quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

ANTONIO CARLOS VILLAÇA


Nesta foto, com Carlos R. Carvalho, de 2002, Antonio Carlos Villaça (1928-2005) esperava o fim. Eu o visitei, na companhia de André Seffrin, talvez em 2003, e ele ainda habitava a cadeira da biblioteca do Pen Club - única instituição à qual pertenço, embora nunca tenha ido tomar posse. Havia uma mesa ao lado, entupida de livro. E, na frente, uma televisão. O memorialista, autor de um dos mais belos livros autobigráficos do país, O nariz do morto, se distraía naquele fim de vida assistindo a programas de tevê. Já não andava. Esta é a imagem que guardo dele. Debilitado mas muito entusiasmado contando histórias das grandes figuras que ele conheceu. Não eram histórias inocentes de um monge, mas de um menino com um interesse sujo pela vida.
Em 2006, escrevi a orelha do livro dele O pensamento católico no Brasil, que foi reeditado pela Civilização Brasileira.


Abaixo, a crônica que publiquei em um jornal de Ponta Grossa.



VISITA AO VILLAÇA

O táxi nos deixa na praia do Flamengo e subimos ao nono andar do prédio do Pen Club, onde está instalada a biblioteca desta entidade, com seus 17 mil volumes. Mas não estamos apenas na biblioteca, e sim na cela monástica de um de nossos mais importantes memorialistas, homem da mesma têmpera de Pedro Nava. Ao entrar na sala, encontramos Antonio Carlos Villaça, mestre Villaça para nós, seus leitores, sentado em uma poltrona marrom coberta por um lençol, trajando roupas que lembram vestimentas hospitalares, pernas descobertas sobre uma banqueta.
Ex-morador de hotéis, eterno celibatário, que já tentou a vida de monge, homem voltado para o plano espiritual, avesso às atividades práticas, Villaça ganhou, para morar, a ampla biblioteca do Pen Club. Está em seu ambiente, a poltrona rodeada de livros, entre eles o volume de cartas que Alceu Amoroso Lima escreveu à sua filha recolhida ao convento. Morar em uma biblioteca pode parecer algo insólito para as pessoas, mas quisera eu, em meus dias de velhice, receber tal dádiva. Iria gastá-los, e como os gastaria bem acompanhado, nesta solidão saudável dos livros.
Assumindo-se desde sempre como homem eterno, voltado para as coisas da alma e da palavra, o autor deste clássico chamado O Nariz do morto tem uma voz vívida e um grande entusiasmo para a conversa. Passamos, o crítico André Seffrin e eu, belos momentos a ouvir Villaça, que quase já não anda. Em certo momento, pede para eu ir à sacada do prédio e contemplar a vista. Mas a melhor paisagem, de natureza humana, é a que está ali dentro.
Lembra-se assustadoramente de todos os detalhes, do convívio com Manuel Bandeira e com Carlos Drummond de Andrade, do grupo católico ao qual pertenceu. E, olhos úmidos, vai falando de pessoas mortas, em cuja companhia o memorialista não deixa de estar. Não é um triste, repete com alegria casos pitorescos do convívio com grandes figuras, revelando-se narrador primoroso, sempre com voz firme, apesar da doença que o tirou do combate da vida literária.
Villaça interrompe suas histórias e começa a falar do Paraná, onde esteve durante larga temporada para trabalhar no programa de capacitação de professores de Faxinal do Céu. Entre estas reminiscências, diz que basta fechar os olhos para se lembrar nitidamente de Ponta Grossa, de seu centro montanhoso, do verde da região. Está comovido quando fala da cidade e me pede que visite o Mosteiro da Ressurreição, onde se encontra, segundo Villaça, um contista de qualidade, que deixou Brasília para assumir sua vocação monástica com o nome de Irmão Antão. Prometo fazer a visita e ficamos falando de Ponta Grossa, terra do grande poeta modernista Brasil Pinheiro Machado. Villaça se comove e nos comove com seu amor aos livros e aos homens de caráter.
Saímos da biblioteca do Pen Club com a alma límpida, quarada no sol da bondade e da inteligência.

2 comentários:

  1. Pessoa interessante!
    Não conhecia, mas agora, a leitura dO Nariz se tornou quase obrigatória.
    Já pedi. Vou conferir.
    Obrigado, uma vez mais, Miguel, pela generosidade com que publica aqui seus comentários e indicações.

    ResponderExcluir
  2. Relato cativante. Que imagem bonita, morar numa biblioteca.

    Além de ler, gosto muito de viajar.
    Aposentado há 9 meses, tenho tido a oportunidade de viajar bem mais do que os 30 dias no ano que antes conseguia.
    Mas cada viagem que faço me cria o que chamo um problema bom: pelas pessoas e lugares que vou conhecendo, em vez de diminuir, minha lista de lugares a visitar (ou rever com mais tempo e dedicação) só aumenta.

    Como ler esse texto e, além dos autores citados que ainda não li (Villaça, Pedro Nava), não desejar imediatamente reler Manuel Bandeira, Drummond, A Biblioteca de Babel e todos os contos de Ficções de Jorge Luis Borges?

    Ler Miguel Sanches Neto me traz um problema ótimo: minha lista de leituras e releituras só aumenta.

    Obrigado Miguel!

    ResponderExcluir