Escrito em 1905 e publicado em 1909, Recordações do escrivão Isaías Caminha (Penguin & Cia. das Letras, 2010) talvez seja a obra-prima de Lima Barreto (1881-1922). O romance acompanha o drama de ser mulato em uma sociedade convicta da superioridade ariana e que tentava esconder a mestiçagem que sempre nos caracterizou como país. É uma história vivida na pele pelo jovem escritor (tinha 24 anos) que não encontrava um lugar social condizente à sua genialidade.Caminha, seu alter ego, é um moço talentoso, filho da relação arrependida entre um padre e sua empregada, que se destaca na escola da província e ousa querer continuar os estudos. Cheio de sonhos de realização pessoal, parte para o Rio de Janeiro com pouco dinheiro e uma carta de apresentação a um deputado. Da janela do trem, ele observa as árvores altas, sabendo-se igual a elas. Talvez, por isso, tenta ignorar o conselho quase calado de sua mãe: “Vai, meu filho – disse-me ela afinal! – Adeus!... E não te mostres muito, porque nós...” (p.78).
A sua pretensão de ser doutor despertará o desprezo de todos: do dono do hotel em que inicialmente fica hospedado, e que acusará o único mulato de um furto, ao delegado que o toma por malandro; do deputado que se irrita com essa mania [das classes subalternas] de estudo aos amigos jornalistas com quem convive na condição de contínuo. Sempre cospem na sua cara a palavra “mulatinho”.
Sem conseguir se matricular em nenhum curso superior, Caminha compreende a mecânica social do país, movida pelos títulos de doutor, pelo prestígio dos sobrenomes, pelos interesses econômicos e pelo exibicionismo de uma cultura de fachada. Trabalhando no jornal mais popular do Rio, ele conhece os bastidores das nomeadas, produzidas publicitariamente sem o menor pudor.
Lima Barreto desmascara assim os figurões do momento, fazendo a caricatura de Coelho Neto, João do Rio e outros. Mais do que um desejo de vingança, estes retratos defendem um conceito de língua e de cultura. Avesso aos preciosismos e aos penduricalhos, ele nega a linguagem de figurino ao zombar de seus cultores mais boçais. Como antídoto, Lima Barreto escreve um romance em uma língua viva, próxima do povo, iniciando a modernização de nosso idioma literário.
No romance, Caminha se torna acidentalmente repórter, fazendo-se íntimo da alta boemia. Mas, num passeio rural com o chefe e uma meretriz italiana, esta observa que a paisagem local é feia porque carente de grandes árvores. Caminha, que se identifica a este mato rasteiro por não ter conseguido forças para erguer-se contra o meio, ultrapassando a condição marginal de sua mãe, decide voltar para a roça como escrivão: “A má vontade geral, a excomunhão dos outros tinham-me amedrontado” (p.301).
Seu último ato de orgulho é narrar a própria vida, negando a tese determinista de que negros e mulatos não se destacam por vícios próprios da raça. É a má vontade geral e a excomunhão que os destroem.
Silenciado quando de sua publicação, este romance de estréia antevia o destino do próprio autor. Obrigado a deixar a faculdade para sustentar a família, Lima Barreto passa a viver da colaboração de jornais e de um pequeno emprego público. Rende-se ao alcoolismo, tendo ido parar três vezes no hospício. Sua candidatura à Academia Brasileira de Letras é sistematicamente recusada. E ele morre, solteiro e órfão de afetos, aos 41 anos, justamente em 1922, quando começaria uma valorização de nossa pátria mestiça, da qual ele é hoje o maior ícone.
Coluna Intervalo de Leitura, Gazeta do Povo, 06 de fevereiro de 2011
Ainda mais do que a letra de Lima, me comovem suas dores, tão bem lembradas em seu breve comentário.
ResponderExcluirMuitos discordarão, mas [é minha opinião] a sociedade retratada por Lima Barreto continua, essencialmente, muito parecida. Muitos destinos brilhantes ainda são silenciados, cem anos depois.
Neste momento da nossa história, muito oportuno relembrar a vida de um brasileiro tão injustiçado, cujo talento poderia nos ter dado muito mais, não tivesse sido tão massacrado.
[Ou talvez, não tivéssemos tido uma obra tão contundente como as Memórias de Isaias, se o panorama fosse outro. Teríamos outras, muitas outras. E quem sabe quais?]
Excelente a inauguração da sua nova coluna!
São marcantes para mim duas passagens do romance: a primeira, quando Caminha tenta se decidir sobre ir ou não para a cidade, ele vê aves em bando formando a letra V, de vai. A segunda, quando ele, no bar, estranha por não ser bem atendido pelo balconista.
ResponderExcluirParabéns pela nova coluna.
Parabéns pela estreia surpreendente.
ResponderExcluirLeitor pouco imaginativo, acho que aguardava alguma crítica a livros de novos autores.
Em vez disso, uma justa homenagem a Lima Barreto e sua centenária obra.
Seria a foto que ilustra o artigo a mesma apossada sub-repticiamente do gabinete de leitura em Peabirú? (Herdando Uma Biblioteca, página 18) Tal pensamento me ocorreu ao notar que a foto publicada no jornal é diferente da do blog. Descarto a hipótese rapidamente, pois com a proliferação de imagens na Internet, ambas são facilmente encontradas às dezenas.
Se for para continuar nessa linha, talvez logo tenhamos a sorte de ler outra justa homenagem. Sugiro Augusto dos Anjos, cuja obra EU já é quase centenária, pois foi inicialmente publicada em 1912.
Também seria muito bem-vinda uma análise de Angústia, de Graciliano Ramos, cujas descrições de encontros com os amigos jornalistas me fizeram lembrar, num viés muito diferente, seu Chá das Cinco...
Mais do que sugestões, ficam aí minhas divagações.
Pois certamente o artigo do próximo domingo já está pronto.
Aguardemo-lo pois.
Abraços.
Ozir
Ozir
ResponderExcluirA coluna vai tratar de tudo. A foto de que vc fala é a que saiu no jornal, esta que está no blog eu conheci no original numa exposição sobre manicômios, está no livro de entrada da terceira internação do Lima Barreto, e foi reproduzida na nova edição de Diário do Hospício.
Anos atrás, fiz um artigo sobre Eu, do Augusto dos Anjos. Sobre Angústia ainda não escrevi.
abraço
msn
A propósito de Graciliano, um livro interessante é "Em Liberdade". Ficção de Salviano Santiago que tem Graciliano como protagonista.
ResponderExcluirLi e gostei muito.
Reflexão sobre a vida, sob o suposto olhar de Graciliano, aqui como homem, não apenas escritor, no contexto do Brasil da Era Vargas, sua convivência com Zé Lins e tantos outros da época.