordar no outro dia sem a menor lembrança da noite anterior. Mas não bebo tanto assim, e passo a noite me vi­­rando na cama, principalmente se for de um hotel. Recordo a face das pessoas, vejo-as irritadas comigo, tento entender a restrição ao que falei nas perguntas que me fizeram. A palestra não acabou. Passo a noite na mesma tensão.
Porque um tímido sofre até na presença da própria memória.

In "Caderno G", Gazeta do Povo (Curitiba), 30 de novembro de 2010.