quinta-feira, 17 de março de 2011

O QUE A POBREZA ENSINA


Revista D'pontaponta, n. 185, março de 2011 - http://www.revistadp.com.br/

Ter sido pobre tem lá as suas vantagens. Sei que isso soa como heresia, mas é assim que vejo a coisa toda – aliás, não aconselho ninguém a ver a coisa toda. Um ex-pobre, por exemplo, valoriza as conquistas mínimas. Se conseguiu pagar mais uma prestação do carro popular, ele se sente um vencedor. Enquanto, na infância, tinha que ir a pé para a escola, agora pode levar os filhos de carro, ao som do último lançamento de uma dupla sertaneja qualquer – lógico, nem tudo é perfeito.
Pobre se contenta mesmo com pouco. Quer ver? Uma moça muito bonita fisgou um velhote endinheirado e agora desfila a tiracolo de uma cabeleira branca, sentindo-se a mais realizada das mulheres.
Um desses Cabeleiras Brancas um dia filosofou:
– Quem gosta de homem bonito é estilista. Mulher gosta é de conforto. E isso eu posso dar.
Ele entendeu a natureza profunda da miséria e tirou o máximo de proveito.
Pois esta é a grande verdade sobre a pobreza: nós nos contentamos com coisas básicas. Podemos ser felizes apenas por ter dinheiro para comprar, no mercado, a lingüiça e a cerveja. E fazer um churrasquinho em plena quarta-feira, convidando todos os amigos. Pobre acha que tem muitos amigos. E tem mesmo. Todo mundo ajuda quem está na pior. Mas apenas o Governo ajuda os banqueiros e empresários falidos que passam os feriados em Punta del Leste.
Um dos maiores ensinamentos da pobreza está relacionado à comida. Na minha infância, minha mãe fritava apenas um bife – minúsculo – para cada filho. Mas havia, em abundância, outros alimentos igualmente saborosos: arroz, feijão, abobrinha, jiló, farinha e couve. Estávamos em fase de crescimento, e comíamos muito. Hoje, é nossa barriga que está em fase de crescimento, apesar de comermos pouco. Naquela quadra de nossa biografia, comida era artigo de primeira necessidade. Hoje, as primeiras necessidades ficaram muito mais complexas – e até livro está entre elas.
Então enchíamos um prato com o que era abundante – no bom sentido da palavra abundante – e reservávamos num canto, para poder ficar salivando, o bife tão esperado. Comíamos a comida de olho na mistura.
Explicação aos jovens: carne ou similares eram conhecidos como mistura. Nem sempre tínhamos mistura, embora não nos faltasse comida. E a deixávamos sempre para o final. Ah, lambuzar o bife no caldo do feijão era uma verdadeira orgia gastronômica. E avançávamos lentamente para retardar o momento em que atacaríamos, armas em riste, o bife suculento, não obstante pequeno.
Pobre gosta de bife. De preferência bife a cavalo, porque ovo e carne formam um dueto insuperável.
Por falar em ovos – com o devido respeito às senhoritas que estão na sala –, lembro-me que um dos nossos pratos de resistência era a gemada. Nada a ver com o que vocês conheçam como gemada.
Batíamos duas ou três claras num prato fundo até que o garfo parasse em pé na gosma que se formava. Depois, acrescentávamos farinha de mandioca torrada – a melhor do mundo, da marca Pinduca, outrora feita em Araruna, cidade ao lado de Peabiru – e mexíamos. Em seguida, um pouco de açúcar. E, por fim, as gemas. Era para comer de colher.
A pobreza ensina a criar novos pratos. E eu, que já não sou formalmente pobre, ainda guardo esta preferência pelo improviso e sempre deixo o melhor quinhão para o final.
Quem já foi pobre há de se alembrar.

8 comentários:

  1. O que descreve nesse texto tem muito a ver com minha infância. Não passei fome mas não tinha fartura e a carne, pôxa vida! Era isso mesmo, um pedacinho para cada um. Certa altura da vida, uma prima minha casou com um português que tinha churrascaria. Ficamos bem pois ele trazia toda noite restos de carnes que sobravam e dividia com a vizinhança. Minha mãe improvisava pratos deliciosos com essa carne. E éramos felizes a beça. Boas lembranças...
    Abraço,

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  2. Sim, comigo também foi bem desse jeitinho aí. Acrescento o detalhe do ki-suco ou do vinho misturado com água e açúcar (hoje considerado um sacrilégio). Programão era sair numa lanchonete com o pai e tomar cada irmão um guaraná. Os mais jovens ou os que nunca viveram esse bife único não compreendem o porquê de acharmos um tanto nababescas as churrascarias de rodízio. A discreta culpa em ir amontoando aqueles pedaços menos tenros no pratinho. Beijos, Vanessa.

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  3. Meninas, o que eu vivi, o que nós vivemos, muitos outros também viveram. Pobre é tudo igual mesmo.
    abraço
    msn

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  4. Você conseguiu reproduzir as nossas histórias, Miguel e fez com as suas vivências um texto comovente.

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  5. Delicioso texto! Nossa! Voltei à infância com essa sua lembrança da farinha Pinduca, de Araruna...

    Não sei se por ter vivido experiência muito parecida, até hoje me recuso a frequentar restaurantes caros (até porque, se deixei de ser propriamente pobre, estou longe de ser rico e rasgar dinheiro), a deixar comida estragar, colocar no prato mais do que posso comer, a pagar caro até mesmo por uma simples pizza metida a besta, quando ainda tanta gente passa fome.

    Não é exatamente que eu deixei de ser pobre mas a pobreza não me abandonou. Acho que alguém que já esteve perto do limiar da carência não pode, nem deve, esquecer sua origem. Que, francamente, é a mais autêntica pra maioria dos seres que habitam esse planeta. Nós, você, eu, essas colegas que já comentaram, somos os normais.

    Até hoje tenho esse hábito: a mistura fica sempre pro final! O prazer parece ser maior, mas sei que, nesses momentos, estou dialogando com o menino que ainda resiste em mim.

    Jamais farei a apologia da pobreza, mas que passar por ela, sem chegar à miséria, ajuda, como ajuda! a ter uma visão um pouco mais generosa, menos arrogante em relação ao próximo.

    E, ao final, somos resultado da nossa história!

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  6. Alex e Doralice
    A literatura cumpre duas funções básicas: identificação (ver o outro como um igual) e a mutação (ser igual a um outro tão diferente).
    abraço
    msn

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  7. Tocante. Muito. Especialmente a combinação da imagem com o texto.
    Aliás, a imagem... me fez sentir mal por ter o que tenho...
    Pobre de nós.

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  8. Também fui criança. Lá no interior do Paraná, nas terras de nome Nova Cantu, Campo Mourão. Pulava as toras de árvores derrubadas à procura de ovos para gemada. Eram conhecidos como ovos caipira; Lembro-me também que além das misturas e das saladas, incluindo jiló, tinhamos leite coalhado que eu ganhava pelo serviços prestados ao patrão da fazenda. Acredito que foi o melhor tempo da vida, porque existia abundância de tudo apesar da falta de algumas coisas. Parabéns pelo texto.

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