
Coluna Intervalo de Leitura, in Gazeta do Povo, 13 de fevereiro de 2011.
Apresentado como romance, Entre Assassinatos, de Aravind Adiga (nascido em Madras, 1974), é um vigoroso volume de contos sobre uma pequena cidade da Índia, Kittur, no período de 1984 a 1991, anos dos assassinatos, respectivamente, de Indira e Rajiv Gandhi, e que podem ser vistos como o fim de toda uma era. Não há uma relação de continuidade entre essas histórias, mas elas funcionam como um painel infernal (à la Dante) do momento de integração da Índia ao moderno mundo do consumo, sem que o país tivesse ainda se libertado da exploração dos subalternos.
Se em O Tigre Branco (2008), romance de estreia de Adiga, a história era apresentada em primeira pessoa, definindo assim o tom cínico do livro, pois é um emergente ingênuo e deslumbrado que escancara os expedientes criminosos usados para subir na vida, há nesta nova obra uma multiplicação de vozes que amplia o registro simbólico que o autor faz daquela realidade.
Como quer mapear Kittur, ele intercala aos contos pequenas descrições urbanas – do comércio central aos lugares sagrados, da região dos pobres aos bairros ricos. Em cada um desses pontos, há personagens atormentados por suas circunstâncias.
O dono de uma fábrica de camisas que explora as costureiras poderia ser o típico empresário vilão num país pobre, mas padece de um dilema interior: como é sistematicamente visitado por fiscais ávidos por propinas, tem que escolher entre aceitar a corrupção, com pequenos atos de rebeldia (suja com as próprias fezes o uísque que serve aos fiscais), ou enfrentá-los e ser perseguido.
Escolhendo um conjunto bastante amplo de personagens, dos brâmanes, saudosos da época em que dominavam a Índia, aos agricultores pobres que pertencem à casta mais baixa, os hoykas, e representantes de outros grupos raciais ou religiosos, Aravind incorpora à literatura contemporânea uma babel social, marcada pela corrupção que se alastrou cancerigenamente por todos os setores: “Milhares, sentados em casas de chá e universidades e lugares de trabalho, a cada dia e cada noite, amaldiçoavam a corrupção. Ainda assim nenhuma só pessoa havia encontrado um modo de matar o demônio sem abrir mão de sua parte na pilhagem” (p.43).
Neste universo, ser honesto ou solidário é pôr em risco o pouco que se tem. É isso que acontece com o vendedor que falsificava remédios para doenças sexuais. Ele também vendia um livro sobre a corrida dos ratos, obra de autoajuda destinada a quem quer vencer a qualquer custo. O próprio vendedor estava nesta disputa, trabalhando duro para arranjar o dote e casar suas três filhas. Mas descobre que o pretendente da primeira delas está com uma doença sexual terrível. Embora não consinta o casamento, comove-se com a situação do jovem. Ele deixa o seu trabalho para ajudar o ex-quase-genro mais por uma questão de consciência, por se sentir um charlatão, do que por piedade, podendo com isso arruinar a vida de todos os familiares.
O último conto apresenta um processo inverso. O brâmane rico e bem formado, que se tornara comunista para ajudar os subalternos, apaixona-se por uma órfã pobre. O que era interesse social, marcado pelo idealismo herdado de Gandhi, se faz lascívia. Ele então se vale de sua casta para prejudicar a moça que o desprezara sexualmente.
Avesso à onda de cosmopolitismo turístico, Aravind constrói um livro intenso e impecável, em que a cidade de Kittur se transforma no modelo reduzido da Índia e a própria Índia em uma metáfora sofrida dos países periféricos, onde todos são transformados em seres corruptos e corruptores.
Serviço:
Entre Assassinatos, de Aravind Adiga. Tradução Diego Alfaro. Nova Fronteira, 340 páginas. R$ 39,90.
Entre Assassinatos, de Aravind Adiga. Tradução Diego Alfaro. Nova Fronteira, 340 páginas. R$ 39,90.
anotado. beijos, pedrita
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