1.
Tive pai até os quatro anos, e logo depois ganhei um padrasto, com quem hoje até que me entendo.
2.
Mãe eu venho tendo desde julho de 1965, e espero que por muitos anos ainda.
3.
Fiz alguns estudos, mas esqueci quase tudo.
4.
Do que não me esqueço é da infância – não onde nasci, Bela Vista do Paraíso, mas onde o desejo nasceu em mim – a perdida Peabiru.
5.
(Desejo e cidade que espero não morram enquanto eu não me recolher, sob protesto, a um incerto túmulo.)
6.
E por falar em moradia, paguei financiamento de um apartamento em Curitiba (nunca quitado) e aluguel em Florianópolis e Campinas.
7.
Mas foi Ponta Grossa que me deu casa própria, embora com esta cidade eu tenha sido tão impróprio.
8.
Não gosto de festas; sou mais é de boteco.
9.
E, em matéria de sexo, casado desde 1987 com aquela que era quase uma menina e hoje é senhora de mim.
10.
Temos parceria em dois filhos – de idades tão desencontradas porque frutos das próprias vontades.
11.
Minha formação literária foi na base da errata. Errei tanto que o equívoco acabou virando estilo.
12.
É verdade que sempre pensei torto, e talvez isso também tenha contribuído.
13.
Ou você escreve ou você acumula créditos.
14.
Meu padrasto vendia tomate na feira; com aqueles meio podres, ele fazia um molho que, no dia seguinte, passava pra frente.
15.
Literatura é o molho que faço com esses dias morrentes.
Natureza morta com cavalas, limões e tomates - Van Gogh

adorei conhecer vc um pouco melhor. beijos, pedrita
ResponderExcluirÉ a radiografia expressa de uma vida, Miguel. Somos, ah...somos, sim, leitores felizes diante da certeza de que você é real, está entre nós, conversa gentilmente com o leitor, autografa os livros, ajuda a desencadear o gosto pela leitura e, o mais curioso e singular, não se furta à interação twuitteira.
ResponderExcluirQue a saúde seja a sua companheira fiel, cheia e cuidados para que você continhue escrevendo assim, com alma e jeito de gente bem conhecida, real.
Receba o meu abraço, M.
O que eu poderia falar, a professora Doralice já disse, com muito mais propriedade.
ResponderExcluirVocê é um homem que, ao se dispor ao contato com os leitores, de uma forma tangível, clara, real, contribui para desmistificar muitas ideias equivocadas (que pelo menos eu sempre tive) sobre literatura e escritores.
Um homem, um escritor que, sem dúvida, não terá passado em vão por aqui. E que fique muito e muito tempo ainda.
Forte abraço.
Caros
ResponderExcluirDizia o Dalton Trevisan: o bom leitor torna o texto melhor.
Grato
msn
Caro Miguel,
ResponderExcluirA analogia do molho de tomate com a literatura é linda.
Parabéns.
p.s. - Tenho em casa há uns 5 anos um exemplar de Um amor anarquista, que nunca li. Talvez esteja chegando a hora.
abs
E a recíproca também é verdadeira.
ResponderExcluirUm bom texto nos torna melhores leitores, mais estimulados a cada dia. Melhores leitores, melhores pessoas.
gostei muito!
ResponderExcluirPaulo, Alex, Anamaria
ResponderExcluirEste é mais um dos meus "textos para nada" - título de um livro de Samuel Beckett. O único lugar que podia publicá-lo é aqui no blog. Valeu pelo retorno.
abraço
msn
Acabo de ser seu seguidor neste espaço. Vejo em sua obra muito de mim e de minha vida. Acredito que isso aconteça com muito de seus leitores; afinal, no fundo somos todos iguais. Fiz Jornalismo em Ponta Grossa e morei algum tempo fora do Brasil. Hoje tento escrever em português e inglês e pouco consigo. Uma autocrítica monstruosa me destrói a cada tentativa. Mas você é tudo o que eu queria ser. Passei esses dias pela entrada de Peabiru e lembrei-me de você. Tenho essa mania, esquisita, de me ligar à placas, ruas, construções e muito mais em ruínas. Gostei muito do "Chá das Cinco". Vivi isso de uma forma bem mais cruel no Jornalismo. Fui um misto de Lucien, de Balzac com o escrivão Isaías Caminha. Agora tento me reerguer e sustentar dignamente meu filho de 3 anos com algumas coisas que mal ou porcamente sei fazer; entre elas, escrever para revistas.
ResponderExcluirParabéns por tudo o que representa em nossa literatura.
Oi, Emildo
ResponderExcluirGrato. Espero que a gente então se cruze por aí. Recomendo nesta linha do livros citados - O inferno é aqui mesmo, do mestre Luiz Vilela, a prosa mais cristalina do Brasil, e fala dos bastidores do jornalismo brasileiro.
Abraço
msn
Obrigado! Vou lê-lo, com certeza.
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