domingo, 16 de janeiro de 2011

PROTEÇÃO


Comentam que fulano me odeia,
e isso seria normal se eu tivesse
feito alguma maldade para ele.
Nada fiz, quase o ignorava,
e no entanto ele me odeia
de uma maneira doentia.
Tantos devem sentir o mesmo.
Tenho muitos inimigos ocultos,
tramando coisas que desconheço.

Nascido com este triste dom,
quando entro em algum ambiente
identifico os olhares de desprezo.
E, como defesa, provoco a platéia
com opiniões, gestos e risos,
atraindo para mim mais ódio ainda.

À noite, esgotado pelos conflitos,
eu me lavo demoradamente
depois de atirar as roupas do dia
no cesto que fica no banheiro.
Visto um pijama e logo durmo
para, de madrugada, retomar
esta minha cruzada sem rumo.

Não posso ser de outro jeito.
Desperto os piores sentimentos
em pessoas que nem conheço.
Odiando-me elas se aliviam
nesse processo terapêutico.

Como única forma de proteção
conto com estas roupas comuns
sobre uma pele mais que fina,
roupas que retêm no tecido
o que contra mim se destila.

A empregada deixa de molho
por um tempo, estas roupas,
lavando-as com muito amaciante,
fazendo-as secar ao vento.
E quando as visto novamente
é como se nunca tivessem
ficado retidos entre seus fios
tanto ódio e ressentimento.

3 comentários:

  1. isso é bastante perceptível em reality shows. o bbb começou há uma semana e já há gente no twitter dizendo q odeia este ou aquele participante. fica explicando como se fosse explicar um ódio tão abstrato. se um casal q vive há 40 anos já se surpreende na vida, pq alguém q vê outro em uma semana não se surpreenderia? muito estranho esse ódio gratuito e o quanto a internet proporciona e alimenta esse ódio já q muito do q se diz pode ser "anônimo". beijos, pedrita

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  2. Pedrita, é ódio que nos une.
    abraço
    msn

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  3. O simples fato de existirmos e de estarmos aqui parece já ser suficiente para despertar o ódio em muitos. O que me leva a supor que esse sentimento é, antes de tudo, algo do outro. Não depende do que façamos. Tudo o que fizermos será desculpa para justificar um sentimento carregado pelo outro.

    Quanto alguém, como um escritor do seu porte, resolve dar vez à luz, jogar brilho na escuridão, normal que os "morcegos" se incomodem, e rosnem, como se fossem lobos.

    Avante, Miguel! Eles podem te odiar. Muitos outros, em silêncio, te amam. De verdade.

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