Fui buscá-lo na rodoviária, atendendo a solicitação de um amigo em comum:
– O fotógrafo WB quer fazer um mapeamento de sua cidade, e precisa de um cicerone.
Eu imaginava um desses fotógrafos com parafernálias eletrônicas, caixas e caixas de equipamentos, assessor, veículo próprio, e a obrigação de gastar o máximo para corresponder às previsões orçamentárias de algum projeto de lei de incentivo.
Então foi uma surpresa saber que WB viria de ônibus. Mais surpreso fiquei quando ele se apresentou com a mala estropiada. Enquanto íamos para o meu carro, ele a abriu e mostrou uma confusão de máquinas fotográficas antigas, anteriores às digitais. Eram máquinas comuns, das quais eu quase já não tinha lembrança.
Ele escolheu uma das mais ordinárias, colocou o filme, e disse:
– Podemos ir.
Recusou o carro quando eu o apontei no estacionamento.
– Tenho pouco tempo, gostaria de começar a fotografar a cidade agora.
E seguimos, no sol da manhã, a pé pelo centro. Eu arrastava a mala para ele em alguns momentos.
WB não é de tirar muitas fotos.
– Não desperdiçar os olhares – ele falou, sem que eu o questionasse.
Parava nos prédios, nos muros mais estragados, e ficava longamente estudando as rachaduras. Quando identificava uma com um desenho interessante, fazia a foto. Apenas uma foto.
– Na arte, só temos uma chance.
Gastamos a manhã inteira vagando pelas ruas. Comemos um sanduíche num boteco, e saímos em busca de mais imagens. Eu estava feliz, sempre gostei de andar pelo centro e de olhar os prédios, estudando os aspectos artísticos que o tempo vai desenhando nas paredes. Diante de uma parede com muitas estrias, eu disse para WB:
– São raízes de futuras ruínas.
Ele gostou da frase, tirou uma caderneta suja do bolso da calça e tomou nota.
– É uma boa definição. O tempo transforma tudo em ruínas, em alguns lugares mais rapidamente do que em outros.
– Você vai fazer uma exposição?
– Não, não fotografo pra isso. Alimento um arquivo. Só registro cidades com prédios precários.
E continuamos tarde adentro neste trabalho. Mesmo com um olhar parcimonioso, WB gastou 2 filmes em duas máquinas diferentes, reclamando ao guardar o equipamento.
– Está cada vez mais difícil achar filmes.
– Por que você usa esses modelos?
– Comecei a fotografar com eles; não quero que o meu olhar se modifique. Da primeira à última imagem de meu arquivo, haverá sempre o mesmo recurso técnico.
– Então é por uma questão de coerência?
– Melhor seria dizer que é por uma questão de fidelidade a mim mesmo.
No final do dia, tomamos cerveja num bar perto da rodoviária. Ele pediu uma Original, e não tive coragem de dizer que esta cerveja não era mais feita aqui.
Quando o despachei no ônibus, ele pediu meu endereço postal, mandaria as fotos de nossas raízes.
E se despediu, misteriosamente:
– Se acontecer alguma catástrofe, não me culpem.
As fotos ainda não chegaram, talvez ele as revele em casa, e este processo artesanal demora muito. Mas, desde aquele dia, não deixo de estudar atentamente as rachaduras dos prédios que frequento.
D’pontaponta, janeiro/fevereiro de 2011, n. 184.

quem me dera ver essas fotos. Quem sabe eu não reconheça impreganado nas ruínas de minha terra algo da "minha humanidade de tísico".
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