Depois da leitura prazerosa dos contos de Moacyr Scliar, agrupados por ordem temática (Contos Reunidos. Cia das Letras, 1995), percebemos com clareza a extensão de sua importância. O contista, apresentado agora de corpo inteiro, é uma das mais consistentes vocações para a história curta na língua portuguesa. Ao contrário do que se pensa, Scliar não pode ser lido como um escritor prioritariamente do fantástico, ou seja, como um técnico que faz do maravilhoso uma receita narrativa. A sua grandeza não está na natureza sobrenatural de algumas de suas histórias. O fantástico aparece como um expediente necessário para expressar uma visão de mundo contundente e desencantada. O humor amargo, que extravasa da anedota judaica, é um recurso que chama a atenção para a ausência de sentido da ilusões humanas assim como o insólito serve para retratar seres que cruzam a linha da normalidade. Mas, em última instância, o que temos é um escritor que busca colocar o leitor diante da tragédia que é a vida. Revelador, nesse sentido, é o desfecho do conto “Entre Sábios”(p.246): o menino que responde as perguntas dos sábios, sem errar nada, mostrando que domina o conhecimento humano, cala-se diante da pergunta crucial que nenhum erudito poderá responder:
Empurrando os outros, um velho passou à frente e encarou o menino:
- Qual o sentido da vida?
A sua é uma literatura inconformada com o vazio da aventura humana. Não encontraremos, portanto, uma imaginação totalmente livre, desapegada do real e nem uma exposição alegórica das relações sociais - tão ao gosto dos escritores brasileiros que produziram durante o período da ditadura militar. Scliar, que faz parte dessa geração, lega para a posteridade uma obra que ultrapassa o momento histórico de seu surgimento justamente por ser portadora de uma visão mais abrangente da problemática humana. Suas histórias visam antes pôr em questão o próprio significado da vida humana do que este ou aquele regime político e social.
Indo com naturalidade do cotidiano mais sem transcendência até os fatos insólitos, tratados de forma absolutamente não-enfática, o que leva o leitor a aceitá-los sem exigir nenhuma tipo de verossimilhança, Scliar opera a passagem do sonho para a realidade, do cotidiano para o fictício, criando vias de comunicação entre estas esferas. Sua maestria reside na suspensão de fronteiras entre o artificial e o real, entre a imaginação e a observação, pólos antagônicos que são tratados, em seus contos, como territórios confinantes. Entre o elemento fantástico e o real há uma condição intermediária representada pela obsessão que transforma a vida dos personagens em uma idéia fixa que, levada ao extremo, rompe com a normalidade. A obsessão pode ser ilustrada por diversas histórias. Em “Os Contistas”, os escritores vivem atormentados pelo desejo da obra perfeita e reveladora num mundo impermeável à literatura. Já no conto “O Sindicato do Calígrafos”, tais profissionais fazem de sua arte obsoleta uma forma de resistência vazia a um mundo onde eles perderam o sentido. Ou ainda em “Os Necrologistas”, conto em que estes tentam assumir um papel de relevância numa sociedade marcada por um horror à morte; os necrologistas mais íntegros se dilaceram pela necessidade, inerente à própria função, de elogiar os falecidos para que os feitos deles sirvam como um estímulo aos que alimentam projetos de sucesso mundano, sendo obrigados a omitir, no necrológio, a vacância que carateriza a vida na sociedade burguesa. Estas profissões em vias de extinção aglutinam seres que têm uma existência excêntrica e que, por isso, se opõem às ilusões reinantes.
A linguagem de Scliar é de uma clareza excepcional, o que cria o contraste com histórias que muitas vezes não se deixam revelar. Este encontro entre linguagem transparente e sentido oculto, ou ausência de, faz com que o leitor fique entre dois territórios. O humor entra como um recurso estóico: rir de nossa condição finita e sofredora é uma maneira de aceitá-la olhando-a de frente.
Longe de contribuir para uma literatura “sorriso da sociedade”, o autor povoou o seu universo ficcional com indivíduos em atrito com o meio: o louco, a criança, o profeta, os doentes, o judeu, os pequenos empregados, os aposentados, os profissionais cujas ocupações estão em desuso etc. Eles representam uma camada de desajustados sociais que acaba sendo portadora de uma imagem não idealizante da sociedade. Muito mais do que literatura judaica ou fantástica, temos em Scliar uma literatura da exceção, ou seja, que busca refletir trajetórias humanas que sideram fora do eixo solar da vida moderna burguesa.
