Por Vinicius Jatobá, Sabático, O Estado de S. Paulo, 26 de março de 2011.
Escritor de impressionante versatilidade de gêneros, o paranaense Miguel Sanches Neto é o autor mais discreto de sua geração. Provavelmente é o melhor escritor que os leitores jamais ouviram falar: é um autor sério num mundo cuja literatura é marcada por uma distopia crescente. Seus livros trazem uma energia anacrônica: personagens bem construídas, um evidente gosto pela trama, uma preocupação em fazer com que as ações da narrativa não sejam gratuitas. Causa espanto que não seja mais conhecido.
Em menos de uma década, Sanches Neto lançou três romances sólidos e bem estruturados. A saga de imigrantes Um Amor Anarquista parece talhada da melhor tradição realista; e A Primeira Mulher é uma engenhosa tentativa de lidar com os bastidores da política. O divertido Chá das Cinco Com o Vampiro, uma deliciosa sátira ao meio literário, é uma leitura ágil e curiosa. Seu livro mais emotivo é o falso romance Chove na Minha Infância, o primeiro que publicou, no qual explora todos os temas que desenvolveria mais tarde.
Sanches Neto chega agora às livraria com um novo livro, uma coletânea de contos intitulada Então Você Quer Ser Escritor? Como é comum no Brasil, trata-se da reunião de textos dispersos, muitos publicados em outros suportes, o que explica a desigualdade entre as histórias - não apenas em qualidade, o que seria esperado, mas em intenções e desejos. é visível que os contos representam uma espécie de desenvolvimento de preocupações do escritor Sanches Neto ao longo da década, uma vez que alguns se aproximam bastante em tom de Chove na Minha Infância, enquanto outros passam por questões de reconstituição histórica e alguns são mais frios, como a prosa de A Primeira Mulher.
Os temas dos romances estão aqui. O conflito entre o amor idealizado e o amor real; a luta da cultura da província diante de uma cultura da metrópole; a relação entre mestre e aprendiz, que perpassa desde o trabalho da fazenda até algo mais alusivo como o ofício literário; a herança, e o que fazer com a responsabilidade da herança; a dor do luto, e como ocupar a ausência daqueles que partiram. Há três contos brilhantes: O Tamanho do Mundo, O último Abraço e Jogar Com os Mortos, que lidam com o universo do luto, cada um de forma distinta. Animal Nojento talvez seja um dos contos mais tensos da literatura brasileira. A história que dá título ao livro é uma curiosa exploração entre literatura e sexo, e um raro conto bem realizado que explora o erotismo numa literatura demasiada carochinha como a brasileira.
Nunca alguém disse tanto em tão pouco espaço sobre o trabalho deste provinciano.
ResponderExcluirA todas as qualidades mencionadas no artigo, eu ainda acrescento a modéstia, que em Miguel é sincera.
ResponderExcluirAlém dos contos do citados, todos ótimos, eu cito Seios de menino. Pela história de vida das personagens, com as quais me identifiquei. Cada conto nos dá um prazer diferente.
Entre tanta coisa que me encanta nas histórias de Miguel, além de minha identificação com o universo interiorano que ele descreve tão bem, gosto muito da maneira como o erotismo é tratado. De um modo muito natural, permeia uma história, se mostra cruamente presente, sem chocar. É preciso ser um tanto genial pra conseguir esse raro equilíbrio das palavras que, ao mesmo tempo em que explicitam, não dissipam a poesia de cada cena, e muitas vezes contam sem dizer. E alguma coragem também para se colocar de maneira que nos parece, na leitura, quase pessoal de tão verdadeira.
Lembro-me aqui de uma crônica publicada no livro Impurezas amorosas [não o tenho em mãos aqui em mãos, por isso deixo de mencionar o título] em que um casal ainda jovem está em férias numa praia, e admitem individual e secretamente suas fantasias eróticas, absolutamente doces e puras mas, se lidas com lupa, poderiam fazer corar um leitor mais pudico e preconceituoso.
Esse equilíbrio é outra característica deliciosa nos textos de Miguel.