in Caderno G, Gazeta do Povo. Curitiba, 20 de fev. de 2011.Mantido inédito por um autor que, nos últimos anos de vida, trabalhou em ritmo industrial, O Terceiro Reich, romance que Roberto Bolaño (1953-2003) concluiu em 1989, não traz ainda a tendência narrativa para a dispersão multifocal que marcaria o seu estilo cultuado a partir do sucesso de Os Detetives Selvagens (1998). Publicado apenas em 2010, ele está mais próximo, tanto pela localização espacial (um balneário ao lado de Barcelona) quanto pela preocupação de construir uma história melhor arrematada, de A Pista de Gelo (1993) do que das últimas obras. Em ambos os livros, sobressai uma velocidade textual que toma conta do leitor, quase que o hipnotizando.
O enredo tinha tudo para ser monótono. Um jovem alemão (Udo Berger) vai passar as férias com a bela namorada, Ingeborg, no litoral da Catalunha, escolhendo o mesmo hotel onde, na infância, gastava os verões na companhia dos pais. O retorno não é acidental, ele quer rever a bela dona do estabelecimento, Frau Else, por quem nutriu um amor secreto. Especialista em jogos de guerra, Udo tem dois projetos para as férias: escrever um artigo técnico sobre o seu passatempo e preparar-se para produzir um romance. Resolve então se dedicar a um diário – que é o livro em questão.
Os dias iniciais se perdem na monotonia própria da praia. Banhos de sol (dos quais ele foge), amizades novas e perigosas (entre elas, um casal de conterrâneos), saídas para casas de show, bebedeiras etc. Enquanto isso, Berger arma o seu jogo em uma mesa no quarto e começa a teorizar sobre ele. Há, assim, um contraste entre a vida exterior (descompromissada) e a interior (tensa por conta de sua dedicação aos jogos – ele é campeão nacional desta modalidade de esporte). Aos poucos, a vida interior vai se sobrepondo à outra, e tudo assume um ritmo alucinante. O amigo alemão (Charly) morre depois de ter espancado a namorada; Ingeborg se assusta com a vila marítima e vai embora; Berger é atraído por um homem musculoso e todo deformado (o Queimado), que mora na areia da praia, vivendo de alugar pedalinhos.
Sozinho no hotel, sem sair e acordando tarde, ele convida este conhecido para disputar o jogo, reencenando a Segunda Guerra Mundial: com Queimado no papel dos aliados e Berger no dos alemães. É um jogo longo, que avança durante várias noites. O campeão ensina as regras ao inimigo e, aos poucos, começa a ter dificuldades para batê-lo.
Paralelamente, Udo tenta seduzir Frau Else, que espera a morte do marido muito doente. As suas férias acabam suspensas e se acirram as rivalidades amorosas e nacionais. Com a partida tomando conta do hotel (o dono ajuda Queimado) e da própria cidade, o turista alemão passa a ser visto como um perigoso nazista: não volta para o seu país, perde o emprego, fica sem dinheiro, é abandonado pela namorada, mas está resistindo bravamente aos avanços dos exércitos opositores. A diversão inocente toma lugar da realidade e Berger vê todo mundo como inimigo, tendo que seguir sozinho nesta guerra de espectros: “éramos como fantasmas que pertenciam a um Estado-maior fantasma exercitando continuamente em tabuleiros de wargames” (p.335).
Apesar da aparência lúdica e inofensiva, essas distrações adultas funcionam como um inconsciente nazista, que pode aflorar paranoicamente a qualquer momento. A confusão entre jogo e realidade vivida pelo personagem denuncia que os conflitos bélicos do passado continuam ativos, como uma velha ogiva subterrânea, prestes a explodir.
O enredo tinha tudo para ser monótono. Um jovem alemão (Udo Berger) vai passar as férias com a bela namorada, Ingeborg, no litoral da Catalunha, escolhendo o mesmo hotel onde, na infância, gastava os verões na companhia dos pais. O retorno não é acidental, ele quer rever a bela dona do estabelecimento, Frau Else, por quem nutriu um amor secreto. Especialista em jogos de guerra, Udo tem dois projetos para as férias: escrever um artigo técnico sobre o seu passatempo e preparar-se para produzir um romance. Resolve então se dedicar a um diário – que é o livro em questão.
Os dias iniciais se perdem na monotonia própria da praia. Banhos de sol (dos quais ele foge), amizades novas e perigosas (entre elas, um casal de conterrâneos), saídas para casas de show, bebedeiras etc. Enquanto isso, Berger arma o seu jogo em uma mesa no quarto e começa a teorizar sobre ele. Há, assim, um contraste entre a vida exterior (descompromissada) e a interior (tensa por conta de sua dedicação aos jogos – ele é campeão nacional desta modalidade de esporte). Aos poucos, a vida interior vai se sobrepondo à outra, e tudo assume um ritmo alucinante. O amigo alemão (Charly) morre depois de ter espancado a namorada; Ingeborg se assusta com a vila marítima e vai embora; Berger é atraído por um homem musculoso e todo deformado (o Queimado), que mora na areia da praia, vivendo de alugar pedalinhos.
Sozinho no hotel, sem sair e acordando tarde, ele convida este conhecido para disputar o jogo, reencenando a Segunda Guerra Mundial: com Queimado no papel dos aliados e Berger no dos alemães. É um jogo longo, que avança durante várias noites. O campeão ensina as regras ao inimigo e, aos poucos, começa a ter dificuldades para batê-lo.
Paralelamente, Udo tenta seduzir Frau Else, que espera a morte do marido muito doente. As suas férias acabam suspensas e se acirram as rivalidades amorosas e nacionais. Com a partida tomando conta do hotel (o dono ajuda Queimado) e da própria cidade, o turista alemão passa a ser visto como um perigoso nazista: não volta para o seu país, perde o emprego, fica sem dinheiro, é abandonado pela namorada, mas está resistindo bravamente aos avanços dos exércitos opositores. A diversão inocente toma lugar da realidade e Berger vê todo mundo como inimigo, tendo que seguir sozinho nesta guerra de espectros: “éramos como fantasmas que pertenciam a um Estado-maior fantasma exercitando continuamente em tabuleiros de wargames” (p.335).
Apesar da aparência lúdica e inofensiva, essas distrações adultas funcionam como um inconsciente nazista, que pode aflorar paranoicamente a qualquer momento. A confusão entre jogo e realidade vivida pelo personagem denuncia que os conflitos bélicos do passado continuam ativos, como uma velha ogiva subterrânea, prestes a explodir.
Serviço: O Terceiro Reich. Roberto Bolaño. Tradução de Eduardo Brandão. Cia. das Letras, 344 págs., R$ 45.
Boa tarde.
ResponderExcluirDurante as férias li, parcialmente, 2666 do mesmo autor. É uma obra e tanto. Saberia me dizer de onde ele tirou este título?