Seguindo a divisão temática dos contos, encontramos os elementos aglutinadores desta visão de mundo. As histórias que fogem do ordinário, por apresentarem elementos estranhos, fantásticos ou meramente obsessivos, representam o maior filão desta obra: 37 contos, divididos da seguinte maneira:
- “Estranhas Criaturas” (4), grupo formado por histórias que retratam seres marcados pela diferença;
- “Cenas Insólitas, Cenas Penosas” (23), narrativas em que os personagens experimentam o sofrimento gerado pelas características excepcionais que os distinguem das pessoas comuns;
- “Enfermos” (10), em que a diferença geradora de atritos é produzida por um problema de saúde.
As relações de poder, em suas várias esferas, constituem o segundo grande grupo de contos (30), ajuntados sob os títulos de:
- “Os Jogos do Poder e da Fortuna” (23), série em que o autor dá a conhecer os mecanismos de opressão na sociedade capitalista;
- “O Rei e Seus Súditos” (4), aqui o poder aparece dentro das estruturas milenares do imaginário popular;
- “Bestiário”(3), módulo em que o poder é exercido contra ou por um animal.
Outro grupo é o das narrativas que promovem uma releitura de passagens históricas (11):
- “A Bíblia Revisitada” (6), adapatação das passagens bíblicas a uma realidade nova;
- “A Ficção da História” (3), momento em que Scliar promove a revisão livre de alguns fatos históricos;
- “Os Heróis” (2), seção que trata das agruras de personagens míticos.
Os outros três temas são:
- as experiências das crianças, em que a justiça e a perversidade são as faces de uma mesma medalha (“A Maldade da Infância” - 10 contos);
- as esdrúxulas e/ou ultrapassadas ocupações que definem uma espécie de exílio do presente (“As Profissões”- 9 contos);
- e as impossibilidades de entendimento entre as pessoas, apesar de todos os recursos técnicos de comunicação (“Meios de Comunicação”- 6 contos).
(É claro que a presente divisão não é rigorosa e apresenta variantes, mas é uma tentativa de sintetizar as principais linhas destes contos numa espécie de fotografia aérea compatível com a extensão do artigo).
Em todas estas histórias, deparamo-nos com elementos ou comportamentos atípicos que desencadeiam reações de estranhamento. Esta parece ser a grande característica da obra em questão: solapar, a partir de um amálgama do normal e do anormal, os alicerces do leitor.
Se, como já ficou dito, as histórias de Scliar se distinguem das produzidas sob o rótulo de realismo fantástico no Brasil do período militar, elas também se diferenciam desta mesma literatura produzida pelos hispano-americanos. Nestes, o que impera é uma visão exótica de um continente conhecido pitorescamente pela tradição mística, de raízes indígenas. O realismo maravilhoso entra nessas histórias latino-americanas como um elemento de cor local que, mesmo sendo altamente crítico, acaba correspondendo a uma idéia estereotipada de nossa realidade. Tal literatura acabou fazendo sucesso mundial não por propor uma nova interpretação deste canto da América, mas por confirmar a imagem que o resto do mundo fazia dela. Por isso, o realismo mágico praticado, para dar apenas um exemplo, por um Garcia Márquez é uma faca de dois gume em que revolta e contemporização aparecem geminadas.
Scliar não pode ser pensado dentro destes padrões. O fantástico em sua obra funciona antes como uma maldição, como uma desgraça que faz com que o sujeito entre em choque com o mundo circundante, enquanto a literatura maravilhosa mais adocicada e menos problemática se limita, muitas vezes, a fornecer uma definição de um meio outro em que a magia reina. As histórias de Scliar não se querem definidoras de uma realidade local. Em seus contos, quem aparece é o homem da Porto Alegre atual, mas é também o homem bíblico e o homem moderno de qualquer lugar do planeta.
A obra do contista é, com certeza, a mais importante de nossa literatura dentro da temática que a caracteriza. Scliar figura como um dos nossos grandes contistas vivos, ao lado de Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. Escrevendo com fluência, de forma sintética e arrebatadora, ele construiu um universo próprio em que a condição de judeu enriquece sua produção sem conduzi-lo para o território da ficção essencialmente judaica, que restringiria, a meu ver, a sua visão. Estamos diante de um dos mais ricos retratos do homem moderno em sua vivência do relativo.
Gazeta do Povo, 30 de janeiro de 1996.

essa notícia entristeceu o dia.
ResponderExcluireu tô lendo bem esse livro, desde fevereiro, amando!
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