segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

GENÉRICO


Há quem me ame profissionalmente
porque são amigos ou parentes
ou admiram uma ou outra coisa
que por acaso eu tenha feito.

Mas eu gostaria de ser amado
por quem nada sabe de mim
nem cogita a possibilidade
de eu um dia vir a existir.

Apenas sendo amado desse jeito
digamos – genericamente –
é que eu ficaria um pouco crente
nessa minha já quase ausência.

4 comentários:

  1. ih, ser amado desse jeito eu acho meio difícil. beijos, pedrita

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  2. Amor genérico - I

    A minha vizinha tem uma estranha mania
    Seu passatempo maior, quase profissão
    É aliviar a dor de animais desgarrados
    Seu quintal cheira a cães e gatos feridos.

    Conheço outras gentes que só fazem na vida
    Proteger a Amazônia, suas florestas tropicais,
    Cuidar do planeta, do clima, bichos ameaçados.
    A ecologia é sua fé, salvar animais, sua lida.

    Desconheço este amor, que exista não duvido,
    Tantas pessoas evoluídas, tanto amor desprendido,
    Mas cadê, entre tantos amores proclamados tão alto,
    O amor aos poetas, ao bardo, rara espécie em perigo?

    Amor genérico - II

    Amor genérico existe? Talvez entre Cristãos,
    Bahais, Muçulmanos, então entre os Budistas.
    Tais espiritualistas proclamam sem maldade
    Seu amor irrestrito por toda humanidade.

    Não sou tão elevado, sei amar quem me ama,
    Quem me acompanha, nas festas, nos perigos,
    O amigo que não me poupa quando estou errado,
    Amor pra ser bom é exigente, e também é ousado.

    Mas o bardo escritor, respeitado doutor,
    Pelos livros que faz, tão admirado,
    Agora quer ser humano simplesmente
    Amado em espécie, amado, genericamente...


    Amor genérico - III

    Se nosso poeta, escritor de renome
    Não se sente amado genericamente
    Talvez o que falte não seja quem o ame
    Mas ao receptor um coração recipiente.

    O Amor pode estar perto, dentro, ao lado.
    Talvez eu nunca saiba, quando estou bloqueado,
    Pois a Lei Maior do Amor, genérico ou não
    É fluir no canal, sempre em duas mãos.

    As últimas palavras da banda preferida
    Já resumiam toda a filosofia desta vida:
    No final meu amigo, o amor que se tem
    É igual ao amor que se dá, que se faz bem.


    "And, in the end, the love you take is equal to the love you make."

    (Beatles' last words of their last album)
    Para Miguel Sanches Neto, em 31/01/2011 23h49

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  3. Ozir Zotto

    Você acaba de inventar uma forma de crítica literária em versos. E toda a crítica é amor genérico.
    abraço
    msn

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  4. Grato!

    Que bom se sentiu-se amado genericamente.

    Mas não sou tão neutro assim. Há anos leio suas colunas na Gazeta, que me conduziram aos seus livros, e recentemente ao Twitter e ao Blog.

    A admiraçao e identificação com alguns de seus textos é tão plena que sempre me remetem àquela canção do Milton:

    "Certas canções que ouço
    Cabem tão dentro de mim
    Que perguntar carece
    Como não fui eu que fiz?"

    Com o fim da coluna de crônicas, perdemos nós, os leitores da Gazeta.

    Com o novo espaço de crítica literária, ganham os escritores, as editôras, os profissionais da área, enfim. Com a atuação de um crítico qualificado e independente, como já mostrou ser, certamente, a Literatura brasileira também ganhará.

    Abraço.

    Ozir

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