segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

LEVEZA

Conheci pessoalmente Moacyr Scliar em 9 de dezembro de 1986. Havia concluído o curso de Letras e tentava me estabelecer em Porto Alegre, onde vivi perto de um mês. Fascinado com a cidade, percorria os sebos, comprando obras longamente desejadas. Quando soube que Scliar estaria lançando o volume de contos O Olhar Enigmático (Guanabara, 1986) em uma livraria próxima, corri até lá para pegar o autógrafo.
Havia pouca gente e pude conversar com o autor, que escreveu duas dedicatórias exageradas – comprara também a quarta edição de O Carnaval dos Animais. Eu descobriria depois que, generoso, Scliar elogiava todo mundo, jamais frustrando quem o procurava. Ele sempre atendia aos pedidos mais irrelevantes, cedia textos já publicados, escrevia outros sob encomenda, respondia rigorosamente os e-mails – e tudo com grande rapidez.
Naquele primeiro encontro, eu era ainda o leitor tímido fascinado com um de seus autores prediletos. Em Scliar, cultuávamos um uso do realismo mágico que transcendia a questão política tão opressiva na ditadura militar por meio de recursos fantásticos derivados de sua formação judaica. Havia, portanto, um viés político e outro étnico na sua produção, o que lhe dava um lugar único nos anos 70 e 80. Também era forte a presença da cidade de Porto Alegre, que ganhara em seus livros uma latitude mítica e ao mesmo tempo muito real.
Além da tendência para o humor, para a ironia, duas características textuais estariam presentes em seus textos – uma leveza e certa rapidez narrativa. Isso faz com que eles, em alguns momentos, soem superficiais. Não vejo tal opção como defeito, antes como qualidade. Scliar nunca quis escrever “O Grande Romance”, daí o tom agradável de seus livros e também de suas falas públicas, que tendiam para parábolas. Ele jamais cansava a plateia.
Ficará, por isso, como um dos grandes mestres contemporâneos que ajudou a tirar o peso de nosso idioma literário.

Publicado no Caderno G, Gazeta do Povo, 28 de fevereiro de 2011.

5 comentários:

  1. que privilégio o seu tê-lo conhecido e eu não conhecia essa generosidade dele.

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  2. Você conheceu Moacyr Scliar em dezembro de 86, quando eu ainda iria completar um ano de vida. Foi em dezembro, também, (desta vez do ano passado) que eu dei pulos de alegria ao ver o nome de Scliar entre os convidados da próxima Bienal do Livro de São José dos Campos-SP, que acontecerá em abril. Achei que pudesse conhecê-lo e até ousaria em entrevistá-lo. Mas seria demais para mim... Ele se foi e eu só o conheci por meio de seus livros. Sobrou uma sensação de vazio, de repente...

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  3. Também fui uma leitora tímida e fascinada por Scliar, Miguel. Aqui conto como o conheci:
    http://tatilazz.blogspot.com/2011/02/meu-caso-com-o-moacyr-scliar.html
    E continuo admirada com sua bondade.

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  4. Recomendo a leitura do livro O texto, ou: a vida - uma trajetória literária, publicado pela Bertrand. Nele, Scliar está presente de corpo inteiro.
    m.

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