Por Ruy Espinheira Filho
Livros de poemas existem muitos, as livrarias estão cheias deles, assim como as bibliotecas, mas livro de poesia é coisa rara. O poema é uma construção, boa ou ruim (geralmente ruim), poucas vezes contendo poesia. Por isso não podemos deixar de comemorar quando sai um livro como Alugo palavras, que o poeta, crítico, contista e ensaísta Miguel Sanches Neto acaba de lançar pela editora Edelbra, do Rio Grande do Sul.
Trata-se de um volume pequeno, 111 páginas, mas todo composto de textos altamente poéticos. Desde “Introdução” o leitor se vê respirando uma atmosfera de poesia que vem da infância ao homem maduro. Num estilo de extrema simplicidade (o que, paradoxalmente, significa complexidade, pois nada é mais difícil do que escrever com simplicidade), com delicadeza, mas grande força, o autor nos emociona. Como, no primeiro texto, após revelar que seu avô e seu pai tinham sido analfabetos, escreve: “Toda vez que assino meu nome, meu avô e meu pai assinam comigo.”
Se o que esperamos de um livro de poemas é emoção poética, de nada sentimos falta em Alugo palavras. Após “Introdução”, poética e grave reflexão sobre livros, leitura e escrita (a que retorna em “As palavras”), Miguel Sanches Neto nos oferece composições exemplares, feitas de vida. Da vida com seus rumos e desnorteamentos, como vemos em “Caminho”: “Há um caminho por onde passo/ e outro que passa por mim. // Um anda por meus passos/ e não tem fim. // O outro é onde meus passos/ perderam-se de mim.”
A iluminação poética ─ às vezes autênticas epifanias ─ está em todas as páginas. Especialmente marcante em (meu gosto pessoal), além do citado “Caminho”, “Família”, “Vendo uma foto antiga”, “De volta ao sono”, “Reclusão”, “Trapaça”, para só ficarmos nestes exemplos. Transcrevo “Vendo uma foto antiga”: “Nesta foto do tempo de criança/ o que mais me encanta/ não é nossa alegria de infantes/ mas a réstia de luz de uma manhã/ brilhando no chão da varanda// Ninguém apaga este sol/ que nos chega da infância.” Sol denso de calor humano, como a poesia de Miguel Sanches Neto.
In A Tarde (Salvador), 10 de março de 2011.
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